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Se a eleição para presidentes da Câmara e do Senado tivesse sido anteontem muito provavelmente o PMDB hoje teria o comando das duas Casas. Hoje, a probabilidade seria menor. Na semana que vem, pode se reduzir e, no dia 2 de fevereiro tudo pode acontecer, inclusive o senador José Sarney e o deputado Michel Temer ficarem no ora veja. É uma hipótese remota, mas já não absurda para efeito de análise da cena.

Principalmente daquela que se desenrola longe dos olhos do público, na coxia dos partidos, onde as forças da reação se movimentam poderosa e dissimuladamente. Candidato a presidente do Senado depois de assegurar ao partido, aos colegas e ao presidente da República que não teria mais saúde nem paciência para aguentar essa vida de conflitos e intrigas, preferindo se dedicar à literatura, José Sarney busca apoios.

Começou pela ala do partido que preferia manter o compromisso com o PT, votar em Tião Viana no Senado e garantir a presidência da Câmara para Michel Temer. Foi recebido com frieza, mas com fidalguia. Tom gentil que não traduz a verdadeira disposição do grupo, cujo ânimo é absolutamente conflituoso.

Ao presidente Luiz Inácio da Silva já fizeram chegar as queixas e a informação de que os peemedebistas adeptos de Temer trabalharão por Tião Viana. Assumidamente próxima do PSDB – de cujo governo fez parte – essa turma já mandou recados ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e aguarda a volta do governador José Serra do exterior para procurá-lo. O argumento: para a candidatura de Serra em 2010, melhor a eleição do PT no Senado.

Nessa ofensiva, petistas e peemedebistas têm discurso preparado para trabalhar a rusga do DEM com o PT. Dirão o seguinte: se o que o partido quer é confusão na área governista, a derrota de Sarney seria perfeita, pois o deixaria agastado não só com o PT, mas também com Lula, que não teria se empenhado na eleição dele.

Não é uma tarefa fácil, mas é de se registrar que esse pessoal é o mesmo que durante o primeiro mandato de Lula impôs sucessivas derrotas a Sarney e Renan Calheiros dentro do partido, mesmo estando formalmente na oposição e de fato sem ministérios nem cargos importantes na máquina pública.

Hoje dispõem de boa parte do patrimônio federal do PMDB e têm acesso ao presidente da República. Querem acoplar ao capital a presidência da Câmara, que o próprio partido acabou pondo em situação de risco por querer também a do Senado. Percebe-se com nitidez agora que a proclamada unidade do PMDB era de fachada.

Incitado por Renan Calheiros e sentindo-se em desvantagem, o outro grupo partiu para tentar se igualar aos adversários internos disputando o Senado com Sarney, tido como imbatível. Condição que poderá perder, se a forte reação inicial prosperar. Sozinho, o PT talvez não tivesse êxito no embate. Mas, com a ajuda dos peemedebistas e do trunfo deles junto com PSDB e ao DEM (candidatura Serra), Tião Viana ganha reforço importante.

Se será suficiente, os próximo dias e o andamento da candidatura de Michel Temer na Câmara dirão. Quanto mais risco houver de o PT retaliar no início da noite do dia 2 de fevereiro, se de manhã for derrotado pelo PMDB no Senado, mais acirrado tenderá a ficar o conflito interno no partido.

Batalha que pode ser assim resumida: o PMDB quer derrubar Sarney, que pode derrubar Michel Temer, que preside um partido com muitos votos, muita influência, muito poder, muita força, muita ousadia e, por isso mesmo, pode ter muitos problemas numa demonstração de que o que excede às vezes prejudica.

À italiana

Avaliação de um ex-embaixador do Brasil em Roma é a de que não adianta o governo brasileiro apostar no "esquecimento" do caso Cesare Battisti como ocorrem com as crises por aqui. A Itália não dará trégua, podendo, além de chamar de volta o embaixador em Brasília, criar obstáculos – mediante exigências burocráticas – para a entrada de cidadãos brasileiros no país.

Matemática aplicada

É tradicional: a contabilidade de campanhas dificilmente se entende com o número de eleitores disponíveis. A julgar pelos números dos dois pretendentes à presidência do Senado, há muito mais que 81 votos (79, descontados os concorrentes) no colegiado, bem como na Câmara os 513 deputados não são suficientes para preencher as listas de apoios que os quatro candidatos alegam ter. Só Michel Temer, do PMDB, divulga vantagem de 300.

No Senado, contam-se como seguros para Tião Viana "trinta e tantos" votos, aos quais seus aliados acrescentam três ou quatro do PMDB, mais dissidências do PSDB e do DEM, duas legendas até agora de compromisso feito com José Sarney, cuja listagem está em 56 votos.

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