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Os brasileiros não confiam no Estado, não confiam no STF, não confiam nem uns nos outros, e os dados o comprovam. Mas há um sutil equilíbrio entre confiança e desconfiança. Pesquisa Ipsos de julho de 2025 mostrou que só 32% das pessoas confiam nos partidos políticos; 37% no Congresso Nacional, 41% nos sindicatos, 46% no governo federal e 49% no Judiciário. Entre os entes governamentais, ficaram acima da metade apenas as prefeituras, com 54% de confiança, e o Ministério Público, com 56%. Essa desconfiança é evidente e palpável no dia a dia. O caso recente do Pix foi uma demonstração disso: espalhou-se a notícia de que a Receita Federal queria tributá-lo, o governo negou, mas a população não acreditou no desmentido de jeito nenhum.
Atualmente, um dos protagonistas dessa desconfiança é o STF. Pesquisa Atlas Intel mostra que 60% das pessoas não confiam no Supremo. Isso acontece agora pela primeira vez desde que foi criada a série histórica, em 2022, e a virada ocorreu em agosto de 2025.
Recentemente, soubemos que 48% das pessoas desconfia das informações do jornalismo tradicional, e desconfia menos dos conteúdos enviados por familiares em redes sociais (39%) ou por aplicativos de mensagens (42%). Alguns veículos deram a notícia como se fosse uma jabuticaba, mas o número brasileiro está até levemente melhor que a média mundial. E, convenhamos, nesse caso a desconfiança é justificada mesmo! Mas vamos além da política.
Não é que partidos, sindicatos e Judiciário sejam ruins porque as pessoas desconfiam deles; é o contrário: como são ruins, as pessoas desconfiam
Sabe-se que o Brasil é uma “sociedade da desconfiança”: as pessoas não confiam umas nas outras, e isso vem de décadas. Outra pesquisa Ipsos colocou o Brasil na última posição entre 30 países: aqui, só 11% confiam no próximo, contra uma média global de 30%. De forma geral, mulheres, jovens e solteiros confiam menos que homens adultos e pessoas casadas. O estudo mostra também uma correlação positiva entre confiança e renda per capita. Na pesquisa Integrated Value Survey, com 118 países, o Brasil aparece na 11.ª pior colocação, com 7% de confiança entre pessoas.
Os dados variam um pouco, mas a moral da história é a mesma: a baixa confiança social.
Na literatura científica, a correlação entre confiança e riqueza é clara. Sociedades com mais confiança social são mais ricas porque conseguem fazer mais transações com menor custo. Na obra Sociedade da Confiança, Alain Peyrefitte descreve as sociedades de desconfiança como sociedades com muitos conflitos, com constante sensação de insegurança e medo, onde as pessoas ficam passivas, as raras iniciativas independentes tendem a ser malvistas, os cidadãos não conseguem se auto-organizar e a ordem social é mantida por uma autoridade despótica. A economia é vista como um jogo de soma zero e os empreendedores e as empresas, como aproveitadores e trapaceiros. Esses países tendem a apresentar mais intervencionismo estatal. Essa descrição é a cara do Brasil. Obviamente, as “sociedades da confiança” são o oposto.
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Não é questão de sermos “desconfiados” sem motivo; as instituições e muitas pessoas de fato não são confiáveis mesmo, e por isso os demais desconfiam. A desconfiança, portanto, é uma consequência dessa situação factual. Se tivéssemos partidos, sindicatos e Judiciário como os da Suécia e da Dinamarca, os brasileiros confiariam neles. Se os islandeses tivessem nossas instituições, também não confiariam nelas. Então, não é que partidos, sindicatos e Judiciário sejam ruins porque as pessoas desconfiam deles; é o contrário: como são ruins, as pessoas desconfiam.
Desconfiar do poder é coisa boa e justa; é assim que as pessoas vigiam o poder, o limitam e resistem aos abusos. Um poder mais limitado opera melhor e, portanto, torna-se mais confiável no longo prazo. Quando há confiança, as coisas funcionam melhor, mas é preciso haver motivo para tal.
Alguns, hoje, diante das críticas e da baixa confiança depositada no STF e no Estado em geral, tentam calar o dissenso à força. Mas a confiança se merece, se ganha no longo prazo; não é dada a priori, nem cegamente, e não tem como ser imposta.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos








