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Britto tem razão

Em agosto, quando o ministro Carlos Ayres Britto, do Supremo Tribunal Federal, votou a favor da demarcação contínua da reserva Raposa Serra do Sol, foi tomado como um excêntrico, cuja decisão seria derrubada logo que o caso retornasse ao plenário.

Afinal, contra sua opinião havia generais de pouca disciplina e fazendeiros de muitos interesses.

A noção de que o Supremo Tribunal Federal é um poder republicano foi colocada de lado. Pena, pois há poucas semanas o caso voltou ao plenário e, com algumas condições complementares, o resultado ficou em 8 x 0 a favor dos índios.

De volta ao pó

No dia 26 de janeiro, o ator Fabio Assunção foi preso pela Polícia Federal num apartamento de São Paulo, em companhia de um cidadão em cuja casa encontraram 70 gramas de cocaína.

O ator negou que mexesse com drogas e divulgou uma nota dizendo o seguinte:

"Agradeço pela preocupação, mas apenas dei um depoimento num caso que corre em segredo de Justiça, sobre o qual não posso falar e que não me diz respeito diretamente."

Fábio Assunção poderia ter enfrentado a realidade. Continuou levando sua vida e em novembro viu-se obrigado a abandonar as gravações da novela Negócio da China, partindo em busca de tratamento para seu vício.

Espanhóis arrogantes

Em abril a polícia do Aeroporto de Madri deteve por dois dias e deportou a física brasileira Patrícia Camargo Magalhães. Ela estava de passagem, a caminho de um congresso em Lisboa.

As autoridades espanholas adotaram a política do é-isso-mesmo. O governo brasileiro respondeu na mesma língua e deportou uma dúzia de espanhóis. A truculência acabou.

A dengue anunciada

No final de janeiro, Francisco Batista Junior, presidente do Conselho Nacional de Saúde, lamentou que "o Brasil já perdeu a guerra contra a dengue": "Nossa cultura de saúde pública é hospitalar e isso não adianta contra essa doença".

Depois, foram oferecidas diversas justificativas para os números desgraçados do verão de 2008. Os casos de dengue aumentaram em 17 estados e, ao final de abril, o Rio de Janeiro contabilizou 110 mil vítimas, com pelo menos 92 mortes.

Com a chegada do novo ano, recomeçará a rotina. Quem diz que o problema é grave ainda não é ouvido.

Jordan viu antes

Em fevereiro, quando Hillary Clinton parecia recuperada da surra que levara na primária do Iowa, um de seus melhores amigos, o advogado negro Vernon Jordan, deu um sinal: "É duro disputar contra um movimento".

Jordan militara noutro "movimento", o dos direitos civis, nos anos 60. Sabia do que falava. Foi com Hillary até o fim, mas não ficou mal na fotografia do governo Obama. Susan Rice, sua sobrinha-neta, é uma experimentada diplomata e foi nomeada embaixadora nas Nações Unidas.

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Uma das melhores diversões de fim de ano é colecionar previsões que deram errado. Aqui vai o mesmo exercício, ao contrário, reunindo algumas advertências que estavam certas e casos em que, apesar dos sinais de perigo, a prepotência convencional acreditou em superpoderes que não tinha. Quando se decide que um problema não existe, pode-se viver melhor, mas isso não significa que ele desapareceu.

Algumas dessas vinhetas mostram que as notícias sempre estão disponíveis, mesmo que às vezes pareça difícil encontrá-las.

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A crise econômica estava aí em janeiro

Em janeiro, quando o Federal Reserve Board jogou US$ 150 bilhões na economia norte-americana, houve um certo alívio no mundo do papelório. Logo que o pacote foi anunciado, o professor Antonio Delfim Netto informou:

"O Fed mentiu o tempo todo de que controlava tudo. O Fed fingiu que estava tudo bem. As agências de risco fajutas também fingiam que estava tudo bem. Os bancos honestíssimos punham todas as porcarias fora dos seus próprios balanços. Viraram alquimistas, transformando cocô em ouro e vendendo-o para otários."

Essa opinião, dada no dia 23 de janeiro, continua atual.

A crise vinha sendo anunciada há anos pelo professor Nouriel Roubini, da New York University, e, em janeiro, depois do pacote do Fed, ele dizia que "a discussão já não é mais a recessão, mas a sua extensão e profundidade". Ao longo de todo o ano, cada passo dado pelo Fed era visto com ceticismo por Roubini. Ele classificou o grande pacote do secretário Henry Paulson como um "não-evento".

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Convencionou-se que a crise estourou em setembro, quando quebrou o banco de investimentos Lehman Brothers. Engano. O que aconteceu em setembro foi o estoque de empulhação. A crise, em sua verdadeira extensão, já estava aí. Uma pessoa podia duvidar de Delfim Netto ou de Roubini, mas que tal a opinião de Alan Greenspan, o ex-presidente do Fed? Em março ele disse: "A atual crise financeira nos Estados Unidos provavelmente será vista em retrospecto como a mais dolorosa depois da Segunda Guerra Mundial". É verdade que ele se protegeu com o "provavelmente", mas quem em março jogou fora a polpa comeu casca em setembro.

322 mestres reprovados na Unifesp e na UnB

No caso da crise econômica, por mais enfáticas que fossem as advertências, seus sinais eram difusos. Quem queria podia acreditar que as coisas iam menos mal. Em dois outros casos, parte da elite de duas grandes escolas brasileiras acreditaram que poderiam espanar as advertências, desprezando denúncias de malversação de fundos públicos, impondo à sociedade pactos da burocracia.

Em fevereiro o reitor da Universidade de Brasília, Timothy Mulholland, foi apanhado numa série de malfeitorias contábeis. Os móveis do seu apartamento funcional custaram R$ 470 mil. As três lixeiras saíram R$ 990 cada.

Em abril o reitor da Universidade Federal de São Paulo, Ulysses Fagundes Neto, foi para a vitrine por ter gasto dinheiro da Viúva comprando bobagens durante suas 12 viagens ao exterior. Consumia com gosto e teve que comprar malas em Hong Kong.

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Até aí, funcionaram os mecanismos de controle da sociedade. Os reitores delinqüiram, foram denunciados, e a patuléia foi informada que havia algo de podre nas duas universidades.

A questão piorou de figura quando 200 dos 1.442 professores da UnB reuniram-se em assembléia e, por 157 a 24, rejeitaram um pedido de afastamento de Mulholland.

Na Unifesp, o resultado foi idêntico: por 165 votos a cinco, os professores votaram pela permanência do professor Ulysses Fagundes.

Foram todos reprovados. Mulholland e Fagundes acabaram preferindo sair de fininho.