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 | Nicola Iannuzzi
| Foto: Nicola Iannuzzi

Tensão entre policiais e manifestantes já dava sinais de acontecer desde a madrugada. A reclamação da falta de privacidade e de que o aparato policial era grande demais vinha dos professores que estavam no local. Desde a madrugada anterior, quando policiais tentaram retirar carros de som do local, o clima já era tenso.

Leia relato da repórter Amanda Audi

PM e manifestantes entram em confronto e sessão continua; siga votação e protestos

Decisão judicial liberou apenas a presença de dirigentes sindicais na Assembleia Legislativa; manifestantes e PM estão em confronto.

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Pouco antes das 22h, um grupo de professoras de meia idade chegava à Praça Nossa Senhora da Salete, no Centro Cívico, em Curitiba. Elas andavam de braços dados para espantar o frio. Entreouvi uma parte da conversa. “O governador nunca deve ter tido professor na vida. Ele nasceu sabendo”, disse uma.

A frase demonstra o clima do acampamento improvisado na praça, com pouco mais de uma centena de barracas lotadas de grevistas na última terça-feira (29), véspera da votação do projeto de lei que mexe no Paranáprevidência. Havia tensão no ar, provocada pelo confronto da madrugada do dia anterior – que havia resultado em oito professores feridos na confusão formada quando policiais guincharam dois caminhões de som dos grevistas.

Com um cobertor na mão, uma professora caminha até um policial que fazia guarda na entrada do local. “Vocês não vão mais jogar pimenta na gente, né?”, pergunta. O policial sorri e diz que não quer isso. “Eu sei que vocês são bonzinhos, o problema é o [Batalhão de] Choque”, responde a professora. Ela conta que desmaiou depois de levar um jato no rosto durante um conflito com a PM naquela manhã.

Em seguida, o policial se vira para a reportagem da Gazeta do Povo e diz, sem jeito: “Pode ser com dor no coração, mas se tiver ordem vamos ter que cumprir. Quando forma a linha do Choque não tem mais jeito, é a última etapa da formação, e aí eles vão avançando”.

Debaixo de uma tenda, meia dúzia de professores de Curitiba e Castro, no interior, dividem uma garrafa térmica de café. Todos estão enrolados em cobertores por causa do frio. “A gente tá se revezando pra dormir, porque não sabemos o que pode acontecer na calada da noite”, comenta a professora de ensino médio curitibana Denirse Cassiano.

O assunto logo volta a ser o governador Beto Richa (PSDB). “Eu acho que ele não teve aula nem de História, nem de Filosofia e nem de Sociologia, porque ele acha que isso aqui é uma democracia”, diz o inspetor escolar Gilmar Lopes.

O grupo reclama que desde segunda-feira estava sem banheiro na praça, tinham que usar os sanitários do Shopping Mueller ou de um posto de gasolina próximo. Ambos fecham às 22h. Banheiros químicos foram instalados apenas na noite de terça.

O comentário geral era de que a manifestação desta vez era mínima se comparada com a de fevereiro, quando cerca de 50 mil servidores ocuparam as proximidades da Assembleia e forçaram a retirada dos projetos de autoria do governo estadual. Para o dia seguinte, a expectativa mais otimista dos grevistas era de reunir no máximo 20 mil manifestantes.

“Acho que veio menos gente por causa da intimidação, desde o começo a greve foi considerada ilegal e o governo bate na tecla de que as faltas vão ser descontadas”, opina Josiane Muller, professora de Educação Física de Castro.

Era grande o número de pessoas que chegavam durante a noite e começavam a montar barracas na escuridão. O nível de organização do acampamento impressionou: foram formadas “ruas” de passagem entre as barracas e cada “gueto” tinha representantes e nome próprio – como “Núcleo Campo Mourão” e a ala das universidades (principalmente UEL e Unicentro).

Em uma dessas ruelas improvisadas, um grupo de Telêmaco Borba dava risada: “A gente estava aqui sem sal, sem tempeiro, aí veio o [secretário de Segurança Pública] Francischini e deu pimenta pra gente”. Risos.

Ao me aproximar, vi que fazia parte da roda o deputado Professor Lemos (PT), diplomático, em silêncio. “Estou aqui garantindo que eles não serão incomodados”, disse o deputado. Segundo ele, na noite anterior já havia ficado até de madrugada no local, pouco antes do confronto com a PM. “Ele é dos nossos, é o único”, disse um professor.

Um rapaz passa convidando representantes de cada grupo de professores para uma reunião “na última barraca dos fundos, à esquerda”. O objetivo era traçar táticas de segurança para o caso de novo tumulto. O deputado e outras pessoas se dirigiram à barraca indicada.

Puxo assunto com as professoras de Telêmaco, dizendo que tenho um amigo que é de lá. “Ai, meu Deus. Deve ser o filho do Mendes, ele estudou História comigo. Era muito bom, muito bom, manda um beijo pra ele”, disse uma.

De repente, um apitaço quebra o clima de cordialidade. Começam a convocar todos para ir junto ao caminhão de som, porque alguém viu dois guinchos passando em uma rua dos fundos. Havia o medo de o terceiro caminhão ser guinchado.

Todos se amontoam ao redor do caminhão. De uma barraca, uma voz sonolenta reclama da agitação. “Vocês juram que não é trote? A gente tem que dormir, meu Deus”. Já era quase meia noite.

Durante a movimentação da manhã daquele dia, um comandante da PM teria roubado as chaves do caminhão, que é emprestado do sindicato dos vigilantes. A história é confirmada por vários professores e o próprio Professor Lemos, mas negada pelos oficiais de plantão cercavam a Assembleia e o Palácio Iguaçu.

O deputado se afasta do grupo e fala ao celular. “A coisa está complicada aqui. Se vocês atacarem, eles vão pular essa cerquinha”, disse ele, se referindo às grades de pouco mais de um metro de altura que separavam os manifestantes dos prédios públicos. Ao desligar o telefone, Lemos diz que estava falando com o líder do governo na Assembleia, Luiz Cláudio Romanelli (PMDB), que teria se comprometido a falar com o presidente Ademar Traiano (PSDB), que por sua vez iria conversar com o secretário Fernando Francischini.

O ex-candidato a governador Bernardo Pilotto (PSOL) conversa com algumas pessoas sobre a possibilidade de o governo adiar mais uma vez a votação dos projetos. Eles confiam que a situação pode ser diferente porque, no dia seguinte, chegaria uma comissão do Senado para mediar a situação.

Aos poucos o efetivo da PM começa a aumentar, os professores se agitam. Um caminhão aparece carregado de novas cercas de metal. O comandante de plantão explica que as novas grades seriam para fazer uma nova camada de barreira, “nada de mais”.

Os grevistas se mobilizam para cercar a cerca já existente, que separa o acampamento da Assembleia e do Palácio Iguaçu. Não querem deixar que a barreira seja colocada dentro do perímetro ocupado por eles.

Da multidão, alguém grita: “Eles [policiais] são trabalhadores também, merecem nosso respeito”. Sonora salva de palmas. “A briga é com o Beto Richa e o Francischini”. E então começam coros de “Fora Beto Richa” e “Fora Francischini”.

“Eu acho que nem precisava de todo esse aparato, a gente só cumpre ordens”, desculpa-se um dos policiais. O clima volta a ficar tenso. O efetivo aumenta ainda mais.

Para acalmar os ânimos, os policiais chamam o major Renato, que seria o encarregado da operação naquela noite. Os professores chamam Professor Lemos para ser o porta-voz. O major afirma, em voz alta, que não iria fazer nada que não fosse previamente avisado aos manifestantes. Um deles grita o voto de confiança para os demais: “O major prometeu. Agora a gente pode dormir”. Já era perto da 1h da madrugada.

Assustada, uma mulher de idade pergunta a alguém ao lado: “Esse é o Francischini?”, se referindo ao major Renato. O homem nega. “Ufa”, ela respira, e volta para a sua barraca.

No chão, embaixo desses personagens, havia uma mensagem escrita em giz de lousa: “Aula de português: na frase ‘quem roubou o funcionalismo’, quem é o sujeito?”. A resposta já estava apagado de tanto pisoteada.

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