Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Centro-sul

Desigualdade e pobreza adiam o futuro

Com poucas indústrias, grandes fazendeiros e pequenos produtores que não conseguem escoar as mercadorias, a Região Centro-Sul é uma das mais pobres do Paraná

José Júlio e o filho Ângelo Felipe: jovem ainda não decidiu se deixa Santa Maria do Oeste para estudar ou se fica para cuidar da pequena propriedade da família | Albari Rosa / Gazeta do Povo
José Júlio e o filho Ângelo Felipe: jovem ainda não decidiu se deixa Santa Maria do Oeste para estudar ou se fica para cuidar da pequena propriedade da família (Foto: Albari Rosa / Gazeta do Povo)
Confira o perfil da Região Centro-Sul |

1 de 1

Confira o perfil da Região Centro-Sul

Existe uma abissal diferença entre duas realidades no Cen­­tro-Sul, região do Pa­­raná que tem uma das maiores desigualdades sociais do estado. Enquanto a renda média de um morador de Guarapuava é de R$ 292,11, um morador de Santa Maria do Oeste recebe R$ 92,21, três vezes menos. E a renda média de um trabalhador de Guarapuava, cidade mais rica da região, é menor do que a renda média estadual de R$ 321,39, segundo dados do censo de 2000 do Instituto Brasileiro de Geo­­grafia e Estatística (IBGE). Por isso, além de desigual, o Centro-Sul é uma das regiões mais pobres do estado. O desafio é criar novas oportunidades de renda e emprego para os 471,8 mil moradores.

A família Pereira, por exemplo, vive um impasse: José Júlio e Jandira ainda não decidiram se permitirão que o filho mais novo se mude para Foz do Iguaçu para estudar Engenharia Mecânica. A outra opção para Ângelo Felipe, 17 anos, é continuar a morar com os pais e cuidar de três vacas leiteiras e da produção de erva-mate no pequeno sítio de 5 alqueires em Santa Maria do Oeste, município com a segunda pior renda per capita do Paraná.

A 92 quilômetros dali, em Guarapuava, José Henrique Lus­­tosa Siqueira, tataraneto do primeiro prefeito de Guarapuava, Pe­­dro Lustosa de Siqueira, também está preocupado. Ele começou a construir um terminal intermodal no valor de aproximadamente R$ 5 milhões para integrar o transporte de cargas da BR-277 e da ferrovia (leia na página 15), mas ainda não tem certeza da viabilidade. Por enquanto, administra as três fazendas que somam 2,1 mil hectares, onde produz soja, milho, trigo e cria 900 cabeças de gado.

Segundo dados do IBGE, 41% do total de 471,8 mil pessoas da região são consideradas em situação de pobreza (veja infográfico). "Todos os municípios registram IDH [Índice de Desenvol­­vimento Humano] abaixo da média paranaense, desempenho que se repete quanto aos componentes do índice, sendo o de renda o mais crítico. Na educação, [...] a frequência escolar é inferior à média do estado, situação que se reflete na baixa escolarização da população", registra um estudo regional do Ins­­tituto Paranaense de Desenvol­­vimento Econômico e Social (Ipardes), órgão ligado ao governo do estado.

Três das cinco piores rendas per capita do Paraná estão em cidades do Centro-Sul: Laranjal (R$ 105,86), Mato Rico (R$ 103,89) e Santa Maria do Oeste (99,21). A pior situação é registrada em Doutor Ulysses ((R$ 86), na região metropolitana de Curitiba. "Precisamos de um choque para quebrar essa apatia. Não vou dizer que estamos parados, mas nosso crescimento é pequeno. Temos ferrovia e um entroncamento rodoviário, mas não estamos tirando proveito disso", analisa o economista e professor da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro) Ernesto Odílo Franciosi.

O grande desafio é criar outras oportunidades de emprego, que melhorem a renda média das famílias. Para isso, é preciso mudar a base econômica – hoje calcada na grande agricultura mecanizada ou em pequenas propriedades com culturas de subsistência – e acrescentar alternativas industriais. Hoje, além da agricultura, a economia da região se baseia na indústria madeireira, que paga baixos salários. "Nosso plantel de gado é abatido fora de Guarapuava. A soja e o milho colhidos aqui são colocados em um caminhão e entregues na cooperativa, e são processados em outra região", comenta Franciosi. "Por que não temos indústria de óleo aqui? Por que não processar aqui?", questiona.

O secretário de Agricultura de Santa Maria do Oeste, José Joel Bueno, diz acreditar que um projeto de desenvolvimento da cidade exigirá maior industrialização do leite, para produzir derivados como o queijo. Além disso, é preciso melhorar a genética e instrumentalizar os agricultores que tiram pequena quantidade de leite. "Chamamos de gigolôs do leite. Tiram 2 ou 3 litros por dia de cada vaca. Precisamos melhorar a tecnologia", afirma Bueno.

Atenção e investimento

Algumas iniciativas de mudança e crescimento morrem na casca por causa da falta de apoio ou infraestrutura. Ângelo Fe­­lipe já propôs ao pai a construção de uma estufa, para produzir verduras que seriam vendidas em Santa Maria do Oeste. Por causa da condições dos cerca de 6 km de estrada de chão entre o sítio e o núcleo urbano, no entanto, a ideia foi deixada de lado. Não há como garantir a entrega de produtos nos dias de chuva por causa do lamaçal. "Toda vez que chove, ninguém passa. É nossa maior necessidade", argumenta José Júlio.

A renda da família é modesta. As vacas de leite produzem 10 litros de leite por dia e os 300 litros por mês rendem cerca de R$ 300. A renda é complementada com o corte de cerca de 8 mil pés de erva-mate por mês. Com isso, a família consegue tirar cerca de 3 mil, que são administrados até o ano seguinte. "O dinheiro da erva-mate a gente usa para melhorar a propriedade", revela o agricultor. Ele torce por mais investimentos na região, para que o futuro dos dois filhos seja melhor. "O que falta mais é auxílio para os jovens", pondera.

Mortalidade

O Centro-Sul tem cidades com graves problemas sociais, como Palmital. O índice de mortalidade por nascidos vivos é um dos piores do estado: 30,89 crianças morrem no município a cada mil nascimentos. O número é duas vezes maior do que a média do Paraná, de 12,99 mortes para mil nascidos vivos. Para os pequenos municípios da região, conseguir médicos é um desafio.

Para Valdir Grigolo, presidente da Associação Comercial de Guarapuava e coordenador da Coordenadoria das Asso­­ciações Comerciais e Industriais do Centro-Oeste do Paraná (Cacicopar), uma das necessidades mais urgentes da região é a criação de um curso de Medicina. "As cidades não têm infraestrutura e nenhum médico quer morar lá. O curso de medicina da Unicentro, que tinha autorização para ser criado, foi cancelado. O médico que se forma na capital não quer vir para o interior", afirma. "Se tivesse um curso na região, os médicos ficariam aqui e a qualidade do atendimento de saúde à população melhoraria."

* * * * *

Leia na segunda-feira

A Expedição Paraná levantou as necessidades das 11 regiões do estado. Amanhã você vai ler sobre as demandas da Região Sudoeste.

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.