A despeito da distância que separa as duas situações – inclusive no tocante à complexidade das soluções – é impossível deixar de notar a destreza com que o presidente Luiz Inácio da Silva se propõe a aplacar o apetite de sua base parlamentar, em comparação à lerdeza que reservou – segundo diz agora porque "não sabia" da gravidade do problema – à crise no setor aéreo.

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Para tratar com esta, andou dez meses a passos de tartaruga e foi preciso um susto de proporções trágicas até para fazê-lo acordar da letargia. Para lidar com aquela, reagiu na velocidade das lebres: bastou perceber que a chantagem do PMDB era para valer, entregou a presidência de Furnas à seção fluminense do partido, anunciando, ato contínuo, para dentro de 15 dias o completo atendimento das partilhas pendentes, vale dizer, os cargos de segundo escalão nas empresas estatais e em ministérios ainda em disputa pelos partidos da dita coalizão.

Na crise aérea, o governo só se sensibilizou quando viu morrerem 199 pessoas e temeu – como demonstrou a reação imediata de sumiço do presidente Lula – ser responsabilizado por elas. Na crise de abstinência da base, delirante de desejo desde a conclusão das mudanças nos escalões superiores, em março, o governo cedeu diante da concessão de parte da CPMF a estados e municípios, no relatório do deputado Eduardo Cunha, presidente da Telerj no governo Collor, ex-homem de confiança de Anthony Garotinho, hoje porta-estandarte daquilo que o líder do governo na Câmara, José Múcio, definiu, numa referência atroz para a ocasião, como a "abertura da caixa-preta para outras nomeações".

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Está, pois, posto em cartaz em espetacular reestréia, o festival de fisiologismo que assola a administração federal. Isso no momento em que se materializam em drama os efeitos nefastos do aparelhamento partidário desmedido e sem critérios do Estado.

Secretário de Cultura do governo Sérgio Cabral, ex-prefeito do Rio de Janeiro, ex-vice-governador de Rosângela Matheus, a senhora Garotinho, Luiz Paulo Conde – cuja nomeação para Furnas virou ponto de honra do PMDB sabe-se lá por qual razão – não é uma figura de quem se possa dizer nada de desabonador.

No máximo, até agora foi "naïf" na maneira de fazer política, carreira que abraçou já depois de uma vida dedicada à arquitetura. Levado à vitória na prefeitura por César Maia, na eleição seguinte, levou-se sozinho à derrota numa reeleição praticamente garantida.

Não obstante a grosseria de se referir, para se defender citando palavras de Lula, a especialistas no setor que assumirá como "eletricistas" – tal como se alguém se referisse ao arquiteto Conde como "jardineiro"–, Luiz Paulo Conde é homem sensato, sem confusões conhecidas.

Ademais, outros já assumiram postos de gestão em áreas para as quais não dispunham de notório saber específico e alguns se saíram bem. O problema, portanto, não se prende primordialmente, ao nome escolhido. A questão é a forma e seu significado.

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Conde está sendo nomeado em cenário de um escambo promovido pelo PMDB que abre, com isso, a tão esperada temporada de preenchimento de cargos no setor elétrico, na Petrobrás e ministérios Esplanada afora.

O momento não poderia ser pior. Agora é hora de o presidente da República concentrar todos os esforços na resolução dos monumentais e complicadíssimos problemas do transporte aeroviário, alguns resultantes de nomeações obedientes a esses mesmos critérios empregados agora para a solução da emergência nas votações das renovações da CPMF e da Desvinculação das Receitas da União no Orçamento.

Não haveria outra forma de Lula lidar com essa questão a não ser cedendo ao desenfreado fisiologismo?

Quem o vê desafiando Deus, o mundo e também o senhor Raimundo de cima de um palanque, quem ouve a determinação exibida nos discursos, a autoproclamada força política para mobilizar multidões e a exaltação às próprias qualidades de reserva moral exclusiva deste país acredita que Luiz Inácio da Silva possa sim lidar com um punhado de fisiológicos de modo a lhes afastar das boquinhas o cálice da administração do Estado.

Afinal, é como diz o outro: quem pode o mais, pode o menos.

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Faro fino

O "desconforto" do PT com a presença de Nelson Jobim no governo não guarda relação, como alegam oficialmente os petistas, com a condição de "meio-tucano" do ministro da Defesa. Há outros bem mais híbridos no governo e nem por isso o PT se desconforta ao ponto de passar um recibo desse tamanho.

O que aflige o PT é um problema de cunho eleitoral. O partido fareja a possibilidade de Jobim mais adiante se bandear para o projeto presidencial do PSDB – por exemplo, integrando como vice a chapa de José Serra – e, com isso, transferir de lado o PMDB, peça essencial para os planos petistas de continuar na presidência da República a partir de 2010.