Trajetória
Organizadores de manifestações se tornaram políticos
O movimento dos caras-pintadas serviu como trampolim político para muitas lideranças estudantis da época. A mais conhecida delas é Lindbergh Farias, presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), na época do impeachment de Fernando Collor de Mello. Após ser deputado federal e prefeito de Nova Iguaçu (RJ), o petista ocupa atualmente uma cadeira no Senado, por coincidência onde também está o ex-presidente.
Ao lado de Lindbergh na organização das manifestações estudantis estavam outras duas figuras conhecidas no meio político atual. Numa das diretorias da UNE figurava Orlando da Silva Jr., que comandou o Ministério do Esporte até o ano passado, quando deixou o cargo envolvido em denúncias de desvio de dinheiro público. Outra liderança estudantil da época era Alexandre Padilha, então presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e hoje ministro da Saúde.
No Paraná, o mais célebre descendente político dos caras-pintadas foi Ricardo Gomyde, diretor da UNE à época do impeachment. Dois anos depois, com apenas 23 anos de idade, foi eleito deputado federal com uma votação das mais expressivas. A carreira política continuou como vereador de Curitiba e presidente da Paraná Esportes. Atualmente, Gomyde ocupa um cargo no Ministério do Esporte.
Protestos de estudantes perderam força
Atual presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Daniel Iliescu tinha apenas 6 anos de idade na época em que os estudantes de todo o país foram às ruas pedir a queda do então presidente Fernando Collor de Mello. Portanto, não participou diretamente do processo. Apesar disso, ele sabe da importância que teve o movimento cara-pintada na história política brasileira. "O movimento estudantil nem estava tão forte, mas a sociedade estava em polvorosa. Foi uma demonstração de consciência política muito forte", avalia Iliescu.
Depois dos caras-pintadas, nenhum movimento estudantil conseguiu levar um número tão grande de pessoas às ruas para protestar contra a situação política do país. Para o presidente da UNE, isso não significa que os estudantes tenham perdido sua força. "Hoje o movimento não consiste apenas em resistir, mas em conquistar avanços", afirma.
O professor de Filosofia André de Azevedo diz que, olhando a história do movimento cara-pintada em retrospectiva, fica uma sensação de tristeza. "Não apenas pela caricatura muito horrorosa da atuação política, mas pelo fato de que a juventude atual simplesmente não se interessa pelos acontecimentos atuais", afirma Azevedo.
O sociólogo e professor de Ciência Política Nelson Rosário de Souza, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), avalia que o contexto sociopolítico atual é diferente e isso ajuda a explicar a falta de mobilização maior dos estudantes. "A sociedade como um todo não está mobilizada politicamente", diz Souza. "Por mais que tenha havido escândalos, como o do mensalão, não se criou uma quase unanimidade contra o governo."
Aos 16 anos, Carlos Alberto dos Santos aceitou o convite de colegas do Colégio Dominus para matar aula naquele 25 de agosto de 1992. Era dia de manifestação nacional. Milhares de jovens em todo o país pintaram o rosto de verde e amarelo e organizaram passeatas pelo impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello. A imprensa logo batizou o movimento de caras-pintadas.
A ideia de Santos era "dar só uma olhada" na aglomeração em frente do prédio histórico da Universidade Federal do Paraná, na Praça Santos Andrade, em Curitiba. Depois, ele iria seguir para os pontos comuns dos gazeteiros no Centro da cidade. Mas a energia daquela multidão de jovens transbordando de hormônios e de uma revolta autêntica e bem-humorada fizeram com que ele mudasse de ideia.
"Uma pequena faísca de consciência política brotou em mim", conta. "Eu sabia que coisas terríveis haviam sido descobertas a respeito do presidente e dos que o cercavam. Mas não sabia qual a profundidade", admite. Depois dos inesquecíveis meses de 1992 que vieram após aquele dia, o noticiário político passou a fazer parte do cotidiano de Santos.
Hoje, formado em Teologia e exercendo a profissão de professor de Inglês, ele lembra que toda aquela agitação, além de ajudar a derrubar o presidente, provocou nele uma revolução pessoal. "Ali morria um adolescente alienado e nascia um cidadão que se alfabetizava politicamente", conta. Como ele, foram milhares de jovens brasileiros que começaram a ser atraídos para a política depois daquele agosto.
Morando há mais de dez anos na Inglaterra, a ex-cara-pintada Luciana Paludetto lembra com orgulho de ter participado das manifestações em Curitiba. "Mesmo que infelizmente a situação do país não tenha mudado tanto em relação à corrupção, a experiência que ganhei naquela época fez eu me tornar uma pessoa muito mais ativa e, de certa forma, corajosa", avalia.
Ela se recorda que os alunos do Nossa Senhora de Lourdes tiveram que discutir com a diretoria do colégio para haver liberação dos alunos pelo direito de protestar. "Foi uma batalha, mas no final todos os alunos foram liberados", conta Luciana, que anos depois ainda é otimista em relação ao poder de mobilização da sociedade. "Ainda acredito que podemos mudar o mundo, mesmo que hoje não tenha mais a mesma inocência. Atualmente, procuro concentrar meu ativismo em problemas locais e que influenciam meu dia a dia e o cotidiano da minha comunidade."
O início
O movimento, que resultou em centenas de jovens de cara pintada pedindo a queda do presidente, começou a se formar três meses antes de ganhar as ruas. Em 29 de maio, foi organizado um fórum pelo afastamento de Collor do cargo, que contou com a participação de partidos políticos e da União Nacional dos Estudantes (UNE).
Com o avanço das investigações e com as declarações favoráveis ao afastamento do presidente sendo amplamente cobertas pela mídia, uma parcela de jovens da classe média se mobilizou. Os caras-pintadas surgiram como uma resposta bem-humorada desses jovens ao apelo feito pelo presidente Collor. Em 14 de agosto de 1992, Collor foi à televisão para rebater as denúncias de corrupção pelas quais estava sendo investigado e conclamar a população a sair às ruas vestindo verde e amarelo. Seria uma forma de manifestar apoio ao seu governo, que estava com as estruturas abaladas.
De fato, milhares de pessoas foram às ruas, mas não com o intuito desejado pelo então presidente. O verde e amarelo foi substituído pelo preto e o que se viu foi o início de um movimento popular pela derrubada do primeiro presidente eleito democraticamente após a ditadura militar.
A sequência de manifestações populares que viria a seguir contou com a participação de diversos segmentos da sociedade. Mas foi nos estudantes que ela encontrou sua força maior e a marca que ficaria gravada naquele período. Os jovens pintaram os rostos e tomaram as ruas das principais cidades para pressionar o Congresso Nacional a votar o impeachment de Collor. Nascia o movimento dos caras-pintadas, considerado fundamental na queda do então presidente da República.
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