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 | Albari Rosa/Gazeta do Povo
| Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo

Esta é a história do meu tio Mauricio, que provocou uma grande confusão na família por causa do Natal. O tio era um homem inteligente e sensato. Mas principalmente, era solteiro e endinheirado. Não exatamente rico, mas como alguém bem-sucedido no trabalho e que não teve filhos, ele pode fazer um bom pé-de-meia. Pelo menos era isso que todos pensavam.

Se destaco a situação financeira do falecido tio é porque ela é fundamental para a compreensão da história que me proponho a contar. E se a conto é como homenagem a ele, que será sempre lembrado nos nossos Natais.

Não vou me prolongar mais nesta introdução porque logo serei chamada para a ceia.

O tio morreu no início de dezembro, mas esta história começa no primeiro domingo do Advento. Os telefones tocaram em cada endereço da família. Correu a notícia de que tio Mauricio havia deixado seu bem mais precioso para Francisco. Francisco é um primo torto, um agregado com quem não temos laços de sangue, mas que gostava de conversar com o tio Mauricio. O advogado marcara uma data para lhe entregar o "tesouro" do falecido.

A inveja, insidiosa, apresentou-se de mansinho nos comentários. No segundo domingo de Advento já havia se transformado em uma revolta sem sutileza. De tio Mauricio falou-se que era um traidor e um velho senil. De Francisco, um falso e um aproveitador. Francisco, veja só, é padre! Para que um padre iria querer um tesouro? Ia dar aos pobres? Com tantos sobrinhos precisando de ajuda para começar a vida? Com tantas sobrinhas fazendo planos de casar? Com os irmãos precisando de um reforço para a aposentadoria?

Só no terceiro domingo do Advento uma voz se ergueu para perguntar o óbvio. "Que tesouro é esse que o tio Mauricio guardava?" – perguntou Eduardo, com a ingenuidade de seus 12 anos. "Dinheiro, seu bobo", respondeu um. "Acho que é o apartamento dele com tudo que tem dentro", respondeu outro. "O tio não tinha um apartamento em Copacabana? Achei que fosse este o tesouro", disse um terceiro. Ficou claro que não sabíamos qual era o tesouro que o primo Francisco havia herdado. Teríamos que esperar que o próprio nos contasse.

Chegou o dia de Natal. No almoço da família, não faltou ninguém. Francisco foi o primeiro a aparecer. Lá estava ele, com o ar sossegado de sempre, sentado no sofá da sala com uma grande caixa de papelão na sua frente. Para desespero geral, avisou que deixaria para mostrar "essa benção que o tio Mauricio deixou" depois do almoço. Durante a refeição, fez um dos tios se afogar com a farofa ao comentar que iria dividir a herança com um imigrante haitiano, um professor de literatura que trabalhava em Curitiba como pedreiro. "Rapaz muito inteligente e culto", informou.

Depois da sobremesa, o grande momento.

– Venham, venham, preciso mostrar essas maravilhas que herdei – avisou Francisco, mais animado que de costume. – Vocês verão as preciosidades que nosso amado tio me deu.

Alguns dos irmãos do tio Mauricio estavam visivelmente irritados. Em pé, copo de cerveja na mão, se negavam a olhar diretamente para Francisco. Sua alegria os irritava. Sua simplicidade era interpretada como teatro. No fundo, diziam entre si, ele queria provocá-los. Ele, que nem da família era, um agregado que foi "adotado" por tio Mauricio para que pudesse estudar. Era um arrivista, isso sim.

Francisco, indiferente ao clima azedo que o cercava, chamou as crianças para chegarem perto e ver o que iria mostrar.

Caixa aberta, todos nos esticamos para olhar o que tinha lá dentro. Recortes de jornais? Talvez protejam o tesouro. Uma das crianças pegou um maço de recortes presos por um clips. "Cuidado para não misturar." – recomendou Francisco. Os recortes eram o tesouro. Como assim?

– Tio Mauricio colecionou ao longo dos anos casos reais em que o espírito de Natal produziu algo bonito. Ele pensava que esses pequenos milagres provam que o espírito existe. – disse Francisco.

A julgar pelas expressões que notei em meus pais, tios, primos e cônjuges em geral, ninguém entendia nada. O problema é que tio Mauricio não gostava de Natal! Ou pelo menos assim pensávamos. Ele nunca comprava presentes, não organizava festas e mantinha-se rigorosamente à parte da correria de fim de ano. Seu grande compromisso no dia 24 de dezembro era jogar damas com desconhecidos no Passeio Público durante à tarde. Carregava consigo um pacote de balas, que oferecia para os parceiros de tabuleiro. No caminho para casa, passava em um café na Praça Santos Andrade e cumprimentava os funcionários, que conhecia. No dia 25, pela manhã, caminhava no Parque Barigui, vazio como nunca. "Mas não sou o único." – me disse uma vez.

Pensando bem, meu tio também gostava de presépios. Levou todos os sobrinhos, cada um à sua vez, alguns várias vezes, para visitar presépios montados em igrejas. E, lembrando com mais cuidado, ele conhecia detalhes sobre os personagens do presépio. De onde tirara tantas informações sobre os reis magos? "Mais fácil um camelo passar por um buraco de agulha que um rico entrar no reino dos céus...", repetia, apontando para o Menino Jesus. "Ele estava falando sobre nossas responsabilidades." Admito que só agora entendo o que meu tio dizia.

Tio Mauricio gostava do Natal! De uma forma só dele, longe do barulho, longe do consumismo.

Peguei alguns recortes da caixa. Um repórter da Gazeta do Povo chamado Marcio relatava um encontro de pessoas solitárias, que se deprimem no Natal, mas que participavam de uma confraternização organizada por uma igreja, nas Mercês, onde se sentiam mais à vontade porque se compreendiam mutuamente. Texto bonito... Me emocionei. Em outro, o repórter André contava sobre um lugar de Curitiba do qual eu nunca havia ouvido falar: Terra Santa. De tão pobres, os moradores da Terra Santa nunca celebravam a data. Mas depois da reportagem, vários leitores doarem presentes, inclusive uma pequena Ferrari vermelha, que fez a alegria de um menininho carente. Enquanto isso, Francisco lia para as crianças outra história, que se passou em Ponta Grossa. A repórter Erica contava de um garoto pobre que escreveu dois anos seguidos para o Papai Noel: "Papai Noel, me ajude nos estudos, pois quero ser bombeiro". A funcionária dos Correios que leu a carta era esposa de um bombeiro, que, com a ajuda dos colegas, levou presentes para a família e mais 300 crianças da vizinhança. Reação do piá ao ver o carro de bombeiros trazendo um Papai Noel até sua casa: "Eu não disse que ele vinha?" – disse Everton para o irmão Emerson, que o havia chamado de bobo por sonhar.

Era este o espírito de Natal que tio Mauricio buscava nas páginas dos jornais. Algumas horas de magia, de fé no ser humano, de solidariedade, aquela generosidade que faz mais por quem ajuda do que por quem é ajudado. Porque quem é ajudado fica feliz, mas quem ajuda se transforma, se redescobre, se redime.

Também havia prints de páginas da internet de jornais portugueses, ingleses, franceses. Uma pilha inteira era de textos sobre a Trégua de Natal nas frentes de batalha de 1914. Nos jornais alemães era a Weihnachtsfrieden; nos ingleses, a Christmas Truce. Dizem que na noite do dia 24 e durante o dia 25 de dezembro daquele ano, ingleses e alemães pararam de lutar e saíram das trincheiras para trocar pequenos presentes e para cantar juntos. Tio Mauricio tinha dezenas de reportagens sobre aquele Natal nas trincheiras (nos anos seguintes, os comandantes proibiram as confraternizações).

Francisco me contou que havia livros também. Só o Conto de Natal de Dickens, aquele do velho pão-duro que é visitado pelos três fantasmas, aparecia em cinco edições diferentes na coleção do tio Mauricio. Eram esses livros que estavam sendo compartilhados com o haitiano.

A tarde daquele Natal passou assim, em meio a histórias. Minhas tias se emocionaram ao descobrir que o irmão vivia um Natal do jeito dele e mais rico do que o nosso. Os tios desistiram de criticar o irmão e suas escolhas "esdrúxulas". Foi um dia inesquecível.

E a herança? Foi regiamente dividida entre todos nós. Deu uma merreca para cada um.

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