
Ouça este conteúdo
O ministro do STF Alexandre de Moraes é um polímata. Há pouco falou como se fosse presidente do TSE (onde já não está), ameaçando cassar a candidatura de quem usar inteligência artificial na propaganda – ou, quem sabe, estaria ainda falando como integrante do Ministério Público, também do seu passado. No Supremo, ele é vítima, investigador, julgador e executor, no tal inquérito do fim do mundo e em outros. Já age como legislador, também no Supremo, e agora aprofunda-se na atividade de reformador, constituinte. E não é que tem boas razões? Defendeu, numa palestra, que nossas instituições eleitorais já se esgotaram. E mostrou, com toda a razão, que os partidos já não representam as aspirações do povo e melhor seria deixar os representantes mais próximos da fonte do poder, pelo voto distrital.
Na verdade, não é apenas o modelo eleitoral. O próprio Judiciário vive uma exaustão. Congestionamento de ações, inconstitucionalidade de remunerações, arbítrio, injustiças, invasão em atribuições de outros poderes, e leitura infiel da Constituição. No modelo eleitoral, falta confiança devido à falta de transparência e compreensão do sistema de apuração de votos. Já não há separação entre poderes; há uma relação promíscua entre o Senado e o Supremo, em que um não julga o outro. Mudar essa interdependência é essencial para purificar um e outro. Se há o “rabo preso” do Senado, também há o do atual presidente da República, cuja ficha suja ganhou o alvejante do Supremo. A credibilidade do STF nunca esteve tão baixa, atingida pelo contrato de R$ 129 milhões de Vorcaro com a esposa de Moraes, e pelos aportes de milhões no Tayayá.
WhatsApp: entre no grupo e receba as colunas do Alexandre Garcia
O general Golbery, um dos pensadores do regime militar, me disse certa vez que era urgente devolver o poder aos civis, porque todo regime tem o seu tempo e seus sinais de desgaste, deterioração e exaustão. O próprio regime gera seus germes degenerativos. Dagoberto Godoy, ex-presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul, me chama a atenção para o desgaste, a exaustão desse modelo de arbítrio e manutenção do status quo em que vivemos.
Legislativo e Executivo foram atingidos pelo roubo cruel de R$ 6 bilhões de 4 milhões de idosos da Previdência. O filho do chefe do Executivo, o Lulinha, está em todos os jornais que mostram abundantes indícios de tráfico de influência. E o desgaste nas contas públicas, provocado por gastos descontrolados do governo, tem consequências na dívida pública de mais de R$ 10 trilhões que gera juros anuais de R$ 1 trilhão, o que mantém os juros altos, que, por sua vez, provocam inadimplência em pessoas jurídicas e físicas e abalam o instrumento do crédito, essencial para financiar o investimento para crescer. O PIB se enfraquece em todos os setores da economia; o sistema financeiro se acautela. A recuperação judicial dispara, empresas fogem para o Paraguai. A mídia que ficou omissa ou apoiou os desvios institucionais também foi atingida pelo descrédito. Todos os sinais de abalo estão presentes. E há eleições em outubro. O que irá o eleitor decidir?
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Alexandre Garcia começou sua trajetória no jornalismo na década de 70. Trabalhou na Globo, onde passou pelos principais telejornais da emissora. Hoje atua como comentarista em 32 jornais e 210 rádios. É um dos nomes mais respeitados da imprensa brasileira, por sua expertise e opiniões contundentes, exercendo grande influência na mídia nacional. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



