Veja outras ocasiões em que o país ficou bastante dividido politicamente |
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Dilma venceria sem o Nordeste

É inegável que os votos das regiões mais pobres do país – Norte e Nordeste – consolidaram a ampla vantagem de 12 milhões de votos que Dilma Rousseff (PT) teve sobre o seu adversário do segundo turno, José Serra (PSDB), na eleição presidencial deste domingo. Porém, mesmo se tivesse saído dessas duas regiões sem qualquer vantagem, a nova presidente do Brasil garantiria a vitória.

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Petista garante que vai manter regime de câmbio flutuante

A presidente eleita Dilma Rousseff (PT) assegurou ontem que seu governo vai manter o regime de câmbio flutuante e descartou a possibilidade de adotar a política de câmbio fixo. Em entrevista ao Jornal Nacional, da Rede Globo, Dilma se comprometeu a manter os pilares da economia, destacou a importância de acumular reservas internacionais para evitar ataques especulativos e admitiu a existência de uma guerra cambial entre os países e moedas subvalorizadas de forma artificial.

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Um dos primeiros desafios da presidente eleita, Dilma Rousseff, será provar que é capaz de governar um país que parece estar politicamente dividido. O fato de 43 milhões de brasileiros terem votado em seu adversário é apenas um dos sintomas dessa cisão. Há também que se considerar que a oposição ao PT ganhou 10 governos estaduais, somando 52,3% da população sob sua administração. Mais importante do que isso, porém, é o clima criado durante a campanha eleitoral. Dilma, assim como seu principal oponente, José Serra (PSDB), foi alvo de críticas, boatos e de uma campanha bastante dura.

Agora, como presidente, terá de mostrar que sabe governar para todos e conviver, pelo menos por um bom período, com uma parcela do eleitorado que se ressente de sua vitória. De acordo com os especialistas em ciência política, esse é um cenário típico de eleições com segundo turno. Sempre há uma divisão clara entre os eleitores de um e de outro lado. E os derrotados podem, temporariamente, ter problemas em aceitar a vitória do novo presidente.

Dilma parece ter se dado conta do desafio. Tanto é que já em seu primeiro discurso como eleita, na noite do domingo, fez questão de afirmar que "estende a mão à oposição". Garantiu que em seu governo não haverá discriminação de ordem político-partidária. Ou seja: que governadores e prefeitos da oposição não serão tratados como sendo "de segunda categoria". O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, um dos líderes da oposição, imediatamente desdenhou do gesto, afirmando que o PT tem se mostrado um "dinamitador de pontes" com a oposição.

A prudência de Dilma em não afastar ainda mais a oposição neste momento, no entanto, é necessária, dizem os especialistas. "A divisão, pelo menos temporária, do país é o maior problema que o cenário eleitoral pode 'exportar' para o início do governo", afirma o professor de Ciências Políticas Adriano Codato, da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Codato afirma acreditar que os problemas não serão graves. "O que nós temos certeza que há por aí é muito ativista digital. Gente que fica dizendo na internet que odeia tal partido, tal político. Mas no Congresso, por exemplo, já é bastante claro que a Dilma vai ter uma maioria confortável", opina. Ou seja: onde os problemas poderiam ser mais graves, eles não devem acontecer. "A oposição não deve ter um instrumento importantíssimo, por exemplo, que é a CPI, que dá muita manchete", afirma. Isso porque Dilma deverá ter perto de dois terços dos deputados federais a seu lado, talvez até mais.

Nos governos estaduais, a situação é mais dividida. Embora tenha vencido em estados importantes, como Bahia, Rio Grande do Sul e no Distrito Federal, a coligação de Lula e Dilma perdeu em 10 estados para PSDB e DEM. Entre eles, eleitorados gigantes como São Paulo e Minas Gerais. No entanto, ter apoio nos estados, dizem cientistas políticos, é menos importante do que ter apoio no Congresso.

"A política brasileira ainda tem os governadores como espécies de subalternos da Presidência. O PT sabe disso, e por isso apostou em conquistar maioria no Congresso. Para a Dilma, isso era muito mais relevante do que ganhar um ou dois estados a mais", afirma Ricardo Costa de Oliveira, professor de Ciência Política da UFPR.

Roberto Romano, da Unicamp, concorda. "Os governadores não têm como carrear recursos para sustentar todos os seus gastos. Os impostos vão todos para Brasília e voltam a conta-gotas", diz ele, lembrando que isso causa uma dependência grande dos estados à Presidência. "O próprio Serra teve uma boa relação com Lula, quando foi governador. O Aécio Neves, em Minas, teve uma relação quase fraternal com o governo do PT", afirma. A própria opção já revelada por Beto Richa (PSDB-PR) de anunciar que não vai fazer oposição a Dilma reforça isso.

Trégua e riscos

Para o historiador Marco Antônio Villa, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), o fenômeno da divisão ideológica não deve afetar o início do governo de Dilma. "Nos primeiros 100 dias há uma espécie de acordo. Todos dão um crédito inicial ao governo", afirma. Com isso, a presidente ganhará fôlego para mostrar como pretende agir no cargo.

"Caberá a Dilma deixar claro que é contra, por exemplo, o controle externo da imprensa. Mostrar que ela é uma democrata. Porque existe, sim, uma pressão da sociedade, que não aceitará passivamente medidas que rompam com a democracia", diz ele.

De acordo com o cientista político Emerson Cervi, da UFPR, a maneira como a situação pós-eleitoral vai se resolver depende basicamente de dois fatores. "Primeiro, da capacidade de cooptação do governo. Segundo, da possibilidade do governo produzir material [denúncias] para ser usado pela oposição. E ele afirma que não dá para antecipar como as coisas andarão.

Adriano Codato lembra que há um outro fator envolvido para determinar como o governo conviverá com a oposição e com a parcela da sociedade que não o elegeu. É a economia. "O risco aumenta se houver uma oposição que não aceita o governo e, além disso, houver uma crise inflacionária, cambial, de emprego. Algo que traga instabilidade econômica. Aí, sim, os problemas serão maiores", diz.

Marco Antônio Villa afirma, porém, que mesmo em um cenário tumultuado não haveria riscos de golpe ou de qualquer ruptura institucional. Ao contrário do que ocorreu em outras ocasiões em que o país ficou dividido, diz ele, dessa vez não há uma fissura tão grave.

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