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Causo metropolitano

Um lugar chamado Tranqueira

A população bem que tentou trocar o nome do local. Mas mudou de ideia ao lembrar sua importância no passado

  • José Carlos Fernandes, com colaboração de Ana Lúcia Superchinski
Domingos Stocchero no local onde nasceu Tranqueira, uma invernada para animais trazidos por tropeiros |
Domingos Stocchero no local onde nasceu Tranqueira, uma invernada para animais trazidos por tropeiros
 
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Um lugar chamado Tranqueira

Há pouco mais de uma década, cansados de ouvir gracinhas na hora de preencher a ficha de crédito nas lojas da capital, os moradores de Tranqueira – antigo distrito de Almirante Tamandaré, na Região Metropolitana de Curitiba – ameaçaram um levante e decidiram fazer um plebiscito. Mudariam o nome do lugar. Capivara, Morro Azul, Água Boa, Mato Dentro ou Campo Grande. Qualquer que fosse o escolhido seria melhor do que a criançada ouvindo gozação dos piás de Areias ou de Itaperuçu, seus vizinhos.

Assista ao vídeo para conhecer um pouco da história de Tranqueira

Veja algumas fotos do Povo de Tranqueira

“Mas ganhou Tranqueira por 700% dos votos”, inflaciona o veterano Domingos Natal Stocchero, 85 anos, conhecido como seu Mingo, ao falar do escrutínio. Foi histórico. Na época, a eleição fez a velha-guarda sair do sossego de seus sítios e impedir o que julgavam um desaforo. Além dos Stocchero, gente dos Antoniacomi, Vanelli, Cavalli, Gabardo, Chevônica e Chimelli, entre outros, ergueu a voz em defesa do nome oficial, alegando que a mudança equivaleria a desdenhar das gloriosas origens tropeiras de Tranqueira.

Só faltou o escritor Dalton Trevisan. Tido como o maior escritor brasileiro vivo, Dalton tem suas origens em Tranqueira. Sua mãe, Catarina, era de lá e ele chegou a citar a localidade nos textos de início de carreira, hoje renegados.

Pois os veteranos não só não precisaram do Vampiro como convenceram os indecisos e mexeram com os brios da população – hoje estimada em 15 mil habitantes –, dando início à fase “eu amo Tranqueira” (leia nesta página). Por ironia, o nome que causou uma pequena batalha eleitoral é um dos últimos patrimônios da antiga colônia: sobrou quase nada do entreposto comercial e dormitório de tropeiros que vinham do Vale do Ribeira rumo a Curitiba, conduzindo rebanhos, nos idos do século 19.

Perdas

Tranqueira fica a 21 quilômetros de Curitiba e a 10 quilômetros de Almirante Tamandaré, da qual se tornou um bairro. Está em cima do Aquífero Karst. É cortada ao meio pela Rodovia dos Minérios, que lhe presenteia em tempo integral com o barulho dos caminhões e a poeira branca que sobe das carrocerias. Para os motoristas, talvez não passe de um lugarejo de beira de estrada, com algum comércio em roda e uma bela paisagem de pinheiros. Não se deve culpá-los.

A centenária igrejinha de Santo Antônio ruiu em 1994 e deu lugar a um templo como todos outros. A estação de trem “Tranqueira”, a exemplo de outras da RFFSA, ficou na saudade: virou abrigo de ambulantes e acabou incendiada em 2006. A antiga pousada onde paravam os tropeiros foi ao chão e o terreno abriga agora uma unidade de saúde. A Sociedade Beneficente Tranqueira agoniza.

O casarão colonial dos Stocchero, na beira da estrada, virou lenha e abriu espaço para um posto de gasolina. Do moinho dos bijus, nem farelo. Os primeiros fornos para queimar pedra calcária tiveram o mesmo destino, deixando o distrito cada vez mais pelado de memórias. Nem o Cemitério de Tranqueira escapou à sina. Havia ali túmulos da época em que o Paraná começara a existir, mas nenhum deles guarda resquícios da arquitetura original.

Não é dos males o pior. O marco-zero de Tranqueira – uma área de invernada em que os animais conduzidos pela tropa ficavam protegidos – se resume agora a um pálido olho d’água, cercado de mato. Identificá-lo é tarefa possível apenas para veteranos como seu Mingo, que cresceu ouvindo falar que foi naquele pedaço de terra que tudo começou.

A versão mais aceita é que quando os tropeiros chegavam para o pernoite, atravessavam o Rio Barigui com água até as canelas e guardavam atrás das cercas as levas de gado, mulas, porcos e até de perus. Para se certificar de que os peões tinham feito bem o serviço, um capataz berrava, causando eco nos vales de Almirante: “Fechou a tranqueira?” Pois Tranqueira ficou.

Caso algum tranqueirense decida “imaginar como era”, só lhes resta olhar para a casa de lambrequins do francês Jean Geneviève, um dos tantos estrangeiros que escolheram o distrito para viver e morrer. Ou para a Fábrica da Banha do polonês Stanislau Mikala, fechada pela Vigilância Sanitária na década de 1980, mas as letras em relevo na fachada estão tal e qual. Vale uma foto na frente, com legenda: “Estive em Tranqueira e lembrei-me de ti”. Não duvide de que alguém o faça.

Em páginas

Almirante Tamandaré é tema de duas pesquisas históricas

Até o final deste ano, Almirante Tamandaré vai ganhar duas publicações sobre a história do município. A primeira vem de uma pesquisa inacabada, desenvolvida pelo poeta e historiador diletante Harley Clóvis Stocchero, morto em 2005. Os Stocchero figuram entre os clãs tradicionais do antigo distrito de Tranqueira, o que garante na obra destaque para a localidade. Familiares se encarregaram da finalização do projeto, intitulado Raízes Históricas de Almirante Tamandaré.

O segundo livro – Município de Almirante Tamandaré-PR: uma história em constante construção, de autoria do historiador Jorge Antônio de Queiroz e Silva e da jornalista e antropóloga Zélia Maria Bonamigo – é uma obra de fôlego, com cerca de 700 páginas, resultado de quatro anos de garimpagem e cerca de 60 entrevistas em profundidade. Enquanto Harley Stocchero se baseia na documentação oficial disponível na cidade, a dupla Jorge e Zélia investe também nas narrativas orais – tendo inclusive ouvido os veteranos de Tranqueira.

Origens

As origens de Tamandaré remontam a meados do século 19, quando se chamava Freguesia de Pacatuba e, posteriormente, Vila Conceição do Cercado. O nome atual coincide com o início da República. O que mais atrai os historiadores é a posição da cidade no vaivém dos tropeiros, vindos da Colônia Açungui, no Vale do Ribeira. Ao contrário do que se propala, a relação com o tropeirismo gaúcho se deu de forma pouco intensa.

Uma das descobertas dos pesquisadores é que os trajetos pelos interiores das colônias eram mais variados do que se afirmava até então, derrubando a tese de que a região era isolada. Um dos caminhos levava a onde está hoje o bairro Ahú, em Curitiba. “Havia grande procura de porcos para engorda, o que gerava ligações entre um ponto e outro da região. Não eram roteiros oficiais”, diz Zélia.

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Vida e Cidadania | 3:59

Um lugar chamado Tranqueira

Conheça a história de Tranqueira, bairro de Almirante Tamandaré, que já foi passagem de tropeiros do Paraná.

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