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João Joaquim da Silva, o Jango: 45 anos vivendo da pesca, profissão que herdou do pai quando tinha apenas 15 anos de idade. Logo atrás, seu cunhado, Joel “Maguila” | Giuliano Gomes/Gazeta do Povo
João Joaquim da Silva, o Jango: 45 anos vivendo da pesca, profissão que herdou do pai quando tinha apenas 15 anos de idade. Logo atrás, seu cunhado, Joel “Maguila”| Foto: Giuliano Gomes/Gazeta do Povo
  • O profissional, com as cavalas pescadas em um dia de trabalho
  • O robalo é o preferido do esportista:
  • Para André Luiz Vilatore Assef, a pescaria é uma diversão. A paixão pela atividade tem apenas seis anos, mas já garantiu ao dentista o primeiro lugar em um torneio
  • Pescadores fazem a separação do camarão
  • Luciano (dir.) e Valdicley realizam a separação do camarão: auxílio da comunidade local
  • Valdemar Dallas Stela, 62 anos, morador de Matinhos, observa o trabalho dos pescadores
  • Peixes palombeta: sustento de muitas famílias
  • Gilberto Manoel Freire prepara filé de peixe palombeta
  • Pescador segura um siri
  • João Joaquim da Silva, o Jango (centro), proprietário do barco tem 45 anos de profissão

Matinhos - Os barcos "Mensageiro da Paz" e "Maria Eugênia" dificilmente se cruzam pelas águas do Litoral paranaense. Embora naveguem com certa proximidade e sejam usados para o mesmo fim, os dois representam faces distintas de uma mesma paixão: a pesca.

O "Mensageiro da Paz" pertence a João Joaquim da Silva, o Jango, pescador profissional que, depois de aprender o ofício com o pai, passou os últimos 45 anos, de seus 60, tirando do mar o sustento da família. Ele mora no balneário de Riviera e atualmente se ocupa da tesouraria da Colônia de Pescadores do município de Matinhos. É sujeito conhecido na região.

Já "Maria Eugênia" é o barco de André Luiz Vilatore Assef, 36 anos, dentista de Curitiba que viaja à costa do Paraná especialmente para praticar a pesca, seu esporte preferido há pelo menos seis anos. André mora no bairro Batel e é um dos 1, 3 mil sócios ativos do Iate Clube de Guaratuba, cidade em que tem um apartamento. É figurinha carimbada no clube, principalmente depois que venceu um torneio de pesca.

A reportagem acompanhou uma das pescarias de Jango e André e registrou como cada um alimenta a paixão pelo mar e pela pesca.

Da pesca, o sustento

O barco de Jango é simples. Possui poucos recursos além do motor de 11 cavalos que o impulsiona. O grande espaço vazio é uma necessidade: nele ficam as redes usadas para a pescaria. E elas não são poucas: juntas, somam quase quatro quilômetros de armadilha para os peixes.

A colocação da embarcação na água é a etapa mais complicada do ofício. Para chegar a alto-mar, é necessário superar as ondas que quebram com força nas intermediações da faixa de areia – o que não é possível sem a ajuda dos demais colegas pescadores. "Eu já pesquei em muitas praias, mas nunca vi uma praia com tanta união como esta. Quando chega ou sai uma canoa, não leva cinco minutos e todo mundo corre pra ajudar", afirma.

Durante muito tempo, Jango rumou para o oceano sem qualquer equipamento de comunicação que o ligasse aos companheiros que ficavam em terra. Há três anos a situação mudou, com a adoção de telefones celulares que funcionam distantes até 14 quilômetros da praia. "Esse celular é uma beleza. Às vezes a canoa quebra e você já liga pra alguém ir te socorrer", entusiasma-se, antes de acrescentar que há pescadores que usam até aparelhos de GPS.

Para fazer a pescaria render, ele pula cedo da cama. Conforme a necessidade, às 4 horas já está em pé. Basta então tomar o café preparado pela esposa e ficar pronto para a labuta. Protetor solar é algo que dispensa: "Não precisa. Esse meu coro aqui já se acostumou", fala, bem-humorado. Já de uma garrafa de água, ainda que não tenha como mantê-la gelada, o pescador não abre mão.

E é preciso mesmo se hidratar com frequência, já que o esforço é grande. Para levantar as redes da água e tirar os peixes que ficaram presos nas malhas, Jango leva cerca de três horas, sempre com a ajuda do cunhado Joel "Maguila".

Para limpar os bichos – a maioria cavalas –, conta com auxílio da comunidade local. Em cerca de uma hora, todo o material da pesca – que, nesta semana, rendeu uma média de 170 quilos por dias – é limpo. A partir disso, é só vendê-lo no Mercado dos Pescadores, onde Jango possui uma barraca. Em tempo: ele cobra R$ 8 pelo quilo. Se for filé, acrescenta R$ 2.

Mais que um ganha-pão, no entanto, a atividade também é um prazer. "É difícil explicar. Pra mim, a pescaria é tudo. Fui criado nisso e gosto do que faço. Sou muito feliz, rapaz", afirma, com um olhar de satisfação.

No esporte, paz de espírito

A embarcação de André impressiona pela quantidade de equipamentos próprios para a pesca. Além de um potente motor de 90 cavalos movido a combustível, que o leva rapidamente a qualquer ponto do mar, possui um discreto e estratégico motor elétrico. "A pesca esportiva depende muito dele, porque é silencioso e não espanta o peixe. Você pode até pescar embaixo do barco", conta André.

Para monitorar o local mais adequado para jogar sua carretilha, instrumento que usa para pescar, o dentista comprou dois ecobatímetros, aparelho similar ao computador de bordo de um carro, que indica onde estão os cardumes. O barco conta ainda com dois confortáveis bancos estofados e um compartimento térmico, no qual nunca faltam água e refrigerante.

Antes de subir no "Maria Eugênia" – o nome é uma homenagem à esposa –, André passa protetor solar para enfrentar o sol. "Eu uso roupa mais velha e mais fresca", conta. A bordo, leva suas caixas de pesca, recheadas de iscas artificiais, suas preferidas. Prudente, também carrega quatro carretilhas reservas.

Assim que chega ao local da pescaria, geralmente nas proximidades da baía de Guaratuba, André lança sua carretilha à água e fica esperando a resposta dos peixes. Quando sente a linha ser puxada para baixo, gira a manivela e em poucos instantes recolhe o animal. Robalos são seu alvo predileto. "É um peixe que briga bem, que ataca a isca com mais ferocidade."

Como pesca por esporte, depois de tirar o peixe da água, André curte a satisfação de ter vencido o bicho e o devolve ao mar – salvas ocasiões especiais. "Se minha mulher pede para eu levar algum para a refeição, é claro que eu levo", revela.

Quando é o caso de levar os robalos para casa, André não precisa se ocupar de limpar os pescados. O serviço é feito pelos funcionários do Iate Clube – incluso na taxa de R$ 160 que paga mensalmente.

A paixão pelo esporte é exercitada em horários variados, conforme a maré e a posição da Lua, em média duas vezes por mês – a não ser na temporada, quando recebe atenção diária. É a época do ano em que ele se sente mais feliz. "Eu não sei explicar. É uma atividade que me dá paz. Você vem aqui e esquece seus problemas. E não é só a satisfação de pegar o peixe. É também a satisfação de estar aqui, em contato com a natureza."

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