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Falta de disciplina

Violência contra professores explode e transforma escolas em ambiente de tensão

Violência, ameaças e desordem em sala de aula desafiam professores. Especialistas associam o problema à perda de autoridade e à indisciplina. (Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)

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A perda de autoridade dos professores, o avanço da indisciplina entre os alunos e a falta de uma legislação mais dura são alguns dos principais fatores por trás do aumento da violência nas escolas brasileiras. Essa é a avaliação dos especialistas em educação ouvidos pela Gazeta do Povo, análise que encontra respaldo em pesquisas nacionais e internacionais sobre o ambiente escolar.

Os dados mais recentes ajudam a dimensionar a gravidade do problema. A última edição da pesquisa internacional Talis, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), mostra que 47% dos professores brasileiros relatam sofrer estresse causado por intimidação ou abuso verbal, enquanto a média dos países participantes é de 18%.

O levantamento também aponta que mais de 50% dos docentes no Brasil convivem com ruído e desordem frequentes em sala de aula, percentual muito superior ao registrado na média internacional, próxima de 20%. Além disso, os professores brasileiros dedicam mais de 20% do tempo das aulas à manutenção da disciplina, contra 15% na média da OCDE.

Na avaliação dos especialistas, parte desse cenário decorre de mudanças nas concepções pedagógicas difundidas nas últimas décadas, que passaram a enxergar a indisciplina e até mesmo a violência escolar como reações a estruturas de poder. O efeito prático foi a redução da legitimidade da autoridade do professor e o enfraquecimento dos instrumentos de controle da disciplina. Nesse contexto, professores defendem leis que ampliem a capacidade da escola de impor sanções efetivas.

“Não há vácuo de autoridade. Se o professor não a exerce, os alunos mais fortes e mais violentos a exercerão. A consequência é o aumento da frequência de ataques violentos a estudantes, professores e funcionários, impactando o clima escolar e o aprendizado", analisa Anamaria Camargo, mestre em Educação. 

Especialista atribui avanço da violência ao enfraquecimento da disciplina

Além dos indicadores internacionais, pesquisas realizadas com docentes também revelam um ambiente cada vez mais hostil dentro das escolas. Um levantamento do Centro do Professorado Paulista (CPP), publicado em junho, revelou que 65% dos entrevistados já sofreram algum tipo de agressão em sala de aula ou no ambiente escolar.

A violência verbal é a ocorrência mais comum, presente em 71% dos casos relatados, seguida pela violência psicológica e moral (58%), institucional (27%) e física (19%). Os números revelam que as agressões contra docentes não se restringem a episódios isolados e passaram a fazer parte da rotina de uma parcela significativa dos profissionais da educação.

“Em mais de 60 anos dedicados ao magistério, nunca vi um cenário tão alarmante e hostil para a nossa classe como o que enfrentamos hoje”, afirma Silvio dos Santos Martins, presidente do CPP.

“O professor tem sido alvo de agressões de todas as ordens verbais, físicas e institucionais. Essa escalada de violência destrói não apenas a saúde e a integridade do educador, mas inviabiliza o próprio processo de ensino e aprendizagem que estrutura a nossa sociedade”, completa.

Os números da pesquisa e os relatos de professores refletem um processo mais amplo de enfraquecimento da autoridade docente, afirma Anamaria Camargo. Autora do livro Escola Woke: Como o Método Paulo Freire foi retrofitado para os dias de hoje, ela atribui esse fenômeno à influência do que define como "escola woke".

“A ‘escola woke’ defende que a indisciplina ou mesmo a violência nas escolas é apenas o resultado de reações aos sistemas de poder. A solução, portanto, passa pela redução da autoridade e do poder de punir do professor”, afirma.

A autora também critica a adoção da Justiça Restaurativa, amparada pelo Ministério da Educação (MEC), como resposta aos conflitos escolares. Segundo ela, práticas como os chamados “círculos restaurativos” priorizam a reconciliação entre agressor e vítima em vez da punição do primeiro e da proteção da segunda.

“Isso significa que, se depender do MEC, o problema da violência nas escolas só vai piorar, e princípios caros à nossa sociedade, como a noção de respeito à ordem e a igualdade de todos perante a lei, vão continuar sendo atacados”, avalia.

Professor não é babá e escola não é centro de acolhimento de menores infratores que se sentem perfeitamente à vontade para delinquir repetidamente.

Anamaria Camargo, mestre em Educação

Professores desejam mais respaldo legal

A discussão sobre a violência nas escolas também tem levado educadores a defender mudanças na legislação e nas políticas de disciplina escolar. Para eles, a falta de consequências efetivas para casos de agressão e ameaça contribui para o aumento da sensação de impunidade e para o enfraquecimento da autoridade dos professores.

Martins e outros 93,6% dos professores entrevistados na pesquisa do CPP defendem uma revisão do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) como forma de reduzir o ambiente hostil enfrentado pelos docentes. “O que vemos hoje nas salas de aula é uma distorção que gera um perigoso sentimento de impunidade. Precisamos de um ordenamento jurídico que não deixe o educador desamparado”, afirmou.

Os defensores da revisão argumentam que as escolas precisam de maior autonomia para aplicar medidas disciplinares a alunos que pratiquem agressões ou ameaças contra professores e funcionários. Entre as mudanças sugeridas estão a ampliação da responsabilização dos responsáveis em casos de reincidência de violência, ameaças ou danos ao patrimônio escolar cometidos por seus filhos.

Além das mudanças na legislação e nas políticas disciplinares, Camargo defende uma participação mais ativa das famílias na educação dos filhos. “É urgente que pais e mães assumam o seu papel de educadores e ‘civilizadores’ de seus filhos. Professor não é babá e escola não é centro de acolhimento de menores infratores que se sentem perfeitamente à vontade para delinquir repetidamente”, critica.

Na avaliação da autora, recuperar a autoridade do professor exige uma combinação de disciplina, responsabilização familiar e valorização do papel do docente dentro da escola. “A ‘aprovação automática’, por exemplo, amplia não só a lacuna de aprendizagem, como também a percepção dos alunos de que aprender é desnecessário e o papel do professor é irrelevante”, finaliza.

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