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Emílio Médici, ditador que esteve na presidência entre 1969 e 1974: ordem para matar. | Arquivo/Estadão Conteúdo
Emílio Médici, ditador que esteve na presidência entre 1969 e 1974: ordem para matar.| Foto: Arquivo/Estadão Conteúdo

Telegrama sigiloso liberado para consulta em maio deste ano pelos Estados Unidos e pelo Arquivo Nacional nesta semana aponta que as forças de segurança do Brasil tinham, no início da década de 70, a ordem de matar militantes da esquerda armada logo após suas prisões.

Sequestradores eram fanáticos inteligentes, disse embaixador

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Em um depoimento de 23 páginas, o então embaixador norte-americano no Brasil Charles Burke Elbrick (1908-1983), sequestrado em 1969 por militantes do MR-8 que atuavam na luta armada contra a ditadura militar, dá demonstrações inequívocas de simpatia por aqueles que o mantiveram em cativeiro por três dias.

O depoimento em inglês, batido à máquina e mantido com selo de “secreto” até 20 de abril deste ano, integra um lote de documentos inéditos compartilhado na semana passada pelo governo dos Estados Unidos com o Brasil durante a visita da presidente Dilma Rousseff (PT) à Casa Branca.

O sequestro do embaixador resultou na liberação de 15 presos políticos de esquerda. Em razão disso, o episódio é tido por historiadores como o maior feito da guerrilha armada urbana que combatia o regime militar.

No relato sobre o cárcere, Elbrick afirmou ter dito aos sequestradores “deplorar qualquer tipo de violência”. “Eles disseram pensar não haver esperança de solucionar problemas de forma pacífica neste país”, contou.

O diplomata citou diversas conversas com os jovens. “Eles eram inteligentes. Eu os classificaria de fanáticos inteligentes. Eles são dedicados, de acordo com o que me disseram, eram dedicados à revolução e me disseram que mesmo que demorasse 10, 20 ou 30 anos, a revolução iria ocorrer no Brasil”, disse Elbrick.

“[...] É ordem permanente entre as forças de segurança de que qualquer subversivo treinado no exterior que retorna ao Brasil será assassinado, após interrogatório, se for pego vivo”, escreveu em junho de 1972 o cônsul americano em São Paulo, Frederic Chapin, morto aos 59 anos em 1989.

A informação é confirmada por outro telegrama datado de abril de 1971. “Há fortes indicativos provenientes de várias fontes de que as forças de segurança estão agora mais inclinadas a eliminar terroristas importantes do que mantê-los presos depois de interrogatório”, diz o texto “relatório dos eventos mensais”, produzido pela Embaixada dos EUA em Brasília.

A embaixada associou a orientação ao surgimento de “uma nova fase do terrorismo” no Brasil, que teria sido marcada pelo assassinato, em 15 de abril daquele ano, do empresário Henning Boilesen, um dos financiadores da Operação Bandeirante (Oban), unidade da repressão na ditadura. O ataque foi praticado por militantes da Ação Libertadora Nacional (ALN).

“Se as informações estão corretas, pode haver uma escalada acentuada de violência tanto da parte dos terroristas quanto das forças de segurança brasileiras”, escreveu a embaixada.

No telegrama em que relatou a ordem para assassinatos, Chapin analisou “vários relatos” que chegaram ao consulado sobre maus tratos de presos políticos, “ou seja, tortura, negativa do devido processo legal e outros abusos”. A principal fonte dessas informações era a Igreja, segundo Chapin. Em março, em conversa com o pessoal da embaixada, o “arcebispo”, uma provável referência a dom Paulo Evaristo Arns, disse que “raramente passa um dia” sem que um caso de maus tratos lhe chamasse a atenção.

Chapin apontou que “as alegações das autoridades da Igreja têm sido confirmadas por outras fontes em alguns incidentes específicos”.

O diplomata concluiu: “Funcionários da área de segurança tomam a atitude muito linha-dura segundo a qual quaisquer meios justificam o combate à subversão como fim, e nós acreditamos que isso inclui tortura como um método rotineiro de interrogatório ao menos dos prisioneiros suspeitos de terrorismo”.

Nível baixo

Sobre a “ordem” de eliminação de militantes presos, Chapin mencionou que “incidentes de tortura estão agora em um nível baixo, talvez porque as prisões de suspeitos subversivos também tenham declinado”.

O diplomata analisou algumas notícias de jornal sobre abertura de investigações contra policiais acusados de tortura em diversas partes do país. Segundo Chapin, “o fato de que esses fatos estão sendo divulgados pela imprensa pode indicar uma política de governo contrária à tortura como método de interrogatório, mas não há nenhum outro sinal de que os homens da segurança em São Paulo estejam propensos a abandonar essas práticas quando lidam com suspeitos de subversão”.

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