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Como pastor presbiteriano, o ministro do STF André Mendonça, nesse domingo, na igreja do bairro Pinheiros, em São Paulo, falou sobre as tentações que o demônio apresentou a Jesus, nos 40 dias de jejum no deserto. Referia-se ao Evangelho de Mateus, 4,1-11, em que Jesus jejuno foi desafiado a transformar pedra em pão para saciar-se; a se jogar do alto do templo, para ser amparado por anjos e receber admiração e aplauso; e a ajoelhar-se diante do Diabo, e receber em troca poder sobre todos os reis da Terra. Segundo os jornais, o pastor André recomendou aos cristãos: “Não se submetam a propostas tentadoras”. Parece-me que ele estava, talvez inconscientemente, recomendando isso para seus pares no Supremo e, sobretudo, a si mesmo.
O ministro André Mendonça tem sobre os ombros a relatoria dos dois maiores casos, os dois mais recentes gigantescos escândalos, na sucessão de malfeitos com que a nação brasileira se envergonha de conviver e, pior, de ir se acostumando. O Master e a previdência dos velhinhos clamam por ações que, ao contrário do que aconteceu com a Lava Jato, não se tornem uma pá de cal na esperança nacional de deixar de ser o país da impunidade. É um terrível peso sobre os ombros do ministro André, mas o pastor André sabe que a cruz posta nos seus ombros é um teste e uma aposta que vem do alto para confirmar valor moral e dignidade.
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Ele contou que, ao receber a segunda relatoria, a do Master, antes de começar o trabalho, orou, pedindo forças – certamente para ser sábio, justo, isento distante das partes, como deve ser todo juiz. A investidura leva o peso de integrar o mesmo tribunal em que alguns de seus pares podem estar envolvidos. Há indícios bem evidentes, como o contrato de R$ 129 milhões e as contas do Tayayá. Há o fato de que André, na AGU, fora nomeado por Toffoli diretor de Patrimônio e Probidade Administrativa, o que deve ter beneficiado sua carreira. Há o risco de ele ser usado para dar a chancela de lisura e justiça, e livrar quem precisa ser punido. Está, no Supremo, entre o mar e o rochedo. Afinal, já foi levado a assinar um termo que considera Toffoli, enquanto relator do Master, como acima de suspeita e que os atos praticados por ele têm plena validade.
O ministro André Mendonça está com a cruz das decisões solitárias, como se estivesse num deserto, com um imenso potencial de poderes, com o desafio de despejar sobre o inquérito a luz do Direito com que se doutorou na Universidade de Salamanca, com 800 anos de história. Sua missão está parecida com outra, muito atual, mas que já tem mais de 2 mil anos.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Alexandre Garcia começou sua trajetória no jornalismo na década de 70. Trabalhou na Globo, onde passou pelos principais telejornais da emissora. Hoje atua como comentarista em 32 jornais e 210 rádios. É um dos nomes mais respeitados da imprensa brasileira, por sua expertise e opiniões contundentes, exercendo grande influência na mídia nacional. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



