
Ouça este conteúdo
Saíram os resultados de 2025 do Pisa, o principal teste internacional de ensino. Globalmente, estes são os piores dados da série histórica – um processo que vem desde 2012. Alguns países melhoraram, como Turquia, Emirados Árabes Unidos, Montenegro, Catar e Eslováquia. A China costuma estar sempre nas primeiras posições, mas há suspeitas de que manipule o processo.
A desigualdade de desempenho entre melhores e piores alunos diminuiu, mas porque os melhores alunos pioraram. Os chamados “leitores apressados”, que leem um texto rapidamente e dão respostas rápidas e erradas, quase dobraram.
Em comparação com o teste anterior, o Brasil piorou em leitura e Matemática, e melhorou em Ciências. O país teve 409 pontos em Ciências (68.º lugar entre 91 países); 377 pontos em Matemática (71.º lugar); e 408 pontos em leitura (53.º lugar). A média da OCDE é de, respectivamente, 482, 463 e 461 pontos. O teste do ano passado também avaliou, pela primeira vez, a capacidade dos estudantes no uso de ferramentas computacionais; o Brasil ficou em 70.º lugar, com 406 pontos. Estamos na mesma faixa de países como Colômbia, Peru, Jordânia e Azerbaijão.
O Brasil subiu algumas colocações, mas não avançou na pontuação – ou seja, ultrapassamos países não porque nossos estudantes melhoraram, mas porque os dos outros pioraram
Pouco menos da metade dos estudantes brasileiros (49%) atingiram o nível 2 ou superior em leitura, ou seja, conseguem identificar a ideia principal em um texto de extensão moderada, encontrar informações com base em critérios explícitos, e refletir sobre o propósito e a forma dos textos. Só 1% teve pontuação igual ou superior ao nível 5 em leitura. Na média da OCDE, 69% dos estudantes chegaram pelo menos ao nível 2, e 6% atingiram o nível 5.
No Brasil, 81% dos alunos pedem ajuda aos professores quando precisam (a média da OCDE é 77%); 82% dos professores demonstram interesse na aprendizagem de cada aluno (média da OCDE: 69%); 78% dos professores continuam ensinando até que os alunos entendam (média da OCDE: 66%); e 76% dos professores oferecem ajuda extra quando os alunos precisam (média da OCDE: 73%). Por aqui, os estudantes também usam frequentemente a inteligência artificial para realizar pesquisas preliminares sobre um novo tópico: 40% no Brasil, contra 31% na média da OCDE. Apenas 11% nunca ou quase nunca usaram IA (a média da OCDE é de 14%).
A indisciplina e a ordem em sala são péssimas: 25% dos alunos no Brasil não conseguem se concentrar bem na maioria ou em todas as aulas (média da OCDE: 19%); 44% relataram que barulho e desordem atrapalham a maioria ou todas as aulas de Ciências (média da OCDE: 31%); 34% dos alunos relataram que seus colegas não prestam atenção no que o professor diz (média da OCDE: 29%). Sobre faltas, 55% dos estudantes no Brasil faltaram a pelo menos um dia de aula nas duas semanas anteriores à prova (média da OCDE: 22%); 53% relataram ter faltado a pelo menos uma aula (média da OCDE: 24%).
VEJA TAMBÉM:
Quando o assunto é meio ambiente, 84% dos estudantes no Brasil acreditam poder impactar positivamente o meio ambiente (média da OCDE: 81%); 87% acreditam que a ação coletiva pode solucionar problemas ambientais (média da OCDE: 82%); 67% têm algum ou muito interesse em contribuir para a proteção do meio ambiente em seus futuros empregos (média da OCDE: 62%). As formas mais comuns de engajamento são conversar com amigos e familiares sobre como causar um impacto positivo no meio ambiente (60% no Brasil, 56% na OCDE) e tomar decisões de compra com base na sustentabilidade dos produtos (58% no Brasil, 54% na OCDE). Mas, quando se trata de conhecimento de ciências ambientais, o Brasil performa mal: 49% dos estudantes atingiram pelo menos o nível básico de proficiência (nível 2) em Ciências Ambientais, enquanto nos países da OCDE 74% dos estudantes atingem esse nível. Ou seja, os brasileiros podem até ser mais engajados, mas sabem menos.
Por fim, algumas variáveis brasileiras estão na média da OCDE, como infraestrutura (física, digital e falta de pessoal); atitude dos alunos (curiosidade e esforço adicional, importância que se dá à escola); ou bullying e cyberbullying.
Há quem esteja divulgando os dados como “o mundo piora e o Brasil melhora”, mas não é bem assim: o Brasil de fato subiu algumas colocações, mas não avançou na pontuação – ou seja, ultrapassamos países não porque nossos estudantes melhoraram, mas porque os dos outros pioraram. Outros ainda usam o Ideb como prova de que “o Brasil melhorou”, mas o Ideb é uma completa farsa, pois considera também as aprovações – quanto mais se aprova, mais o indicador melhora –, e políticas de aprovação automática distorcem os dados.
A própria OCDE afirma que o Brasil ficou estável – e no penúltimo quartil. Não temos nenhum motivo para orgulho: os problemas continuam graves, e sempre os mesmos.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Adriano Gianturco é professor, doutor em Ciência Política, coordenador do curso de Relações Internacionais do IBMEC e autor dos livros “Mentiram para nós sobre o Brasil”, “A Ciência da Política” e “O empreendedorismo de Israel Kirzner”. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



