O bispo Luiz Flávio Cappio suspendeu a greve de fome contra o projeto de transposição das águas do Rio São Francisco que durava 11 dias. Dom Cappio tomou a decisão na tarde desta quinta-feira, após conversa de mais de três horas com o ministro de Relações Institucionais, Jaques Wagner, enviado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para tentar uma solução para o caso.
A carta de Lula para o bispo, levada pelo ministro, incluía quatro propostas para fazer o religioso desistir da greve de fome: o prolongamento do diálogo sobre o São Francisco; o compromisso de prioridade para revitalização e saneamento; o empenho na liberação de R$ 350 milhões para a revitalização; e a discussão do assunto numa audiência com o presidente Lula em Brasília.
- Acho que aqueles que acreditam no entedimento acabam chegando ao entedimento. Parabéns a todos que sofreram aqui esses dias de angústia, que nós sofremos também lá em Brasília. Acho que foi o melhor desfecho para a situação - disse o ministro Jaques Wagner, após o anúncio da suspensão da greve de fome de dom Cappio.
Jaques Wagner chegou à Fazenda Bela Vista, a 4 quilômetros de Cabrobó (PE), pouco depois do meio-dia desta quinta-feira. Ao avistar dom Cappio, o saudou com um abraço e os dois entraram numa capela, onde conversaram a portas fechadas. O encontro foi interrompido, segundo a assessoria do ministro, por um telefonema do presidente Lula para ele. Depois de cerca de duas horas, Wagner e dom Cappio retomaram o diálogo e chegaram a um acordo.
O bispo entrou em greve de fome no dia 26 de setembro. Ele é da cidade de Barra, na Bahia, mas escolheu Cabrobó para fazer o protesto porque é na cidade pernambucana que está previsto o início das obras de transposição.
Antes do encontro desta quinta-feira, Jaques Wagner dizia que o governo estava aberto ao diálogo, embora Lula tivesse dito que não suspenderia a obra de transposição, que ainda nem começou e depende de autorização do Ibama. Também antes da conversa com o ministro, dom Cappio avisara que só daria fim ao jejum quanto tivesse em mãos um documento assinado pelo presidente garantindo a suspensão das obras no São Francisco.
- Enquanto isso não chegar as minhas mãos e houver entre nós uma discussão, eu permaneço em greve - declarara.
A preocupação do governo com o desfecho da crise ficou evidente na quarta-feira, com uma declaração do ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general Jorge Félix:
- O que não pode ocorrer é o homem morrer - afirmara.
Também na quarta, ao completar o décimo dia de greve de fome, dom Luiz começara a dar sinais de debilidade física: sentiu falta de ar e apresentou lapsos de memória. Mesmo assim, se recusara a seguir a recomendação médica para reduzir o ritmo de atividades. Na terça, chegou a celebrar missa para três mil pessoas, cumprimentou populares e ainda deixou o seu retiro no interior da capelinha de São Sebastião para se reunir com índios que cantavam em sua homenagem. Aos que o procuravam para lhe prestar solidariedade, dom Cappio dizia que que só sairia da fazenda onde iniciou o jejum "com procissão ou no caixão".
A greve de fome dividiu a Igreja. O presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) chegou a pedir o adiamento da obra. Mas os bispos de quatro estados do Nordeste - Alagoas, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba - criticaram dom Cappio. O Vaticano enviou carta ao bispo de Barra com um apelo para que ele suspendesse o protesto, mas avisou que não interferiria em questões próprias do governo brasileiro.
O governo argumenta, a favor da obra, que ela vai beneficiar 12 milhões de pessoas, levando água para áreas de seca em Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Os críticos do projeto alegam que é preciso antes fazer a revitalização do rio, muito atingido pelo assoreamento e correndo o risco, em diversos trechos, de secar.



