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35 anos

Uma revolução pacífica e intelectualizada

A Revolução dos Cravos acabou com o salazarismo e o império colonial em Portugal. No Brasil, no auge da ditadura militar, foi festejada por artistas

  • PorAnna Simas
  • 24/04/2009 21:13
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Flores, símbolos da paz

De acordo com o professor de história da USP Lincoln Secco, as flores são tidas como um símbolo socialista e a ideia delas colocadas em armas remete ao socialismo e à paz. A Revolução dos Cravos não foi violenta. Pregou a paz e usou o cravo vermelho como símbolo máximo do movimento. "As pessoas que vendiam cigarros nas ruas retiravam os cravos das lapelas dos homens que passavam e os colocavam nas armas, para representar a mudança sem necessidade de mortes." Secco explica que essa é uma ideia que já apareceu antes na literatura, com o livro O Menino do Dedo Verde, escrito em 1957 pelo autor francês Maurice Druon, adaptado para o teatro e encenado até hoje no Brasil. Nos protestos estudantis de 1968 na França, as flores também simbolizavam a paz e a liberdade.

Depois de 25 de abril de 74, Portugal viveu tempos de liberdade política e cultural. O professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Paulo Alves explica que o povo português comemorou ativamente a data mais ou menos até dez anos após a revolução. "Hoje não se tem lá mais esse entusiasmo, mas a data assume um sentido de se comemorar a liberdade e de se pensar a democracia."

Além dos cravos, a música "Grândola, Vila Morena", do cantor e compositor Zeca Afonso, foi escolhida pelas forças armadas como outro símbolo da revolução, pois durante o regime salazarista ela foi proibida por fazer referências ao comunismo.

Após a revolução, outras produções artísticas foram feitas em Portugal para contar a história de 1974, como o filme Capitães de Abril, da cineasta Maria de Medeiros que, segundo Secco, trata a data como uma revolução generosa que entregou o poder português na mão dos civis. (AS)

  • Confira as duas versões da música

"Sei que estás em festa, pá./Fico contente./E enquanto estou ausente/guarda um cravo para mim". Quem gosta do Chico Buarque certamente reconhece esse trecho da música chamada "Tanto Mar", cuja primeira versão foi composta em 1975. Quem se recorda da melodia, sabe que ela faz referência ao fado português. Não se trata de coincidência, pois a música é uma alusão direta à Revolução dos Cravos, que aconteceu em Portugal em 25 de abril de 1974, há exatos 35 anos.

A revolução, simbolizada pela imagem de cravos vermelhos saindo de armas e canhões, eliminou o regime ditatorial salazarista e se caracterizou por um ato pacífico que acabou com o fascismo português. Para os portugueses, é um marco de muitas transformações. É a partir dessa data que o país volta a se integrar com os países europeus e acaba com seu império colonial – principalmente na África. Até então, Portugal era o único país europeu que ainda mantinha colônias. Embora o Brasil estivesse vivendo nessa época também um período de ditadura, foi o primeiro país a reconhecer a revolução e acolher aqui os exilados do antigo regime português.

O professor de História Contemporânea da Universidade de São Paulo (USP), Lincoln Secco, lançou em comemoração aos 35 anos da revolução o livro 25 de abril de 1974 – A Revolução dos Cravos, que analisa vários aspectos da revolução dentro do contexto histórico e social. Segundo ele, o Brasil não estava muito preocupado com as transformações portuguesas, mas tinha interesse no fim do domínio dessa nação sobre os países africanos. Por isso não se importou em receber os militares do extinto regime, que acharam lugar para ficar no Rio de Janeiro, junto de um núcleo direitista do estado. Entre eles estava o primeiro-ministro português, Marcelo Caetano,que ocupou o cargo quando o ditador Antônio de Oliveira Salazar morreu, e foi deposto durante a revolução. Ele foi abrigado pelo Brasil e mais tarde chegou a dar aula na Universidade Gama Filho.

O Brasil vivia então o auge da ditadura militar e da repressão política. Tentava exterminar com tudo que ser referia a movimentos esquerdistas, como era o caso inicial da Revolução dos Cravos. Artistas e intelectuais brasileiros se empolgaram com a ideia de uma revolução que pendia para o socialismo. Assim, Chico Buarque escreveu a primeira versão da música "Tanto Mar," que mostra uma esperança nos bons louros que a revolução poderia colher. A música foi censurada por aqui mas chegou a Portugal ainda em formato de LP. Conforme os resquícios da revolução tomavam outros rumos, Chico refez a letra, em 1978, já com uma cara de insucesso do que prometia ser um governo de esquerda. O trecho "Já murcharam tua festa pá,/mas certamente esqueceram uma semente/ nalgum canto do jardim", remete ao desencanto causado pelo rumo da revolução.

O cineasta brasileiro Glauber Rocha foi para as ruas assim que soube da Revolução. Na época ele morava em Portugal e com uma câmera na mão – e uma ideia na cabeça – ficava nas ruas para registrar o andar da revolução e produzir o documentário chamado "As armas e o povo". "No Brasil ela não teve uma repercussão política , mas apenas cultural", diz o professor Lincoln Secco.

Em novembro de 1975, os militares de esquerda foram derrotados. Antes disso, Portugal sofreu várias estatizações, principalmente no sistema financeiro. Com o fim de um possível socialismo que a revolução poderia trazer para o país, Portugal volta a se identificar e se integrar com as outras nações europeias, e assumiu uma democracia capitalista semelhante à dos países vizinhos. "De certa forma, ela realizou o que podia, mesmo não tendo sucesso com o regime socialista, que era o que esperavam os intelectuais brasileiros que eram contra os regimes militares de direita", explica Secco.

O professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Paulo Alves diz que outro marco importante da revolução para os portugueses foi a melhora significativa na educação. Até então, o país tinha 38% de analfabetos e apenas 18% de eleitores. Nos anos que se seguiram, houve uma evolução grande no sistema de ensino. "Se está como está hoje, com um índice quase nulo de analfabetos, isso começou após 1974", comenta o historiador.

* * * * *

Serviço

Livro 25 de Abril de 1974 – A Revolução dos Cravos, de Lincoln Secco. Companhia Editora Nacional, 96 páginas, R$ 17,50

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