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A prosperidade econômica da China não resulta em respeito aos direitos humanos. E quem ousa criticar isso acaba sendo perseguido, conforme relata Xia Yeliang, ex-professor da Universidade de Pequim. O economista, que era referência nacional em sua área, foi demitido sob a justificativa de ser o pior professor da história da Universidade. O fato ocorreu em um momento em que o governo chinês aperta o cerco àqueles que o criticam publicamente. Yeliang esteve em Curitiba para participar do Fórum Interdisciplinar de Direito e Economia, no final de 2014. Em entrevista ao Justiça & Direito, ele falou sobre como está lidando com a perseguição política e relatou como é a realidade em seu país, com privação de direitos básicos e da liberdade de expressão.

Quando atuava na China como professor, você ensinava como achava que deveria, ou sentia alguma resistência dos superiores?

Como professor de economia, eu focava na economia de mercado . Então, quando ensino os calouros o básico sobre economia, tenho que mencionar que na China nós temos o velho sistema, chamado economia planificada. Algumas vezes eu conto minha própria história, como uma criança que viveu na China, na época em que não tínhamos muita comida, não tínhamos muitos bens de consumo. Qual a razão para isso? Isso ocorria por que as pessoas eram todas estúpidas? Era por que a nossa terra não tinha condições? Não. Era só por causa das instituições. Depois, nós tivemos a reforma econômica que deu às pessoas mais oportunidades, mais liberdade. As pessoas passaram a poder começar seus próprios negócios, fazer suas fortunas por elas mesmas. Na China, todas as propagandas sempre dizem que o mérito é do Partido [Comunista]. Não é mérito do Partido. O que fizeram de bom foi dar às pessoas liberdade e oportunidade.

currículo
  • Especialista do Cato Institute
  • Professor convidado da Universidade de Stanford
  • Ex-professor daUniversidade de Pequim, sofreu perseguição política na China por defender a democracia e os direitos humanos

Como as pessoas na China reagem a esse governo? Elas estão felizes e satisfeitas?

Na China, desde 1993, nós temos uma economia de mercado socialista. É uma economia de mercado parcial, eles só pegam o que precisam, mas não adotam o que não gostam. É muito oportunista. Hoje em dia, a economia da China cresce muito rápido, mas a corrupção também é muito séria. Dez anos atrás, se você perguntasse às pessoas, elas diriam que a vida material estava ficando melhor. “Temos comida, que antes não tínhamos. Podemos usar todo tipo de roupa.” Mas agora não estão satisfeitos, devido a problemas ambientais e na educação. São problemas que não dependem só do governo, porque o governo não quis fazer a reforma econômica e perdeu poder, perdeu controle. Eles não querem que as pessoas queiram reforma política. As pessoas estão falando sobre democracia, especialmente democracia constitucional. Alguns intelectuais liberais, como eu, estão promovendo ideias vindas do liberalismo ocidental. Eu promovo todas essas ideias nos meus artigos e nas minhas aulas. Posso dizer que nos últimos oito, dez anos, mais de 90% dos estudantes gostaram dessas ideias. Nos últimos três anos, a situação está ficando pior, tem ocorrido mais regresso do que progresso.

Por que mais regresso?

As pessoas não falam em público, mas os estudantes estão mais preocupados com o dinheiro deles, eles perderam valores básicos. Jovens se preocupam em quanto dinheiro poderão ganhar no futuro. Se você falar em democracia ou reforma política, dirão que isso não tem nada a ver com eles. Seus pais sempre lhes disseram para que não falem sobre questões econômicas e políticas porque é perigoso. Então, a não ser que eles vão estudar fora, eles não vão falar sobre a importância da liberdade.

Como as pessoas lidam com a falta de liberdade de expressão na China?

Em muitos casos, intelectuais vão contra o governo ao promover a liberdade. É comum perderem os empregos, como aconteceu comigo. Não podem publicar livros, não podem falar em público. As pessoas ficam pensando: “Aqueles caras não tiveram bons resultados, não podemos aprender com eles, vamos tentar ser mais espertos e seguir o que o partido e o governam falam”. A fala dos intelectuais ficou cínica e aqueles estudantes se tornaram mais pragmáticos e dizem que não sabem sobre questões políticas e que não podem falar sobre elas. A absoluta maioria das pessoas não fala sobre política em público.

Você não teme essa proeminência do dinheiro?

Há esperança, porque hoje se pode superar as fronteiras da internet, pois na China a internet é bloqueada. Algumas pessoas usam um software para ir além do bloqueio. Assim, os jovens conhecem melhor sobre o liberalismo e tentam fazer algo. Claro que não chegam a ser críticas públicas. Pode-se apenas dizer que é um protecionismo sensato.

Como assim protecionismo sensato?

Porque as pessoas veem a propriedade das suas famílias ocupadas pelo governo e pensam que isso não é certo, não é justo. Então pensam em algo para se defender, mas não dizem que querem lutar por mudança. Muitos advogados são bastante ativos para ajudar essas pessoas, ainda que elas sejam tratadas como inimigas pelo governo. Um amigo meu é um advogado muito famoso na China, senhor Pu. No ano passado, ele foi preso. Seu crime, segundo o governo, era abusar de informações privadas. Como ele poderia abusar de informações privadas? E também ele é acusado de tentar fazer propaganda contra o governo chinês. E tudo que ele fez foi tentar ajudar as pessoas a defenderem seus direitos. Recentemente, um artigo em um jornal dizia que pessoas do partido vão a diferentes universidade assistir a aulas e depois fazem um relatório, se as aulas estão de acordo com o partido. Vários professores universitários que fazem críticas deverão perder seus empregos. A Associated Press, famosa agência de notícias, me ligou para saber minha opinião sobre o assunto .

Você passou por isso?

Eu disse que isso não é novidade. Desde que eu leciono, pessoas são enviadas para assistir às minhas aulas. Sei que alguém pode me criticar ou fazer um relatório aos superiores, mas não me importo. Há 13 anos, sempre ensino as mesmas coisas. Eu faço críticas ao governo . Mas agora querem imitar Putin, querem imitar Mao. Isso significa colocar a China nos tempos da revolução. Mais de 200 intelectuais foram presos nos últimos 18 meses. A atmosfera na China está muito tensa.

Você lecionou por mais de uma década na Universidade Pequim. Qual a razão para ter sido demitido agora?

Durante todo esse tempo, eles sabiam que eu era uma pessoa crítica ao governo, mas precisavam encontrar alguma desculpa e era muito difícil encontrar algo contra mim. Nos últimos quatro ou cinco anos, eu soube de várias pesquisas sobre mim. Foram a diferentes locais, onde eu estudei, onde eu cresci, mandaram interrogar meus amigos de infância, meus pais, colegas, amigos de colégio, tudo procurando algo de errado. Mas falharam. Sempre procuraram falhas no uso do fundo de pesquisa. Na China é muito comum haver corrupção no uso desse fundo. E levam isso a público para desmoralizar os pesquisadores. Também fazem isso quando descobrem casos envolvendo mulheres, fazem escândalos. No meu caso, me cortaram porque me consideraram o pior professor da Universidade Pequim. A Universidade de Pequim foi fundada em 1898. Você pode acreditar nisso? Eu sou o pior professor da história da universidade (risos). Como podem julgar isso? A evidência que apresentaram foi que alguns estudantes avaliaram minhas aulas. Eu fui considerado o pior professor na minha disciplina. Isso não é verdade. Por mais de uma década eu fui um convidado frequentemente para ir a programas de televisão de diversas emissoras para falar sobre economia . E eu era colunista sênior de diversos jornais chineses. Fui considerado um dos 15 economistas mais famosos e influentes da China em 2003, por um importante instituto. Fiz avaliações e recomendações para o governo regularmente. Me pediam para fazer previsões e eu estava em conferências de alto nível, frequentadas por ministros, até mesmo pelo primeiro-ministro. Como eu poderia receber o título de pior professor? O que aconteceu com os 13 anos anteriores? Na história, nunca uma pessoa foi demitida com essa desculpa.

Colaborou: Joana Neitsch
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