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Estilingue contra militares, em foto histórica de maio 1968, quando a ditadura endureceu. O então estudante de Medicina da UFPR José Ferreira Lopes, que tentava conter a ditadura com pedras, teve de ir para a clandestinidade | Edison Jansen/O Estado do Paraná
Estilingue contra militares, em foto histórica de maio 1968, quando a ditadura endureceu. O então estudante de Medicina da UFPR José Ferreira Lopes, que tentava conter a ditadura com pedras, teve de ir para a clandestinidade| Foto: Edison Jansen/O Estado do Paraná

Data é motivo de polêmica

A data em que os militares tomaram o poder em 1964 é motivo de polêmica. A história oficial e os militares dizem que o golpe começou na madrugada de 31 de março – quando, sob o comando do general Olimpio Mourão Filho, tropas militares mineiras marcharam de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro, para depor o governo de João Goulart. Porém, em seu livro "A ditadura envergonhada", o jornalista Elio Gaspari lembra as palavras do general Cordeiro de Farias, um dos conspiradores, que dizia que "o Exército dormiu janguista no dia 31 e acordou revolucionário no dia 1º (de abril)".

Apesar de oficialmente iniciado em 31 de março, foi só em 1º de abril que o golpe se consolidou, com Jango sendo deposto e fugindo para o Rio Grande do Sul. Assinalar a data da tomada do poder como 1º de abril, porém, seria inconveniente para o regime militar, pois este é o Dia da Mentira.

No dia 2, o Congresso Nacional declarou que a Presidência da República estava vaga, empossando o presidente da Câmara, Ranieri Mazzili. O deputado permaneceu no cargo desempenhando um papel decorativo, já que o governo era exercido pelos militares.

Em 11 de abril, depois de uma reunião entre governadores e generais, que pretendiam evitar que o marechal Artur da Costa e Silva tomasse o poder, foi eleito pelo Congresso Nacional como presidente da República o general Humberto de Alencar Castelo Branco. O general prometeu entregar o cargo no início 1966 a um sucessor legitimamente eleito pelo povo, o que não aconteceu. Os militares só deixaram o poder em 1985, quando o último presidente militar, João Baptista de Oliveira Figueiredo, deixou o poder para um civil eleito pelo Colégio Eleitoral, Tancredo Neves, que morreu antes de assumir.

O estopim para o golpe militar foi o discurso de Jango para um auditório de suboficiais e sargentos das Forças Armadas, no Rio de Janeiro. Em tom nada conciliador, o presidente disse que não admitiria golpe dos reacionários. "O golpe que desejamos é o golpe das reformas de base, tão necessárias ao país. Ninguém mais pode se iludir com um golpe contra o governo, contra o povo", disse Jango. Alguns setores do Exército tinham receio de que um golpe de esquerda pudesse ocorrer e reagiram, com apoio de grande parte da população. (RD)

  • Ney Braga: conspiração silenciosa

Embora o Paraná tenha tido papel secundário na implantação da ditadura militar no país, o governo paranaense apoiou silenciosamente, desde 1962, os militares que planejavam depor o presidente da República João Goulart. É isso que afirma, em entrevista exclusiva à Gazeta do Povo, o general da reserva Ítalo Conti, secretário de Segurança de Ney Braga, o governador do Paraná entre 1961 e 1965.

Quando o golpe foi deflagrado, há exatos 45 anos, em 31 de março de 1964, Ney Braga acabava de voltar de Belo Horizonte de uma reunião que havia tido com o governador de Minas Gerais, José de Magalhães Pinto. Segundo Conti, o governador havia ido a Minas Gerais conversar sobre o golpe que estava na iminência de acontecer. Foi em território mineiro (ver quadro) que começou o movimento militar para depor Jango.

"O Ney não só era favorável (ao golpe) como integrava o grupo de conspiradores", afirma Ítalo Conti. "Ele disse para mim: Ítalo, eu preciso governar o estado e não posso me expor. Mas você tem o meu aval para fazer o que tem de ser feito." Segundo Conti, o governador paranaense não quis se envolver publicamente para não prejudicar a administração do estado.

Ney Braga e João Goulart

A afirmação de que Ney Braga apoiou “silenciosamente, desde 1962, os militares que planejavam depor o presidente da República João Goulart”, não é verdadeira. Na página 193 do livro “Ney Braga: Tradição e mudança na vida política”, resultado da entrevista de Ney para o jornalista Adherbal Fortes, o ex-governador do Paraná conta que se comprometeu com a revolução em 30 de março de 1964. E uma simples revisão dos fatos históricos anteriores aquele ano confirmam a versão do ex-governador.

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O ex-secretário de Segurança afirma que, desde 1962, Ney Braga o havia incumbido de preparar um batalhão da Polícia Militar que pudesse ser usado no momento necessário, já que o alto comando do Exército no Paraná era ligado a Jango. "Havia tenentes e capitães do Exército que estavam do nosso lado. Mas não sabíamos como eles iriam se comportar quando houvesse a deposição de João Goulart."

Quando o golpe "estourou", porém, Ney Braga, que era coronel do Exército, foi um dos primeiros a apoiar a deposição do então presidente. Já no 1º de abril, ele fez um pronunciamento favorável à deposição de João Goulart e à tomada do poder pelos militares.

Sem luta

Sem disparar um único tiro, os militares golpistas rapidamente conseguiram dominar a situação no Paraná. Conti lembra que a pessoa que poderia frustrar os militares revoltosos era o general Silvino Castor da Nóbrega, comandante da 5ª Região Militar no Paraná, que apoiava Jango.

No dia 31 de março de 1964, o general voltava para Curitiba em um avião da Força Aérea Brasileira de uma reunião com o chefe da Casa Militar, general Assis Brasil, que tentava conter os militares golpistas. Segundo o ex-secretário de Segurança, o general teve sua rota de vôo alterada para não aterrissar em Curitiba. "O piloto do avião recebeu ordens de um tenente que era ligado a nós, que havia recebido ordens para levar o comandante (Silvino da Nóbrega) a Porto Alegre." Conti afirma que foi dito a Silvino da Nóbrega que a neblina impedia a aterrissagem. "Quando ele chegou no Rio Grande, já estava tudo dominado."

O pesquisador José Carlos Dutra, que estudou o golpe militar no Paraná, afirma que o general Silvino da Nóbrega tentou organizar uma resistência dando ordens aos batalhões de Blumenau e Joinville para que se deslocassem na direção de São Paulo. "Tal ordem não foi cumprida e o general foi destituído do comando, acusado de apoiar os comunistas. Respondeu a inquérito policial-militar e, posteriormente, foi transferido para a reserva remunerada", diz Dutra, em um de seus estudos.

Segundo ele, apesar de o Paraná não estar no centro dos acontecimentos, por pouco não houve luta armada no estado. "Devido aos fatos relacionados ao comandante da 5ª Região Militar (...), o comandante do 2º Exército determinou o deslocamento de tropas paulistas em direção a Curitiba pela Rodovia Régis Bittencourt (BR-116), prevendo a possibilidade de confronto com as tropas do general Silvino e considerando, também, ser passagem obrigatória de tropas que poderiam vir do Rio Grande do Sul", afirma Dutra. O conflito, porém, não ocorreu.

Sem resistência

Ao tomar o poder, os militares conseguiram desestruturar os movimentos de esquerda. "Houve uma debandada geral", afirma o jornalista paranaense Milton Ivan Heller, que militou no Partido Comunista até 1959. "No dia do golpe, o clima era de bastante apreensão, porque as emissoras de rádio e jornais traziam relatos, faziam uma campanha sórdida. Aquilo criou um clima de histeria." Segundo Heller, somente mais tarde é que a esquerda conseguiu se reestruturar, principalmente a partir de 1968, quando o regime militar tornou-se ainda mais rígido, com a suspensão dos direitos civis por meio do Ato Institucional Número 5 (AI-5).

"Quando o golpe aconteceu, a primeira sensação era de que era mentira. Ficamos perplexos, porque como estudante secundarista acreditava que estávamos avançando com o governo de Jango, em direção a um processo de libertação", afirma o atual procurador-geral do estado do Paraná, Carlos Frederico Marés, que militava no movimento estudantil na época. "A segunda reação foi de resistência. Teríamos de buscar uma maneira de nos livrar do regime militar. E a terceira sensação foi a de medo, do que os militares podiam fazer no poder."

Quatro anos depois, Marés, como presidente do Diretório Central dos Estudantes da UFPR, estaria envolvido em um dos episódios mais marcantes da luta contra a ditadura militar no Paraná: a ocupação da UFPR por estudantes que protestavam contra a cobrança de mensalidades. Esse episódio ficou marcado para a posteridade por uma foto de um jovem que, com um estilingue, enfrenta militares a cavalo. A imagem rendeu ao fotógrafo Edison Jansen, do jornal O Estado do Paraná, o Prêmio Esso – a maior premiação jornalística do país.

O jovem da foto era o estudante de Medicina José Ferreira Lopes, o Doutor Zequinha, que a partir de 1968, com o AI-5 teve de ir para a clandestinidade. "Quando o golpe aconteceu, eu estava em São Paulo, como estudante secundarista. A sensação foi de impotência, porque não houve reação contrária."

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