Lula e Dilma, durante a comemoração da vitória: estilo "emotivo" do atual  presidente deve  ser substituído por uma postura mais sóbria de sua sucessora | Ricardo Stukert / Presidência da República
Lula e Dilma, durante a comemoração da vitória: estilo "emotivo" do atual presidente deve ser substituído por uma postura mais sóbria de sua sucessora| Foto: Ricardo Stukert / Presidência da República

Foram 25 minutos de discurso sobre a vitória nas urnas, nove interrupções para aplausos, nenhum improviso e apenas um momento em que a voz da presidente eleita Dilma Rousseff (PT) embargou – ao falar do presidente Lula. Após três meses de campanha oficial, os momentos posteriores à eleição foram de sobriedade. À primeira vista, essa será a principal diferença na troca de comando no Palácio do Planalto.

No domingo pela manhã, Dilma votou em Porto Alegre e seguiu para Brasília. Ao longo da apuração, resguardou-se em sua casa no Lago Sul, região nobre da capital federal, na companhia de seletas sete pessoas – os coordenadores de campanha, Antonio Palocci e José Eduardo Dutra, o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel, o governador baiano Jaques Wagner (PT), o deputado federal José Eduardo Cardozo (PT-SP), o marqueteiro João Santana e seu médico pessoal, Roberto Kalil.

Embora a vitória fosse dada como certa pela pesquisa boca de urna do Ibope, às 19 horas, Dilma só se desarmou e chorou meia hora depois. Antes, não queria cumprimentos nem comemorações. A todo momento, demonstrava ansiedade mais pelo fim da jornada do que pela celebração da conquista.

Segundo Jaques Wagner, ela não admitiu qualquer conversa sobre a formação do futuro governo. "Quem tem falado por aí sobre isso ou age por pretensão ou por opinião própria, mas não por tendência do que vai acontecer." O governador foi o primeiro entre o séquito mais próximo de Dilma a chegar ao Hotel Naoum, onde a presidente eleita fez a declaração sobre a vitória, às 22h15.

No hotel, Dilma primeiro se esforçou para cumprimentar os políticos e companheiros que dividiam espaço com mais de 200 jornalistas brasileiros e estrangeiros. Entre os paranaenses, ganhou abraços do governador Orlando Pessuti (PMDB) e da senadora eleita Gleisi Hoffmann (PT). Discursou, recebeu novas saudações e logo seguiu para o Palácio Alvorada, rumo ao encontro com Lula.

Dilma foi recebida pelo presidente com um beijo longo em cada bochecha, um abraço apertado, seguido de tapas nas costas e a exaltação: "Presidenta!" Lula, de chapéu Panamá, estava visivelmente emocionado. Dilma teve um momento de cumplicidade e poucas palavras com o presidente, ao lado da primeira-dama, Marisa Letícia, e do presidente de Itaipu, Jorge Samek.

Gleisi, que esteve na pequena festa preparada para alguns ministros e senadores, diz que o momento foi o mais marcante da noite. "Ele desejou sorte e não perdeu a oportunidade de fazer brincadeiras. Disse que agora é que Dilma vai ver o que é trabalhar."Exausta, a presidente eleita ficou no Alvorada por pouco mais de duas horas e foi para casa dormir. "Ela realmente precisava descansar", completa Gleisi. Deixou esperando na Esplanada dos Ministérios 7 mil militantes que festejavam a vitória dela e do governador eleito do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT).

A multidão aguardou Dilma por mais de cinco horas. A cada instante, os organizadores tentavam acalmar a plateia lembrando que a presidente logo chegaria. A maioria já desconfiava da ausência de vez quando surgiu a declaração de que "talvez" ela não pudesse comparecer.

Foi a deixa para todos irem embora, sem o final apoteótico que todos esperavam. Nos comentários, já transparecia a saudade de Lula, o presidente bom de festa. Primeiro sinal dos novos tempos em Brasília.

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