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Eis um problema de eleições tão divididas quanto as que vivemos: os dois lados apostam tanto na demonização do adversário que, passada a votação, fica difícil apagar todo o rastro de ódio que se cria. Ontem, anunciado o resultado da disputa, o ar das redes sociais ficou insuportável. Logo ressurgiram o preconceito contra o eleitor nordestino, a ideia da divisão do país e o ódio de classe. Comentários lamentáveis que certamente não refletem a opinião da maioria dos brasileiros, mas que não deixam de ser preocupantes.

A primeira coisa que precisa ficar para trás é a noção de que a vitória de Dilma foi apenas parcial: como se ela tivesse sido eleita apenas por nordestinos e pelos mais pobres. Os números desmentem isso ao primeiro olhar. Na região Sul, para ficar no exemplo mais próximo a nós, Dilma fez cerca de 40% dos votos. Claro: Aécio ganhou, com perto de 60%. Mas isso significa que quase 6,4 milhões de eleitores da região foram de Dilma. A presidente também ganhou em dois estados da região Sudeste. Levou em Minas Gerais e no Rio de Janeiro.

Em nenhum estado houve uma derrota acachapante que permitisse dizer que lá Dilma não tem apoio mínimo. Mesmo que fosse o caso, ela continuaria tendo sido eleita legitimamente: o que conta, afinal, é o país como um todo. Mas já que surgem as interpretações mais perigosas, é preciso reafirmar: é preciso respeitar o resultado das urnas e reconhecer que a maioria dos brasileiros tomou uma decisão dentro das regras estabelecidas.

Ontem, em seus discursos, tanto Aécio quanto Dilma falaram em união, em pacificação. Fizeram bem. É necessário que os dois lados levem isso a sério, porém. Aécio, como grande nome da oposição a partir de agora, terá um papel de liderança fundamental. Precisa fiscalizar, e até ser duro com o petismo, claro. Mas deveria, num primeiro momento, acalmar a militância e insistir no discurso de um país unido.

Nos últimos dias, houve registro de cenas lamentáveis de eleitores de Aécio batendo em carros de petistas, de brigas de rua, de falta pura de civilidade. Na internet, protegidos pela distância e pelo anonimato, a coisa foi muito mais longe. Ao invés de simplesmente criticar o PT e o petismo, o que é totalmente legítimo, os militantes instigaram o ódio a quem quer que ousasse pensar diferente deles e defendesse o voto em Dilma.

Dilma, como presidente, terá de fazer mais. Assim como o PSDB, o PT apostou alto na discórdia para ganhar a eleição. Lembremos: Lula chegou a comparar os tucanos com os nazistas. Incentivados por esse tipo de comportamento, os militantes também apavoraram nas ruas e nas redes sociais. Os xingamentos mais covardes, as mentiras mais vis, as tentativas mais desvairadas de criar fatos contra o adversário ganharam os Facebooks da vida. Um show de horrores que a presidente precisa repudiar.

Mas não basta. Dilma tem de dar mostras de que realmente está aberta ao diálogo, como disse em seu discurso. Não adianta falar em união e depois o partido continuar pregando a extinção de legendas adversárias ou compará-las a Hitler. Isso pode dar resultados a curto prazo, mas no médio e no longo prazo põe em risco não só o projeto do partido (que cada vez compra briga com mais gente) como também coloca em risco a própria democracia que tanto lutamos para conquistar.

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