Desde que assumiu o Ministério do Esporte, segunda-feira, Aldo Rebelo não faz outra coisa a não ser ler contratos de convênios com ONGs e se reunir com secretários para tomar pé do emaranhado de confusões que terá de administrar.

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Não é pouca coisa, mas na sua mesa, na última sexta-feira, o lugar de destaque era ocupado pelo livro "O soldado absoluto", de Wagner William, uma biografia do general Henrique Teixeira Lott, ministro da Guerra do governo JK (Juscelino Kubitschek), cujos ideais eram o nacionalismo, a legalidade e a democracia.

Cercado pela "tralha" que carrega para onde vai — imagens de santos, estátuas de líderes mundiais e quadros com fotos de estadistas e escritores —, Aldo conversou com a reportagem sobre seus próximos desafios. Defendeu o antecessor Orlando Silva, a quem considera um homem honesto e íntegro, e disse que também é sua missão provar que seu partido, o PCdoB, tem compromissos com os interesses nacionais: "Você não tira diploma de revolucionário e põe na parede. Isso você tem que provar todos os dias". Mais adiante, afirmou, sobre a formação de sua equipe: "Eu vou contar com pessoas do PCdoB."

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O senhor é um curinga usado em momentos de crise. Qual seu maior desafio? O que a presidente Dilma pediu?

Conheço a presidente Dilma há algum tempo, fomos ministros juntos, minha indicação foi uma demonstração de sua confiança. Não houve uma recomendação especial, além das previsíveis (Copa e Olimpíada), ao lado de uma preocupação que é procurar dotar o país de uma política nacional de esporte, com sentido de permanência, de durabilidade. O Esporte não tem isso como prática educacional, mas também como pedagogia, como formação do cidadão.

O Segundo Tempo, principal programa da pasta, ficou descreditado com as denúncias?

Não creio que tenha ficado desacreditado, porque, estatisticamente, é muito reduzido o número de convênios que são alvos de denúncias. Temos que proteger o programa, que atende hoje mais de dois milhões de crianças. Elas ganham a oportunidade de praticar um esporte. É um programa reconhecido internacionalmente. A execução é que vamos procurar melhorar e assegurar meios que evitem contratempos, como os que nós conhecemos nesse episódio.

Pessoas de má-fé usaram o programa para desviar dinheiro público?

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Não posso apresentar nem apontar qualquer responsabilidade sem prévia apuração, seria julgamento precipitado. Creio que a grande maioria das ONGs trabalhou de boa-fé, fez o serviço com seriedade. Mas há, em todas essas atividades, aqueles que, ou por imprudência ou incapacidade, cometeram deslizes na prestação de contas. Como pode haver também má-fé, que só as investigações vão apontar.

O PCdoB é acusado de usar ONGs ligadas ao partido para fazer caixa dois. Outros partidos também, em outras áreas. Como acabar com isso?

Não acredito que o PCdoB tenha usado ONGs para fazer caixa dois. O que pode ter havido foi imperícia na prestação de contas ou desvio de finalidade, que só uma investigação pode apontar. Não tenho o direito de fazer julgamento prévio.

É um desafio seu também afastar a imagem de que o PCdoB aparelhou o ministério para fazer caixa-dois?

Um revolucionário disse, certa vez, que você não tira diploma de revolucionário e põe na parede. Isso você tem que provar todos os dias. Então, sou um militante, um dirigente do PCdoB e tenho a responsabilidade de demonstrar os compromissos do partido com o interesse público, com o interesse nacional, que é o compromisso programático, é a vida e a história do PCdoB. E essa é a minha tarefa. Creio que o ministro Orlando é um homem honesto, íntegro, que, como qualquer pessoa na vida, pode ter sido colhido num acidente, em episódios indesejáveis. Ele demonstrou, ao pedir a investigação sobre sua atividade, a boa-fé na realização de seus atos.

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Está tendo dificuldade para compor a nova equipe?

O equilíbrio entre a continuidade e a renovação tem que partir de critérios que reúnam afinidade política com o governo e o pensamento do ministro. Não afinidade ideológica ou partidária, mas afinidade com programas, com o objetivo de democratizar o Esporte, torná-lo acessível à população e, principalmente, aos jovens. E isso não é uma coisa fácil de reunir.

Por quê?

Você pode ter um gestor público experiente, pode ter a capacidade executiva, mas essas pessoas não estão aguardando que o ministro do Esporte as convoque. Elas têm suas tarefas. E há também a limitação dos salários. Não há um executivo no mercado disposto a receber a remuneração disponível no ministério. E no funcionalismo público, a quase totalidade deles já tem suas atividades definidas. Vou ter que ter certa paciência e persistência para buscar os nomes. Não posso ficar sem a memória do ministério. Tem que ter essa combinação de continuidade e renovação.

O PCdoB está demonizado a ponto de o senhor não poder contar com gente do partido?

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Eu vou contar com pessoas do partido, não tenha dúvida disso.