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Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) faz seu primeiro discurso como presidente da Câmara dos Deputados | Reuters/Ueslei Marcelino
Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) faz seu primeiro discurso como presidente da Câmara dos Deputados| Foto: Reuters/Ueslei Marcelino

O novo presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), é, para o bem ou para o mal, um produto do Parlamento. Moldado por 42 anos de altos e baixos, tem ao menos uma ambição no comando da Casa: tornar o Legislativo menos submisso aos demais Poderes.

Essa larga experiência é boa para o governo, que terá no comando da Câmara um aliado que sabe tomar o pulso da Casa e identificar qual a melhor estratégia a ser adotada nas votações. Mas essa mesma experiência e o desejo de tornar o Legislativo um Poder menos acessório são fontes de preocupação para os articuladores políticos do Palácio do Planalto.

Auxiliares da presidente Dilma Rousseff ainda não deixaram completamente de lado a desconfiança em Alves, desde que, como líder da bancada do PMDB, ele enfrentou claramente as posições públicas dela na votação do Código Florestal em 2011, antes de a petista completar seis meses no cargo.

Até por conhecer a Câmara melhor do que os articuladores políticos do Palácio do Planalto, o temor com as surpresas que o aliado pode impor ao governo será constante.

Mas para quem conhece Alves há anos e partilha negociações políticas com o peemedebista, como o ex-líder do governo, deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), essa desconfiança de membros do governo é sem fundamento.

"O Henrique vai ajudar muito mais o governo do que o Marco Maia (petista que presidiu a Casa até esta segunda-feira)", disse Vaccarezza à Reuters.

Derrotado por Maia na disputa interna do PT pelo mesmo cargo há dois anos, Vaccarezza argumenta que Alves tem mais experiência e isso será importante para Dilma.

Desde jovem

O primeiro mandato do peemedebista veio cedo, aos 22 anos de idade, em 1971. Alves chegou à Câmara como o deputado proporcionalmente mais votado no país e causava espanto aos seguranças do Congresso, que não acreditavam que ele era um dos parlamentares.

"Ser barrado virou uma constante --andava sempre com a credencial de parlamentar à mão", relata Alves no livro "O que não Quero Esquecer", uma biografia política lançada no final do ano passado.

Aos 64 anos, o vascaíno roxo é um interlocutor inquieto --interrompe reuniões para atender telefonemas a todo instante, o que já resultou em situações divertidas.

"Tem vezes que o pessoal que está reunido liga para o celular dele (Alves gosta de conversar por telefone andando) pedindo que ele volte para a reunião", contou um peemedebista que já viu a cena.

Nem mesmo um câncer nas cordas vocais, descoberto em 1998, segurou o falante deputado. Curado, Alves não seguiu à risca as recomendações médicas para não forçar a voz, mas isso não impede que hoje faça discursos estridentes com voz rouca.

Sem inimigos, mas com denúncias

Com décadas de vivência no Congresso, Alves não tem grandes inimigos na Casa e costuma pautar a atuação política pelas relações pessoais.

"Isso ficou ainda mais evidente no último ano durante a campanha para a presidência (da Câmara)", disse uma fonte do governo sob condição de anonimato.

Um peemedebista, que também pediu para não ser identificado, disse que Alves "é muito leal aos amigos, mas quando ele se desilude é grave" para quem o desapontou. Segundo esse colega de partido, um desses casos de desilusão ocorreu com o novo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL).

Os dois eram muito amigos, e Alves não teria poupado esforços para ajudá-lo durante a crise que resultou da saída de Renan da presidência do Senado em 2007. Mais tarde, porém, Alves soube que o amigo fez movimentos que o prejudicaram nos bastidores e desde então a relação entre os dois é fria, embora não chegue à inimizade.

Alves quase nunca se irrita em público. Mesmo quando discorda do interlocutor, trata o oponente de forma educada e até cerimoniosa, segundo relatos de pessoas que acompanham as reuniões de líderes partidários toda semana para definir a pauta do plenário.

Como todo peemedebista, Alves admira Ulysses Guimarães, a maior liderança histórica do PMDB, mas seu grande inspirador na política foi o pai, Aluízio Alves, que morreu aos 84 anos em 2006.

Mas a candidatura ao comando da Câmara trouxe dores de cabeça. Desde que entrou na disputa, virou alvo de denúncia. Uma delas dá conta de que um ex-assessor do seu gabinete e sócio de uma empresa se beneficiou de emendas do peemedebista para fechar contratos com prefeituras do Rio Grande do Norte.

Alves disse que apenas participa do processo político de escolha das emendas e não controla quem é contratado para fazer a obra.

Um observador da cena política nacional, o cientista político David Fleisher, da Universidade de Brasília, acha que Alves atinge o ápice na sua carreira política ao assumir o comando da Câmara, mas não terá força suficiente para "elevar o moral do Congresso" ou mesmo tirar o Legislativo do papel de satélite do Poder Executivo.

"Os currículos de Renan e Henrique Alves não permitem que eles mudem a visão (da sociedade) sobre o Congresso", disse Fleisher, ao comentar sobre os novos presidentes da Câmara e do Senado.

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