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Todas as eleições são importantes, mas algumas são mais importantes. Não é só uma questão de Lula versus Flávio, esquerda versus direita. É sobre a eleição em si, e sobre a democracia. Será que elas serão respeitadas?
Em primeiro lugar, o próximo presidente da República nomeará outros quatro juízes para o STF, que lá ficarão por décadas. Se Lula vencer, o Supremo mantém forte maioria alinhada à esquerda por muito tempo; se Flávio ganhar, haverá ao menos mais equilíbrio. A alternância no poder é boa por si só, porque nenhum grupo político deveria se acostumar a ocupar as instituições como se fossem suas. Como diz a frase atribuída a Mark Twain, “os políticos são como as fraldas: devem ser trocados constantemente, e pelos mesmos motivos”.
Em segundo lugar, setores do PT pularam o TSE e foram diretamente ao ministro do STF Flávio Dino – comunista declarado e velho amigo de Lula – para investigar suposto financiamento estrangeiro na campanha de Flávio, mesmo sem apresentar provas. Quando o caminho institucional é trocado pelo juiz que convém, a confiança no sistema como um todo é que sai perdendo.
A alternância no poder é boa por si só, porque nenhum grupo político deveria se acostumar a ocupar as instituições como se fossem suas
Em terceiro lugar, veremos, em caso de derrota de Lula, se o resultado será aceito ou se o terreno já vem sendo preparado para questioná-lo. E, se isso acontecer, veremos se as pessoas protestam ou se seguem com medo, descrentes e acostumadas aos abusos.
Em quarto lugar, veremos se as pessoas conseguem julgar Lula pelo que realmente fez e deixou de fazer, e não só pelo que fala e promete. E veremos se quem tem rejeição a Jair Bolsonaro consegue votar em Flávio, independentemente do sobrenome. Ou seja: veremos se a maturidade política está aumentando e se a polarização está diminuindo.
Em quinto lugar, se Flávio ganhar, espero que a confiança no processo eleitoral seja restabelecida. Ceticismo em relação à classe política é sempre saudável – mas as instituições, as eleições e a democracia precisam de confiança e legitimidade. Se Lula ganhar, essa desconfiança tende a piorar, junto com a desconfiança nas pesquisas eleitorais, que vinham apontando crescimento de Flávio. Um sistema eleitoral sob suspeita permanente é mais fraco para todos, inclusive para quem hoje se beneficia da desconfiança e amanhã pode estar do lado derrotado.
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Em sexto lugar, está em jogo a recuperação de contas públicas já abaladas, ou o caminho rumo a um calote, com toda a inflação e o caos econômico que isso significaria. Isso nos leva ao sétimo ponto: está em jogo a janta das pessoas – a simples capacidade de comer sem se endividar. Por trás de todo o debate institucional existe a vida real de quem sente no bolso, todos os dias, o preço do arroz, do gás e da conta de luz.
Em oitavo lugar, veremos se o Brasil irá na direção das democracias liberais ou na direção de China, Rússia, Nicarágua e Irã. É o momento da virada: se nos próximos anos o país insistir nessa segunda direção, o caminho de volta será muito difícil. E hoje, tanto pelo cenário doméstico quanto pelo internacional, não há como ficar no meio.
A eleição mais importante é sempre a próxima, dizem, e é verdade. Este não é o primeiro pleito de enorme importância, e nem será o último – mas tem, sim, uma importância estratégica. Na próxima semana o povo falará; resta saber se todos, vencedores e vencidos, estarão dispostos a ouvir e se adequar. É a hora da verdade, ou de algumas verdades.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Adriano Gianturco é professor, doutor em Ciência Política, coordenador do curso de Relações Internacionais do IBMEC e autor dos livros “Mentiram para nós sobre o Brasil”, “A Ciência da Política” e “O empreendedorismo de Israel Kirzner”. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



