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O verde no vermelho

Paraná chegou ao século 21 com apenas 0,8% da cobertura florestal de araucária intacta. Nos últimos 20 anos, perdeu 453 mil hectares de matas. Mas o meio ambiente ainda pena para virar prioridade governamental

  • Rosana Félix
O ambientalista, artista e educador João Bello constatou que só pela razão não iria mudar comportamentos em relação ao meio ambiente. A aposta agora é de conquistar corações pela arte |
O ambientalista, artista e educador João Bello constatou que só pela razão não iria mudar comportamentos em relação ao meio ambiente. A aposta agora é de conquistar corações pela arte
 
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Se a mata fosse dele, ele mandava preservar. Como ela é de todos nós, o artista, ambientalista e educador João Bello, 60 anos, trabalha para conscientizar os demais da importância da manutenção da biodiversidade. Há 12 anos ele adotou a vertente cultural como forma de atuação, mas apoia o confronto quando necessário. Em janeiro deste ano, participou do protesto contra o corte de uma araucária no bairro Bacacheri, em Curitiba. Ele foi chamado por ser um símbolo: em 1998, havia se acorrentado à mesma árvore, ajudando a garantir uma sobrevida que durou 16 anos – o pinheiro acabou sendo cortado, sob a justificativa de que estava comprometido.

Foram poucas as araucárias do Paraná que chegaram ao século 21 – 0,8% da área original. A espécie, dominante na floresta ombrófila mista, consta da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas de Extinção da União Internacional para Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN). No Brasil há atualmente 12,1 mil hectares, ou 3% do original. Essa floresta compõe o bioma da Mata Atlântica, que também vem sendo derrubada aos poucos, apesar das leis de proteção e conservação.

Por isso, Bello considera urgente e fundamental o posicionamento do poder público contra a reabertura da Estrada do Colono, no Parque Nacional do Iguaçu. “Não existe isso de abrir apenas uma passagem. O corte de um parque ao meio traz muito dano. Não é possível que uma grande conquista que começou nos anos 1980 se perca com propostas de nova estrada. A mata é um banco genético de muitas espécies, essencial para as gerações futuras”, avalia. O tema é um assunto nacional, mas as lideranças políticas é que podem definir os próximos passos (leia mais na linha do tempo, no ano de 2003).

Atualmente, o Brasil tem aproximadamente 6% da área de Mata Atlântica original. Nos últimos anos, o ritmo da devastação diminuiu bastante, mas continua ocorrendo, segundo levantamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e da S.O.S Mata Atlântica: entre 2012 e 2013 houve corte de 23,9 mil hectares nos 17 estados que compõem o bioma. No Paraná, foram 2,1 mil hectares. Somando a devastação dos últimos 20 anos, o estado já perdeu 453 mil hectares, dos quais a maior parte (177,8 mil) entre 1995 e 2000.

Recursos hídricos

Àquela época, Bello ainda era um aguerrido ambientalista, que conseguia dar voz à causa por meio do jornal de bairro Folha do Bacacheri. Contribuiu com as primeiras ações populares da Promotoria do Meio Ambiente. Em 2000, conta ele, teve um sonho, deixou a imprensa e o confronto direto para atuar com educação ambiental e cultura. “De aguerrido e radical, passei a atuar com poesia e música, viajando por todo o Brasil. É uma forma diferente, as pessoas ficam mais abertas para ouvir. Só pela razão, não conseguimos uma mobilização. É preciso atingir o coração de cada um.”

Uma grande mobilização foi feita para a limpeza do Rio Bacacheri, com a participação de aproximadamente 560 professores e 7,5 mil estudantes da região. “O rio é um retrato da comunidade. Observando a qualidade das águas, podemos saber como é a vida ali; se há educação, cultura, saneamento básico.” Para manter os recursos hídricos a salvo, ele sugere que o governo estadual incentive e ajude os municípios a solucionarem o problema dos resíduos sólidos – o prazo para substituir lixões por aterros venceu no mês passado, e estima-se que 180 municípios, dos 399 do Paraná, ainda usam o sistema arcaico.

Ainda há muitos outros pontos na agenda ambiental que carecem de ação governamental. Bello, porém, não desanima. “Temos de fazer e semear, independentemente de quem vai colher.”

Paraná precisa de compensação para preservar

O governo estadual precisa criar mecanismos para que a sociedade – indivíduos, empresas e agricultores – passe a investir na conservação da biodiversidade. Sem uma compensação financeira, os efeitos práticos da consciência ecológica podem se perder.

O diretor-executivo da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem (SPVS), Clóvis Borges avalia que a conservação da natureza precisa ser vista como parte do ambiente de negócios. “Muitos setores, especialmente a agricultura do Paraná, ainda a veem como algoz.” Segundo ele, há avanços pontuais, mas a conservação da biodiversidade não tem vez na agenda política – o que pode gerar grande prejuízo econômico. “O projeto Rios Voadores mostra que, como a umidade da Amazônia não chega ao Sudeste, há menos chuvas”, diz, a respeito do estudo que relaciona os efeitos em todo o Brasil da preservação da floresta.

Doutor em Agronomia, o zootecnista Armin Feiden ressalta que o novo Código Florestal, promulgado em 2012, provocará grande impacto sobre o uso e conservação do solo do Paraná, onde há grande número de pequenas propriedades, com menos de quatro módulos fiscais. “É um efeito violento. A área que precisa ser protegidas nas margens dos rios estreitos era de 30 metros, agora é 5. O novo Código fala em manter a vegetação nativa, mas a maioria não tem nenhuma. E não vai ter nem precisar recuperar”, observa.

Para não depender do Congresso Nacional ou da União, Heider diz que o ideal é o governo estadual criar estímulos para garantir a preservação e até a recuperação de áreas verdes no Paraná. “É uma questão estratégica de médio e longo prazo. A agricultura precisa dos rios, mas estes não vão sobreviver se não houver mais áreas preservadas. Não é a toa que a África é um continente pobre: lá eles têm escassez de água.”

Fontes: 1) Artigo de Ricardo Letenski, Mário Sérgio de Melo, Gilson Burigo Guimarães e Gil Francisco Piekarz (2009); 2) Casa Civil/Paraná; 3) Seminários Macrorregionais da Agenda 21 Paraná - Os desafios por uma cidadania planetária; 4) Sema; 5) Publicação “A estrada não é o caminho”; 6) “Panorama da Qualidade das Águas Superficiais no Brasil”/ANA; 7) “Indicadores de desenvolvimento sustentável por bacias hidrográficas”/Ipardes; 8) Inpe e S.O.S Mata Atlântica; 9) Convenção sobre Diversidade Biológica; 10) AEN.

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