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Alexandre Garcia

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Banco Master e INSS

A cruz de André

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André Mendonça tem a relatoria dos casos do Banco Master e das fraudes no INSS. (Foto: Gustavo Moreno/STF)

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Como pastor presbiteriano, o ministro do STF André Mendonça, nesse domingo, na igreja do bairro Pinheiros, em São Paulo, falou sobre as tentações que o demônio apresentou a Jesus, nos 40 dias de jejum no deserto. Referia-se ao Evangelho de Mateus, 4,1-11, em que Jesus jejuno foi desafiado a transformar pedra em pão para saciar-se; a se jogar do alto do templo, para ser amparado por anjos e receber admiração e aplauso; e a ajoelhar-se diante do Diabo, e receber em troca poder sobre todos os reis da Terra. Segundo os jornais, o pastor André recomendou aos cristãos: “Não se submetam a propostas tentadoras”. Parece-me que ele estava, talvez inconscientemente, recomendando isso para seus pares no Supremo e, sobretudo, a si mesmo.

O ministro André Mendonça tem sobre os ombros a relatoria dos dois maiores casos, os dois mais recentes gigantescos escândalos, na sucessão de malfeitos com que a nação brasileira se envergonha de conviver e, pior, de ir se acostumando. O Master e a previdência dos velhinhos clamam por ações que, ao contrário do que aconteceu com a Lava Jato, não se tornem uma pá de cal na esperança nacional de deixar de ser o país da impunidade. É um terrível peso sobre os ombros do ministro André, mas o pastor André sabe que a cruz posta nos seus ombros é um teste e uma aposta que vem do alto para confirmar valor moral e dignidade.

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Ele contou que, ao receber a segunda relatoria, a do Master, antes de começar o trabalho, orou, pedindo forças – certamente para ser sábio, justo, isento distante das partes, como deve ser todo juiz. A investidura leva o peso de integrar o mesmo tribunal em que alguns de seus pares podem estar envolvidos. Há indícios bem evidentes, como o contrato de R$ 129 milhões e as contas do Tayayá. Há o fato de que André, na AGU, fora nomeado por Toffoli diretor de Patrimônio e Probidade Administrativa, o que deve ter beneficiado sua carreira. Há o risco de ele ser usado para dar a chancela de lisura e justiça, e livrar quem precisa ser punido. Está, no Supremo, entre o mar e o rochedo. Afinal, já foi levado a assinar um termo que considera Toffoli, enquanto relator do Master, como acima de suspeita e que os atos praticados por ele têm plena validade.

O ministro André Mendonça está com a cruz das decisões solitárias, como se estivesse num deserto, com um imenso potencial de poderes, com o desafio de despejar sobre o inquérito a luz do Direito com que se doutorou na Universidade de Salamanca, com 800 anos de história. Sua missão está parecida com outra, muito atual, mas que já tem mais de 2 mil anos.

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Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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