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Torquato Jardim e Temer: aliados do presidente já pedem a cabeça do novo ministro. | Beto Barata/PR
Torquato Jardim e Temer: aliados do presidente já pedem a cabeça do novo ministro.| Foto: Beto Barata/PR

O novo ministro da Transparência, Torquato Jardim, disse em entrevista concedida em 18 de maio, em Teresina, no Piauí, que não acredita que as investigações e condenações da Operação Lava Jato tragam mudanças concretas ao país. Nas declarações – publicadas na quinta-feira ( 2) pelo jornal O Diário do Povo do Piauí, e cujo áudio foi divulgado pelo jornal O Estado de S. Paulo nesta sexta-feira (3) – Torquato também diz que os partidos políticos brasileiros são “balcão de negócios” e que o “Centrão”, formado por 225 deputados de 13 partidos, foi montado “em nome da corrupção e da safadeza”. Líderes do Centrão, grupo que faz parte da base aliada de Michel Temer (PMDB) no Congresso, chamaram as declarações de Jardim de “idiotice”.

Ao falar sobre o sistema político brasileiro, Torquato disse que no país, “partido político é um balcão de negócios todos com o mesmo programa, com o mesmo propósito”. E deu como exemplo o chamado Centrão, bloco na Câmara formado em meados de maio por 225 deputados e 13 siglas (PP, PR, PSD, PRB, PSC, PTB, Solidariedade, PHS, Pros, PSL, PTN, PEN e PTdoB). Para o ministro, o grupo de parlamentares “é um vexame triste para a cidadania brasileira em que o baixo clero se reúne contra o presidente Michel Temer. E não é em nome da governabilidade, é em nome da corrupção e da safadeza.”

Lava Jato

“O que mudou com o impeachment de Collor? O que mudou no Brasil depois da CPI do Orçamento, quando os sete anões foram cassados? O que mudou com o mensalão? O que vai mudar com a Lava Jato?”, questionou o ministro Torquato Jardim. “Enquanto o mensalão estava sendo condenado, a Lava Jato estava sendo operada. Eles aconteceram ao mesmo tempo.”

Ao ser questionado sobre as ações de combate à corrupção e o que ele imaginava que deveria ser feito para aumentar a eficácia dessas ações, Torquato respondeu com ironia e bom humor: “Se eu soubesse o que fazer, eu ganhava o Prêmio Nobel. Ganhava o Oscar da Política.”

Para ele, as medidas contra a corrupção não surtem o efeito esperado porque os envolvidos nas denúncias nem sempre são punidos pelo eleitor. “Vivemos num país em crise. Não sei qual a esperança que temos. O Brasil vive da ração e não da razão. Qualquer programinha social onde se distribua bônus disso, bônus daquilo, se ganha a eleição”, afirmou.

“O Brasil tem que sair da ração para chegar a razão. O Brasil tem que sair da senzala para chegar a Casa Grande. Quando isso acontecer, se muda a história”, completou Torquato. “Se há esperança? Não sei. O Brasil tem que ressurgir. Temos que descobrir o que é ser brasileiro. Nós somos Estado, antes de sermos uma sociedade civil”, declarou.

Não era ministro

As declarações foram dadas por Torquato durante o 6.º Congresso de Ciência Política e Direito Eleitoral do Piauí, evento do qual foi palestrante, realizado no período entre 18 a 20 de maio em Teresina. À época, ele ainda não comandava o ministério da Transparência.

Torquato que é advogado e foi ministro do TSE, foi nomeado para a pasta da Transparência na quinta-feira (3), em substituição a Fabiano Silveira, que deixou a pasta após a divulgação de áudios de conversas nas quais ele discutia estratégias de defesa de investigados da Lava Jato. As gravações foram feitas pelo ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, que fez acordo de delação premiada com o Ministério Público já homologado pelo Supremo Tribunal Federal.

O ministro confirmou que concedeu a entrevista e o conteúdo de suas afirmações em Teresina. Torquato, no entanto, não quis comentar as declarações nem respondeu a perguntas enviadas pela reportagem sobre o ceticismo em relação aos efeitos da Lava Jato ou sobre considerar os partidos políticos “balcão de negócios”.

Reação

Líderes do Centrão da Câmara dos Deputados reagiram com indignação às declarações do novo ministro da Transparência. “Prefiro ficar calado do que responder idiotice. Idiotice não se responde”, afirmou o líder do PTB, deputado Jovair Arantes (GO), um dos principais articuladores do Centrão. Para o parlamentar goiano, o novo ministro tem o dever de explicar sua declaração. “Temos certeza que fazemos política da melhor qualidade, centrada na responsabilidade ética e democrática.”

Para o líder do PSD na Câmara, deputado Rogério Rosso (DF), a declaração do novo ministro da Transparência é um “absurdo”. “Trata-se de uma acusação gravíssima que, caso tenha ocorrido, ele precisará provar o que disse”, afirmou. O parlamentar disse que irá entrar em contato com os outros líderes do Centrão para tirar uma posição conjunta “desse absurdo”.

Assim como Rosso e Jovair, outros líderes do Centrão reagiram com surpresa à declaração de Jardim e pediram um tempo para se pronunciarem oficialmente. Em reservado, contudo, já avaliam que o novo ministro da Transparência não tem condições de permanecer no cargo. Eles dizem não poder defender ainda publicamente enquanto não tirarem uma posição oficial.

Caso Jardim seja demitido, será o segundo titular do mesmo ministério a sair do governo em uma semana. Na última segunda-feira (30), Fabiano Silveira pediu demissão do cargo de ministro da Transparência, após divulgação de áudio em que orienta o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), a como agir em relação às investigações da Operação Lava Jato.

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