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Pulverização de lavoura: área plantada continua igual, mas volume de agrotóxicos aumentou | Jonathan Campos/Gazeta do Povo
Pulverização de lavoura: área plantada continua igual, mas volume de agrotóxicos aumentou| Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo

Boa notícia

Desmatamento em florestas nativas do estado se estabiliza

A boa notícia ambiental trazida pelos Indicadores de Desenvolvimento Sustentável ficou por conta da estabilização do desmatamento das florestas nativas do Paraná. O estudo mostra que, em um período de dois anos, o cenário paranaense apresentou uma sensível melhora. Em 2009, a cobertura vegetal remanescente do estado cobria 11% do nosso território. Em 2012, o índice havia saltado para 12,1%.

"Isso mostra que estamos praticamente estáveis neste quesito. As florestas estão se reconstituindo gradativamente, ao mesmo tempo em que se observa a ausência de desmatamento de grandes áreas. A atuação de Ongs e entidades ambientais tem sido muito positiva nesse sentido", disse Ana Cláudia Muller.

Apesar disso, o mapa mostra uma desproporção entre as diversas regiões do estado. Enquanto na bacia Litorânea conserva 71% de sua cobertura vegetal remanescente, as áreas da Região Noroeste do estado mantêm menos de 7% de suas florestas nativas (destacadas como "péssimo grau de conservação").

"Há uma preocupação muito grande, principalmente no Noroeste, onde a ocupação do solo é irracional. É um solo extremamente frágil, onde deveria ter muito mais cobertura vegetal do que temos hoje", avaliou o secretário Luiz Eduardo Cheida.

O estudo destaca que as áreas desmatadas correspondem àquelas em que se observa "intenso uso agrícola".

Indicadores

A publicação Indicadores de Desenvolvimento Sustentável não se restringe à dimensão ambiental. Também traz dados sociais, econômicos e de saneamento, além de apresen­tar um retrato de cada uma das bacias hidrográficas do Paraná. Entre os destaques estão levantamentos sobre recursos hídricos, saúde, analfabetismo, qualidade das águas e dos serviços de saneamento no estado.

As lavouras paranaenses estão recebendo um volume maior de agrotóxicos. Entre 2008 e 2011, enquanto a área plantada permaneceu estável, a quantidade do insumo pulverizada nas plantações do estado aumentou 20,3%. O consumo total chegou a 96,1 milhões de quilos, média de 9,6 quilos de defensivos por hectares ao ano. O avanço na aplicação do produto e os prejuízos diretos e indiretos à saúde são os principais alertas da publicação "Indicadores de Desenvolvimento Sus­tentável", divulgada ontem pelo Ipardes.

O mapeamento mostra que o cenário é mais preocupante nas regiões Central e Oeste do estado. Na área da bacia hidrográfica do Piquiri (Centro-Oeste), por exemplo, foram usados 19,3 milhões de quilos, mais de 20% dos agrotóxicos aplicados no estado.

INFOGRÁFICO: Veja o avanço tóxico nos mapas

Além de receberem o maior volume do insumo (chegando a 14,1 quilos por hectare ao ano), as lavouras dessas regiões são pulverizadas com concentrações consideráveis dos produtos classificados como "extremamente tóxicos".

O indicador revela que "onde há maior consumo de agrotóxico, a atividade dominante é a agricultura intensiva, com predomínio das culturas de soja e milho".

"Há produtores que não têm uma prática de manejo equilibrada. Na primeira praga, já é feita uma grande pulverização. É uma questão nada sustentável", aponta a coordenadora do estudo, Ana Cláudia Müller.

Risco à saúde

O estudo estabelece um vínculo direto entre o uso intensivo de agrotóxicos e os agravos à saúde dos paranaenses. As intoxicações causadas por esse tipo de insumo se concentraram justamente nas áreas onde a pulverização é maior. Por exemplo, enquanto a média de intoxicações no Paraná é de sete pessoas por 100 mil habitantes, na área da bacia do Paraná 2 (no Oeste) o índice chega a 53,5 por 100 mil.

O Ipardes também relaciona as pulverizações excessivas às ocorrências de neoplasia. Três mapas mostram que os novos casos de câncer de mama, de próstata e de leucemia tendem a se concentrar onde as aplicações de agrotóxicos são mais intensas. "Se você botar um mapa do lado do outro, você vai ver que é a mancha é mais significativa onde tem mais agrotóxico", observa Ana Cláudia.

O estudo destaca ainda que os mais afetados pelos efeitos tóxicos são os trabalhadores do setor agrícola, mas assinala que os perigos se estendem até o consumidor dos produtos que receberam o insumo. "Por isso mesmo, o próprio Ministério da Saúde estima que, para cada evento de intoxicação por agrotóxico notificado, há outros cinquenta casos não notificados", informa o relatório.

Autoridades demonstram preocupação

O avanço dos agrotóxicos sobre as lavouras paranaenses gerou preocupação entre autoridades que participaram do lançamento do estudo. Para o secretário de Estado de Meio Ambiente, Luiz Eduardo Cheida, os indicadores devem servir como base para políticas públicas. Mas ele vê com urgência a necessidade de uma mudança de paradigma, principalmente no que diz respeito ao uso indiscriminado de defensivos.

"Festejamos que somos campeões na produção de grãos, mas temos pagado um alto preço por isso. Somos os campeões também de casos de câncer de fígado e de pâncreas. Não é mera coincidência. Ou abrimos os olhos e mudamos esse roteiro econômico, ou vamos colher esses dados cada vez piores", disse o secretário.

Em contrapartida, Cheida afirmou que a secretaria deve ampliar o estímulo ao uso de adubos orgânicos e ao consumo e produção de alimentos orgânicos. "Em média, a cada 15 minutos, surge um novo caso de câncer no Paraná. De nada adianta termos bons indicadores econômicos, se a gente gasta horrores com saúde", acrescentou.

O deputado estadual Ras­ca Rodrigues (PV) também lamentou o aumento da aplicação de agrotóxicos no Paraná e lembrou que a questão já havia sido diagnosticada. "Muitos dos problemas do momento, como o uso inconsequente dos agrotóxicos, já haviam sido alertados em um primeiro estudo. Com ele, o poder público poderá se antecipar aos problemas e desenvolver soluções com mais eficiência", avaliou.

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