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Entrevista - Ricardo Portela

“Depois de conhecer 55 países, encaro o mundo diferente”

Família Portela: três anos de viagem ao redor do mundo | Jonathan Campos/Gazeta do Povo
Família Portela: três anos de viagem ao redor do mundo (Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo)

Ilha do Mel - Após três anos dando a volta ao mundo a bordo do veleiro Bravo, os cinco paranaenses da família Portela chegaram ao Paraná no último dia 12 com um sonho realizado. O casal Ricardo e Cláudia e os filhos Lygia, Giovanna e Ricardinho conheceram 55 países em 35 mil milhas percorridas (cerca de 56 mil quilômetros). Em entrevista, o comandante da aventura conta como foi a aventura e revela: sua visão do mundo será outra após a viagem por 55 países.

Gazeta: Como foi o planejamento da viagem? Como surgiu a idéia?

Eu velejo há 30 anos e tinha vontade de fazer esta viagem há pelo menos 20 anos. O complicado para decidir fazer uma aventura dessas é que a família tem que gostar, principalmente a esposa. Também é preciso acertar a idade e a escola das crianças, além do problema financeiro. Depois que resolvemos tudo isso, o planejamento em si durou em torno de cinco anos antes da partida.

Seus filhos mudaram muito nesses três anos no mar? No que, mais especificamente?

A Lygia está com 17, a Giovanna com 16 e o Ricardo com 14 anos. Eu acredito que eles tiveram uma mudança na percepção do mundo. Hoje os meus filhos conhecem 55 países diferentes e praticamente todas os tipos de culturas do mundo. Eles falam muito bem Inglês e Espanhol, além de algumas palavras de outras línguas, como o Francês. Sem contar que eles têm uma experiência, uma bagagem maravilhosa que não tem preço que pague.

E o cachorro, como se comportou?

O Dudu, um yorkshire, era um guarda nosso a bordo. Teve uma ocasião em que nós escutamos o cão latindo em Trinidad e Tobago e algumas pessoas estavam mexendo no nosso barco de apoio. Ele já chegou a me alertar inclusive de navios enquanto eu estava navegando. Além do radar que eu tenho a bordo, eu tenho o cachorro. Inclusive, por causa dele, não entramos na Austrália, porque o governo do país exigiu que o Dudu fizesse quarentena e muitos teste de sangue. Acreditamos que ele não iria sobreviver a isso. Como foi que vocês conseguiram financiar a aventura?

Tínhamos um pouco de dinheiro guardado e o custo que tivemos lá fora não foi muito grande, porque vivíamos a bordo. Basicamente eu tinha que pagar o supermercado, a manutenção de barco e as marinas, sendo que os dois últimos são os itens mais caros. O meu barco tem três motores, mas eu preciso de pouco combustível porque ele é a vela.

Mas quanto custa uma viagem dessas?

É relativo. Tem vários livros sobre isso no mercado e a minha esposa pretende escrever o nosso. Mas é unânime que é possível gastar pouco e se manter com UU$ 500 (aproximadamente R$ 1.150) por mês. Quanto ao máximo, o céu é o limite. Eu costumo dizer que o custo é o mesmo da cidade. A diferença é que não há renda.

Quanto custa um veleiro?

O preço inicial de um barco novo é a partir de R$ 100 mil. Já um catamaran, como o meu, custa a partir de R$ 500 mil. Mas é possível encontrar barcos até de US$ 10 milhões (R$ 23 milhões). Não existe um preço final.

Mas na sua opinião qual foi a maior adversidade?

O maior perigo ocorreu entre Fiji e Papua-Nova Guiné, quando tive que navegar praticamente 800 milhas (cerca de 1300 quilômetros) sem um dos dois lemes. Foi muito complicado, o Bravo não obedecia, o piloto automático não funcionava. Tive que levar praticamente na mão durante 10 dias. Outro problema ocorreu na entrada do Mar Vermelho por causa da pirataria oriunda da Somália. Apesar de estarmos bem preparados, andando em três barcos, todos próximos, o perigo existia.

Qual foi o lugar mais bonito e interessante que vocês estiveram?

A Indonésia foi o must da viagem. Este país tem diversidades culturais e praias paradisíacas. O meu filho gosta de pegar onda e lá tem onda. Minha filha mais velha gosta de mergulhar, é ótimo para isso também. Todos gostam de cultura, Bali é espetacular. O Parque de Cômodo, por exemplo, onde tem os dragões de Cômodo, é indescritível. Aqueles dragões são monstruosos e fantásticos. Logo acima, em Borneo, encontram-se os gorilas. Realmente maravilhoso.

E quais foram os outros pontos fortes da volta ao mundo?

Nós gostamos muito da Tailândia, da Polinésia Francesa e de uma ilha próxima da Polinésia, em Cook Island, chamada Palmerston. Nessa ilha ocorreu uma catástrofe e os habitantes foram ajudados por velejadores. Agora todo veleiro que aporta no local é tratado como rei. Quando nós chegamos, nos abordaram e pediram para amarrarmos o barco e não fazermos mais nada. No primeiro dia, que eles exigem a emigração, eles levaram a comida a bordo para nós. Ficavam nos paparicando o tempo todo, levando-nos em lugares turísticos. Nós ficamos em torno de uma semana. Mas eu acredito que esta ilha é realmente o paraíso.

Agora que vocês conhecem belezas do mundo inteiro, comparativamente, como está o Paraná?

Eu adoro o Litoral paranaense. Acredito que é muito pouco explorada a região da Baía de Paranaguá, Guaraqueçaba. O Canal do Varadouro é um local que eu acredito que todo paranaense deveria conhecer, pois possui uma natureza fantástica. Lembrando que a Baía de Paranaguá é a que tem a maior extensão de águas navegáveis do Brasil. Para a vela é fantástico.

Qual a avaliação desses três anos de viagem?

Evidente que depois de conhecer 55 países eu tenho que encarar a vida diferente. Realmente o mundo ficou um pouco pequeno para mim e os problemas também ficaram pequenos. Nós, no nosso dia-a-dia, acabamos transformando pequenos problemas em tormentas e na verdade são coisas bem simples. E o mundo é mais simples e mais lindo do que a gente pensa.

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