“A PM existe para proteger a sociedade. Veio uma ordem judicial e nós tivemos que cumprir. Era a nossa missão e ela foi cumprida”, apontou o coronel | Daniel Castellano/Gazeta do Povo
“A PM existe para proteger a sociedade. Veio uma ordem judicial e nós tivemos que cumprir. Era a nossa missão e ela foi cumprida”, apontou o coronel| Foto: Daniel Castellano/Gazeta do Povo

Apesar das cenas de guerra e dos mais de 200 feridos, o comandante da Polícia Militar (PM) do Paraná, coronel César Vinícius Kogut, defendeu a ação da corporação, no cerco à Assembleia Legislativa. Na tarde desta quarta-feira (29), policiais dispararam balas de borracha e bombas de efeito moral contra professores que protestavam no Centro Cívico. Para a PM, no entanto, os agentes teriam reagido a uma tentativa dos manifestantes de romper o bloqueio.

Tiros, explosões e feridos no Centro Cívico; veja o vídeo

Por volta das 15h horas desta quarta-feira, policiais militares e manifestantes entraram em confronto na frente da Assembleia Legislativa. Imagens mostram que os policiais usaram bombas de gás lacrimogênio, balas de borracha e jatos de água contra os manifestantes.

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Segundo Kogut, um grupo de manifestantes conseguiu romper um primeiro cerco, formado por policiais militares desarmados. Diante deste furo, os comandantes da operação teriam dado a ordem para que o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), que formaram um segundo cordão de isolamento, agisse. Cerca de 1,6 mil agentes participaram da operação.

“O comandante deu a ordem visando a proteção da Assembleia e o cumprimento da ordem judicial [que determinava o isolamento do prédio]”, disse. O coronel classificou a ação de “inevitável” e acrescentou que a PM usou “atitudes cabíveis (...) usadas por polícias de todo o mundo”.

A avaliação foi divulgada em entrevista coletiva concedida no início da noite desta quarta-feira. Na ocasião, a PM apresentou três pedaços de madeira, uma dezena de pedras e cinco garrafas com combustível (coquetéis molotov), que teriam sido apreendidos com manifestantes. Segundo a PM, cerca de 20 policiais ficaram feridos. “Pedras e paus foram arremessados o tempo todo”, afirmou Kogut.

“A PM existe para proteger a sociedade. Veio uma ordem judicial e nós tivemos que cumprir. Era a nossa missão e ela foi cumprida”, apontou o coronel. “Nós não estávamos ali porque queríamos, mas porque a Justiça decidiu”, completou.

Comando

Assistindo de camarote

De dentro do Palácio do Iguaçu, espectadores comentam ação da polícia contra os manifestantes.

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Um dos comandantes da operação foi o coronel Arildo Luis Dias. Ele era chefe da Corregedoria da PM até a terça-feira (28), quando foi afastado justamente para conduzir a ação policial na Assembleia. O outro comandante foi o coronel Nerino Mariano de Brito, que já chefiou o Bope.

A PM anunciou que vai instaurar um Inquérito Policial Militar (IPM) para apurar se houve excessos na operação. Os trabalhos, diz a PM, serão acompanhados pelo Ministério Públicos. Kogut considera que não vai haver conflito de interesses pelo fato de coronel Arildo ter sido chefe da Corregedoria. “Ele vai ficar afastado [da Corregedoria] até a conclusão do IPM”, assegurou.

Além do número de feridos, alguns detalhes chamaram a atenção, como o volume de spray de pimenta aspergido por policiais contra manifestantes e a ação do helicóptero da corporação que sobrevoou o acampamento dos professores e em um voo rasante, acabou destruindo algumas barracas.

Presos

Até o início da noite, sete presos haviam sido encaminhados ao 1º Distrito Policial, mas a identidade deles não foi confirmada. O delegado-geral da Polícia Civil, Júlio Reis, disse que, entre os detidos, estava um estudante universitário de Londrina. “Vamos instaurar um inquérito para apurar, inclusive, quem pagou e articulou a participação dessas pessoas que não são professores”, afirmou.

Para especialistas, ação teve falhas graves

No episódio mais violento de 2013 (dia 13 de junho, na Av. Paulista), pouco mais de 100 pessoas se machucaram

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A tensão provocada pelo tamanho da operação, a falta de homogeneidade da tropa e a pressão dos superiores contribuíram para que o confronto de ontem no Centro Cívico acabasse com mais de 200 feridos. Especialistas em segurança pública entrevistados pela Gazeta do Povo apontam que o número, por si, mostra que a preparação não foi eficiente.

Tiros, explosões e feridos no Centro Cívico; veja o vídeo

Por volta das 15h horas desta quarta-feira, policiais militares e manifestantes entraram em confronto na frente da Assembleia Legislativa. Imagens mostram que os policiais usaram bombas de gás lacrimogênio, balas de borracha e jatos de água contra os manifestantes.

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“Sempre que há tantos feridos é porque algo falhou”, diz o ex-secretário Nacional de Segurança Pública e coronel da reserva da PM de São Paulo, José Vicente da Silva Filho. Segundo ele, se for confirmado que houve mais de duas centenas de manifestantes e policiais que precisaram de atendimento médico, o confronto no Centro Cívico atingirá uma marca muito superior a de todas as manifestações de junho de 2013 e da Copa de 2014.

No episódio mais violento de 2013 (dia 13 de junho, na Av. Paulista), pouco mais de 100 pessoas se machucaram. Pelas informações a respeito do conflito desta quarta (29), o coronel destaca que não é comum o uso de cachorros, prática que teria sido banida há anos no controle de multidões em São Paulo. “Não é adequado porque os cães se irritam.” Silva Filho também destaca que a convocação de policiais de diversas cidades do interior pode ter afetado no padrão da operação. Segundo ele, treinamento e experiência pesam em momentos mais tensos.

Ex-coordenador-geral de Defesa Institucional da Polícia Federal, o delegado Daniel Sampaio explica que a preparação para o acompanhamento de manifestações precisa ser eficiente em duas frentes – primeiro na etapa de negociação, depois na da operação em si. “A primeira diretriz é colocar uma equipe de gerenciamento de negociação muito forte. Por que há confronto? Porque houve uma progressão das atitudes, que é mais fácil de ser contida preliminarmente com diálogo.”

Coordenador do Centro de Estudos em Segurança Pública e Direitos Humanos da UFPR, Pedro Bodê, avalia que o perfil do comando teve impacto no comportamento dos policiais. “É reflexo de uma cadeia: um governador que não teve constrangimento em permitir o cerco da Assembleia, um secretário de Segurança conhecido pela truculência”, afirmou.

Bodê vê, por trás da ação policial, uma “orquestração” de todas as esferas públicas de poder para o uso da polícia em seu favor e contra o direito de manifestação. “Nesse modelo, a polícia nada mais é do que a guarda pretoriana do governador. E a polícia que é muito boa para reprimir protesto não consegue colaborar para reduzir a criminalidade.”

Também especialista em segurança pública, o cientista político da Universidade de Brasília Antonio Flávio Testa destaca que há um despreparo histórico para conter as manifestações no país. “Até 2013 havia aquela ideia dos tempos da ditadura, só da pancada. Começou a haver algo mais elaborado quando houve aquele susto na Copa das Confederações e percebemos que poderíamos passar vergonha na Copa.”

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