
Primeiro, a Transparência Internacional se disse estarrecida com a inação da Procuradoria-Geral da República em relação ao contrato de R$ 129 milhões entre Daniel Vorcaro e a família de Alexandre de Moraes, além dos aportes do Tayayá, envolvendo a família Toffoli. Agora, o Centro de Liderança Pública alerta para um fato que eu já ouvi de muito advogado que trabalha com tribunais superiores em Brasília: eles perdem a corrida para os escritórios das famílias dos ministros do STF e do STJ. A nota diz expressamente que há uma vantagem de acesso, uma percepção de influência e um benefício econômico de escritórios de parentes de ministros das duas cortes, e defende que o parentesco seja motivo de impedimento automático para se atuar no tribunal quando o advogado for primo, sobrinho, filho, neto, enfim, seja parente do ministro que lá está. Isso é óbvio.
O problema é que vivemos uma crise ética. Nesta terça, fiz uma palestra, no Conselho Federal de Medicina, na abertura de dois congressos de bioética, um luso-brasileiro e um nacional. Eu disse que nosso principal mal é a decadência da moralidade, junto com a nossa falta de percepção dessa decadência. Vamos nos acostumando com a anormalidade, e nos adaptando a uma sociedade que esquece a ética. Aí vira lei da selva, lei do espertalhão, do mentiroso, do hipócrita.
Enquanto facções tomam conta do Brasil, chanceler inventa ameaça de invasão americana
O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, está no Peru para um encontro de ministros da Defesa do continente americano, e nesta quarta ele deve conversar com o subsecretário (o equivalente a um vice-ministro) de Defesa dos Estados Unidos sobre o significado, para os americanos e para as Forças Armadas dos EUA, da classificação de “terrorista” para grupos criminosos sediados no Brasil, mas presentes no mundo inteiro.
WhatsApp: entre no grupo e receba as colunas do Alexandre Garcia
Segundo a Ana Paula Henkel, as facções estão em 15 estados americanos. E eu estava revendo uma reportagem antiga da televisão portuguesa sobre a descoberta, pela Polícia Judiciária Portuguesa, de um grande laboratório de cocaína – o maior de Portugal, talvez um dos maiores da Europa – pertencente ao PCC. Nós estamos exportando o crime; além de ocuparem as cidades brasileiras e a Amazônia, as facções estão expandindo suas posições, e há quem diga que elas já estão maiores que os cartéis mexicanos e colombianos. Há um ano ou mais, a tevê portuguesa falava em 60 mil pessoas no mundo inteiro a serviço do PCC. Isso é gravíssimo.
E aí o chanceler Mauro Vieira diz – em uma carta ao deputado Evair de Melo, do Republicanos, que pediu informações – que a classificação das facções como terroristas não trará benefícios concretos. Mas Portugal deve estar torcendo para que se corte as facções pela raiz, aqui. O que espanta na carta do chanceler é a afirmação de que há possibilidade de uso de força militar dos Estados Unidos em território brasileiro. Deve ser isso que o ministro da Defesa brasileiro perguntará para seu colega americano.
VEJA TAMBÉM:
Mas essa história não faz sentido: teria de haver uma declaração de guerra para os EUA invadirem o território brasileiro sem permissão das autoridades brasileiras. Nós já fizemos isso em 1991: o presidente da Colômbia autorizou um pedido do presidente brasileiro para agir na Operação Traíra, e nós entramos no território da Colômbia. Os americanos trabalham dessa forma: o DEA, que é o departamento que trata de combate às drogas, tem convênio com países sul-americanos. Se não me engano, há convênios com a Colômbia e com o Peru, e que serão ampliados agora com as mudanças de governo.
Maus perdedores dificultam transição na Colômbia e no Peru
Aliás, os derrotados nos dois países não querem reconhecer o vencedor. O vencedor na Colômbia, Abelardo de la Espriella, chegou a dizer que Gustavo Petro está querendo dar golpe de Estado. Petro tem de entregar o poder dentro de um mês, em 7 de agosto, e está lá fazendo declarações absurdas. No Peru, onde a vitória foi de Keiko Fujimori, o perdedor também diz que não aceita o resultado e não reconhece a vitória da adversária. Aqui no Brasil, em 2022, até houve manifestações não reconhecendo o resultado, mas o governo Bolsonaro reconheceu e fez a transição, colocou a equipe de transição à disposição de Lula. Só que depois houve esse teatro, que chamaram de tentativa de golpe; mas todos viram que se tratou de teatro, e isso foi atestado inclusive nos votos do ministro Luiz Fux.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Alexandre Garcia começou sua trajetória no jornalismo na década de 70. Trabalhou na Globo, onde passou pelos principais telejornais da emissora. Hoje atua como comentarista em 32 jornais e 210 rádios. É um dos nomes mais respeitados da imprensa brasileira, por sua expertise e opiniões contundentes, exercendo grande influência na mídia nacional. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



