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Você vota, mas sabe o que o leva a votar e como vota? A literatura científica divide os eleitores em várias tipologias.
O eleitor ideológico vota por uma identificação ideológica, e não pela pessoa ou pelo partido. No extremo oposto, temos o eleitor por competência: aquele que vota nos candidatos que ele considera mais competentes, independentemente de sua ideologia e de seu partido. Temos também o party identifier, o eleitor que vota no partido, independentemente de qual seja seu candidato naquele eleição, porque se identifica com a legenda – no Brasil, os casos mais evidentes são os eleitores do Novo e do Psol. Outros baseiam sua escolha em uma única questão: há quem vota pensando só na questão ambiental, só no livre mercado, só no aborto, só na igualdade de gênero etc. William Riker os define como os “single-issue voters”, ou “eleitores de assunto único”.
Anthony Downs afirma que há pessoas que votam com base no que lhes convém: se estiverem recebendo subsídios, continuarão votando no partido que propõe programas assistencialistas; quem é de regiões mais pobres votará em quem propuser transferência de recursos; eleitores de minorias étnicas ou sociais votarão em quem promete defendê-los; empregados estatais votarão em quem prometer aumentos ao funcionalismo. Esse é o eleitor racional/estratégico.
As categorias não são excludentes, mas complementares. Todos nós temos um pouco de várias delas
Também há o eleitor racionalmente ignorante, o que não investe muito tempo buscando informação política porque percebe que o custo é muito alto e o benefício é baixo. Às vezes, essa pessoa se torna um eleitor heurístico, usando atalhos mentais em vez de informação perfeita, para poupar tempo e energia. E alguns votam meramente por senso de dever; são os eleitores cívicos.
Alguns premiam ou punem o que um candidato fez no passado: são os eleitores retrospectivos. Outros olham apenas o que se promete para o futuro: são os eleitores prospectivos. No meio, está o eleitor do status quo, aquele que não quer mudar as coisas porque está relativamente satisfeito.
O eleitor independente (ou “flexível”) não vota sempre no mesmo partido; decide caso a caso, às vezes oscilando entre direita e esquerda – nos Estados Unidos, por exemplo, são os que votam às vezes nos democratas e às vezes nos republicanos. O eleitor de segunda ordem, conceito cunhado por Karlheinz Reif e Hermann Schmitt, não se importa em votar em candidatos de grupos opostos nos níveis federal, estadual e municipal (por exemplo, paulistas que votaram em Tarcísio e Lula, ou mineiros que votaram em Zema e Lula em 2022).
Algumas pessoas votam com base em identidade grupal (colegas, família ou amigos) e em emoções (como medo e esperança). São os eleitores tribais/emocionais. Nessa linha, há também o eleitor afetivo de Bryan Caplan, que vota mais para expressar sua posição e pertencimento que para se beneficiar ou para realmente influenciar o resultado. Um subtipo de eleitor afetivo é o affective polarization voter, que é levado pela polarização e vota pelo ódio aos oponentes.
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Temos também o eleitor de protesto, da cientista política Pippa Norris: é o que vota contra algo, contra Lula, contra Bolsonaro, contra Trump, contra os ricos, contra “tudo o que está aí”. O eleitor populista tem um forte sentimento anti-establishment, anti-elite política, contra um sistema visto como distante e corrupto; esse eleitor valoriza líderes vistos como “genuínos” ou “do povo”, que quebram o protocolo e dizem aquilo que o eleitor pensa, mas que a cartilha política tradicional reprime.
Karl Mannheim mostra que existe também uma questão geracional, o cohort voter. Uma geração, tendo vivido os mesmos eventos (guerras, crises, mudanças tecnológicas e culturais), tende a apresentar mudanças éticas e culturais similares, e esses valores tendem a ficar no tempo. Há, obviamente, também subgrupos variados que interpretam diferentemente os mesmos eventos, mas há uma tendência agregada geracional.
Essas categorias não são excludentes, mas complementares. Você pode se encaixar em mais de uma delas – a bem da verdade, todos nós temos um pouco de várias delas. O importante é ter consciência sobre como votamos, que tipo de eleitor somos, para tentar melhorar sempre.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Adriano Gianturco é professor, doutor em Ciência Política, coordenador do curso de Relações Internacionais do IBMEC e autor dos livros “Mentiram para nós sobre o Brasil”, “A Ciência da Política” e “O empreendedorismo de Israel Kirzner”. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



