A força-tarefa da Operação Lava Jato acusou nesta quarta-feira (14) o ex-presidente Lula de chefiar a corrupção na Petrobras e um esquema muito maior que envolvia o desvio de dinheiro de diversos outros órgãos do governo federal. O coordenador da força-tarefa pelo Ministério Público Federal (MPF), Deltan Dallagnol, também afirmou que Lula – e não o ex-ministro José Dirceu – é quem foi o chefe do mensalão. Dallagnol chamou esse grande esquema de “propinocracia” – o governo baseado na distribuição de propina. O objetivo da propinocracia, segundo o procurador, era obter governabilidade, perpetuar o governo do PT no poder e promover o enriquecimento ilícito de seus participantes. Apesar dessas acusações, o MPF disse que não irá denunciar o ex-presidente à Justiça por causa da chefia da corrupção no governo, pois não tem competência legal para isso.
Entenda o conceito de “propinocracia”, usado pelo MPF
“Só o poder de decisão de Lula fazia o esquema de ‘governabilidade corrompida’ viável. [O ex-presidente] nomeou diretores [de diversas estatais e órgãos] para que arrecadassem propina. Sem o poder de decisão de Lula, esse esquema seria impossível”, disse Dallagnol. “Se você tirar o Lula do centro do esquema, não consegue explicar o funcionamento do esquema. (...) Se você tira o Lula do esquema, ele fica impossível.” Dallagnol ainda acusou Lula de ser “maestro de uma organização criminosa” e o “general da propinocracia”.
Embora tenha atribuído ao ex-presidente o comando da propinocracia, o procurador afirmou que o MPF do Paraná não vai denunciar Lula à Justiça pela chefia do superesquema de corrupção, nem mesmo pelo suposto comando do esquema de desvios na Petrobras. A justificativa dos procuradores é que o MPF não pode denunciar Lula por organização criminosa, já que essa é uma investigação de responsabilidade do Supremo Tribunal Federal (STF) por envolver autoridades com foro privilegiado.
Sobre o mensalão, Dellagnol afirmou que a reabertura do caso não compete à força-tarefa e que a Lava Jato apenas aproveitou provas produzidas pela investigação do esquema que veio a público no primeiro governo Lula, em 2005.
Evidências e provas testemunhais
Os procuradores da força-tarefa no Paraná apresentaram durante uma entrevista coletiva à imprensa, em Curitiba, uma lista de 14 evidências que, segundo eles, apontam Lula como chefe da propinocracia. Entre as evidências estão, por exemplo, o poder de decisão do ex-presidente (sem o qual, segundo o MPF, o esquema não seria possível); a ligação de Lula com pessoas acusadas na Lava Jato e no mensalão; e a reação dele em tentar desqualificar e obstruir as investigações.
Dallagnol também afirmou haver, como prova contra Lula, o depoimento de cinco testemunhas que afirmam que o ex-presidente sabia dos esquemas e os comandava. As testemunhas são: Pedro Correa, ex-deputado federal pelo PP; Delcídio do Amaral, ex-senador pelo PT; Fernando Schahin, empresário; Fernando Baiano, lobista do PMDB; e Nestor Cerveró, ex-diretor da Petrobras.
Os procuradores do MPF também sugeriram que Lula estaria envolvido em outros casos de corrupção em investigação no país – como os apurados pela Operação Tabela Periódica (fraudes na ferrovia Norte-Sul) e pela Operação Truculência (fraudes na obra da transposição do Rio São Francisco). A força-tarefa, porém, não apresentou nenhuma prova referente ao envolvimento do ex-presidente nesses esquemas de corrupção. Segundo Dallagnol, devido a uma decisão de fatiar as investigações que não têm referência com a Petrobras, a força-tarefa de Curitiba não tem atribuição para tratar dessas outras investigações.
Denúncia concreta
De concreto, a força-tarefa da Lava Jato apenas denunciou Lula à Justiça por ter recebido R$ 3,7 milhões em propina da empreiteira OAS, uma das beneficiárias do esquema de corrupção na Petrobras. Essa propina, de acordo com a denúncia, foi paga por meio de um apartamento triplex no Guarujá (SP) e pelos custos de armazenamento de bens do ex-presidente depois que ele deixou a Presidência da República. Essa denúncia foi encaminhada ao juiz federal Sergio Moro, que agora vai decidir se transforma Lula em réu. O MPF não formalizou um pedido de prisão preventiva do petista.
Além do ex-presidente, também foram oficialmente denunciados à Justiça a mulher de Lula, dona Marisa Letícia, e mais seis pessoas: o presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto; o ex-presidente da OAS Léo Pinheiro; e os ex-diretores da OAS Paulo Gordilho (responsável pela compra de móveis planejados para a cozinha do apartamento), Agenor Franklin Magalhães Medeiros, Fábio Hori Yonamine e Roberto Moreira Ferreira. A força-tarefa também pede, na denúncia criminal, que Moro determine o bloqueio de R$ 87 milhões dos denunciados.
Outro lado
Em nota, o ex-presidente afirmou repudiar as acusações da Lava Jato e a denúncia formulada à Justiça. “A denúncia em si perdeu-se em meio ao deplorável espetáculo de verborragia da manifestação da Força Tarefa da Lava Jato”, disse Lula no texto. O advogado de Lula, Cristiano Martins, negou envolvimento do ex-presidente em crimes. Quando perguntados sobre o tema, Lula e aliados argumentam que acordos políticos “são legítimos em uma democracia” e seguem o mesmo modelo de governos anteriores.
Demoras com Bolsonaro repetem padrão de Moraes contra réus da direita
Quem são os cotados para substituir Lewandowski no Ministério da Justiça
Juiz da Flórida reconhece processo de liquidação do Banco Master e bloqueia ativos nos EUA
Como a TV chavista transformou a captura de Maduro em “sequestro imperialista”