Como você se sentiu com essa matéria?

  • Carregando...
2022
2022| Foto:

Esse artigo marca minha volta à Gazeta do Povo, após um ano em que fiquei afastado (com muitas saudades de contribuir para o debate no jornal) a fim de encerrar minhas pesquisas sobre ativismo judicial, montar meu curso sobre o tema e realizar uma visita de estudos à Universidade de Oxford, onde pude enriquecer minha análise sobre o assunto estudando e assistindo aulas com professores dos departamentos de Teoria Constitucional e Filosofia do Direito.

Foi sem dúvida alguma um período bastante frutuoso e enriquecedor e poderei compartilhar parte do que aprendi com vocês por meio dos artigos. Como o tema do ativismo judicial tem dominado meus estudos, dominará também meus artigos. Por isso, a presente coluna será, basicamente, voltada a expor textos críticos ao sistema de justiça, particularmente ao STF, órgão que julgo o mais disfuncional da República na atualidade. E fico longe de estar isolado nessa opinião. O tribunal hoje utiliza investigações que são rosários de ilegalidades, promove atos que redundam em inegável censura, direciona perseguições contra grupos políticos específicos e tem determinado prisões indubitavelmente arbitrárias.

Todavia, tendo em vista que este meu primeiro texto cai em data próxima ao início do ano de 2022 – e como não faltarão oportunidades para debater o ativismo judicial – dedicarei esse primeiro artigo a uma finalidade quiçá mais prosaica, porém não menos edificante: sugerir 5 metas para o ano novo.

Essas metas visam de modo muito especial um público específico: pessoas que se dedicam à vida de estudos, sejam por serem acadêmicos, intelectuais diletantes ou apenas pessoas que gostam de participar do debate público de forma mais qualificada do que a média ou têm o desejo de impactar positivamente o ambiente cultural brasileiro. Contudo, creio que as dicas aqui esboçadas podem se revelar valiosas (ou ao menos úteis) para qualquer pessoa em busca de preencher o seu ano com metas exigentes e capazes de dotar de sentido o ano corrente, vendo-o como uma etapa dentro de um plano de vida pessoal eticamente responsável e socialmente comprometido.

Antes de apontar as metas propriamente, irei rapidamente sugerir o modo de estabelecê-las:

1) Escreve-as: minha experiência pessoal me indica e estudos confirmam que pessoas que escrevem suas metas incrementam significativamente as chances de perseverar nelas e vê-las realizadas. Aliás, de preferência, mantenha-as visivelmente acessíveis ou cheque-as com frequência;

2) Estabeleça objetivos exigentes, porém factíveis e específicos para o presente ano: ainda que você tenha metas de mais longo prazo, veja o que elas exigem de concreto de você no presente ano;

3) Fixe propósitos passíveis de verificação quanto ao seu alcance (preferencialmente quantificáveis): não descreva coisas elusivas ou conceitos abstratos e vagos. Ainda que uma parte de seus sonhos e compromissos pessoais tenham essas características (p. ex.: ter uma família feliz), tente estabelecer metas concretas para o ano corrente: por exemplo, sair para jantar fora ao menos uma vez por mês com minha esposa e fazer um pequeno passeio toda semana; ler uma quantidade X de minutos todos os dias para os meus filhos etc.

4) Tenha metas compartilhadas com outra(s) pessoa(s): metas compartilhadas são mais difíceis de abandonar, pois há a sensação de “pressão” por parte da pessoa ou grupo com o qual você compartilhou a meta, além de que atividades conjuntas têm um valor particular em virtude da sociabilidade que envolvem e das amizades que possibilitam.

Dito isso, vamos às metas. Apenas dois últimos avisos: primeiro, minha formação pessoal inegavelmente marca os tipos de sugestões que apresento. Pessoalmente, sou alguém apaixonado por humanidades em geral (história, música, literatura etc) e com formação jurídica. Creio que boa parte dos meus interlocutores terão perfil semelhante. Se você estiver distante desse perfil, terá de fazer algumas adaptações. Mas repito: estou absolutamente convencido de que é perfeitamente possível adaptá-las com proveito para pessoas de qualquer perfil.

Segundo e último ponto: quis nesse texto indicar pontos que reputo relevantes para a vida de estudos e que, correntemente, tendem a ser subestimados por intelectuais em geral. Por isso tentei fugir do que seria usual (dicas de livros, filmes e cursos) e apontar hábitos que poderiam parecer desligados da vida do espírito num primeiro momento; contudo, acredito que valem a pena serem integrados criativamente num projeto de vida desse estilo.

Sem mais delongas.

1) Pratique esportes regularmente: estudos demonstram já de modo bastante consolidado que a prática esportiva acarreta importantes benefícios psicológicos e físicos. O desporto é um modo bastante importante de descanso e é capaz de melhorar o sono, fatores relevantes para nos manter alertas, criativos e com boa memória. Friso que descanso de boa qualidade não é não fazer nada, mas desempenhar atividades que exijam um tipo de esforço diferente daquele que nos é corrente. Logo, para a vida de estudos, exercitar o corpo é um ótimo modo de repousar a mente.

O esporte ainda nos mantém em boa forma e combate o sobrepeso, o que incrementa nossa produtividade e capacidade laborativa. Não só: ele reduz o stress e a ansiedade, os quais são predadores da atenção, e ajudam na autoestima. Ressalto o desenvolvimento de uma reta autoestima é importante para a vida intelectual. Para uma visão bastante completa do tema, recomendo o livro “A Autoestima do Cristão”, publicado no Brasil pela Editora Quadrante. Especificamente no tocante à vida intelectual, pessoas com baixa autoestima podem ser tragadas para uma busca de pura autoafirmação ou aceitação pelos pares.

Especificamente no tocante a esportes coletivos, adiciono que eles envolvem qualidades de liderança e atuação em equipe, e a prática esportiva de longo prazo exercita a paciência, a disciplina e a perseverança.

Em suma, o esporte condensa vários elementos da vida boa. Talvez, por esse motivo as aristocracias sempre o tenham visto como dotado de um papel na composição de uma personalidade bem formada. De fato, segundo o intelectual austro-brasileiro Otto Maria Carpeaux, é um traço do estilo aristocrático equilibrar esporte e cultura, nobreza e religiosidade.

Também o Papa Bento XVI, em discurso proferido em 1 de agosto de 2009, a atletas presentes na cidade de Roma afirmou sobre a prática esportiva:

“Com as vossas competições ofereceis ao mundo um emocionante espetáculo de disciplina e de humanidade, de beleza artística e de vontade tenaz. Mostrai para que metas pode conduzir a vitalidade da juventude, quando não se rejeita o cansaço de treinamentos árduos e se aceita de bom grado não poucos sacrifícios e privações. Tudo isto constitui uma importante lição de vida (…).

Como há pouco foi recordado, o desporto praticado com paixão e atento sentido ético, especialmente para a juventude, torna-se ginásio de espírito de competição sadio e de aperfeiçoamento físico, escola de formação para os valores humanos e espirituais, meio privilegiado de crescimento pessoal e de contato com a sociedade. (…)

As disciplinas desportivas, cada uma com diversas modalidades, ajudam-nos a apreciar este dom que Deus nos concedeu. A Igreja acompanha e está atenta ao desporto, praticado não como um fim em si mesmo, mas como um meio, como instrumento precioso para a formação perfeita e equilibrada de toda a pessoa. Inclusive na Bíblia encontramos interessantes referências ao desporto como imagem da vida. Por exemplo, o Apóstolo Paulo considera-o um autêntico valor humano, utiliza-o não apenas como metáfora para explicar altos ideais éticos e ascéticos, mas também como meio para a formação do homem e como componente da sua cultura e civilização.”

2) Monte seu plano de vida

Qualquer plano inteligente de ação depende, primeiramente, de uma ideia suficientemente clara de qual o seu fim. Na obra clássica de Lewis Carroll, “Alice no país das Maravilhas”, o personagem o Gato de Cheshire imortalizou essa lição em sua fala: “Se você não sabe para onde ir, qualquer caminho serve”.

Pois bem, um projeto de vida não é nada mais do que um planejamento inteligente para a existência como um todo. Por isso, ele também depende de uma visão razoavelmente delineada de qual o propósito de nossa vida como um todo. Em suma: qual a missão que escolhemos desempenhar na terra.

Nesse sentido, o jurista e filósofo John Finnis, professor emérito da Universidade de Oxford, em suas principais obras (“Natural Law & Natural Rights” e “Fundamentals of Ethics”) ao elencar os requisitos da ação inteligente (que ele chama de razoabilidade prática) coloca como primeiro deles o estabelecimento de um plano de vida coerente.

Vou dar um exemplo trivial para demonstrar como isso é imprescindível para tomada de decisões inteligentes diante de alternativas de ação. Se eu me perguntar: devo fazer um curso de engenharia ou medicina? Simplesmente inexiste resposta pronta para essa questão. Cada opção possui prós e contras. Nenhuma é simplesmente superior. Agora, se você sabe que você quer ser médico ou que você quer ser engenheiro, a decisão se tornou simples.

Na vida nos deparamos constantemente com perguntas desse tipo: devo assumir um novo emprego que implica em sacrifícios para minha família? Devo dedicar mais tempo ao trabalho? Qual o critério para escolher sobre a educação dos meus filhos? Saber a pessoa que queremos ser e com qual missão de vida nós estamos comprometidos lança luzes sobre esse tipo de dilema.

Agora, fica a dúvida: como esboçar um plano de vida? Já vou ensinar um exercício útil para isso, mas primeiro gostaria de indicar algumas características de um bom plano de vida. Primeiramente, ele tem de ser suficientemente concreto, para que possa auxiliá-lo nas suas decisões e julgamentos, mas também suficientemente curto e flexível. A ideia não é que você escreva um romance autobiográfico, mas apenas um esboço dos traços essenciais da vida que você gostaria de desempenhar e teria orgulho de desempenhar. Outro ponto de equilíbrio importante: seu plano de vida tem de provocar em você suficiente compromisso, de modo que você não se afaste dele por razões irrelevantes, mas também saiba que ele não é uma sina reduzida a termo. É um projeto inteligente de vida. Caso surjam razões igualmente inteligentes no futuro e suficientemente fortes e moralmente autênticas, você pode alterá-lo, sem qualquer problema. A ideia é que seja um guia; não um fardo.

Bom. Quanto ao modo prático de fazer um plano de vida, não conheço forma melhor do que o “exercício do funeral” proposto por Stephen Covey, autor do best-seller “7 Hábitos das Pessoas Muito Eficazes”. Uma versão semelhante desse exercício foi popularizada pelo filósofo brasileiro Olavo de Carvalho, sob o rótulo de “exercício do Necrológio”.

A ideia é simples: imagine que você está assistindo seu próprio funeral. As pessoas que lhe são mais queridas estão ali falando a seu respeito, logo após a sua morte. Ou então, imagine o necrológio que alguém escreveu sobre você um dia após a sua morte.

Agora pergunte-se após refletir: o que você quer que as pessoas digam ou escrevam que você foi? Qual o seu legado? Quem era você no dia em que faleceu?

O empresário e autor André Faria gravou um vídeo interessante, com algumas dicas sobre esse exercício.

Acerca da versão do necrológio, você pode encontrar mais orientações clicando aqui.

3) Aprenda inglês

O ambiente cultural brasileiro, embora contenha riquezas e tenha contado com autores de singular grandeza durante sua história, encontra-se em crise. Essa crise manifesta-se pelo vazio literário atual, pela pobreza da produção acadêmica e pela irrelevância científica. Para ter acesso ao melhor material, sem precisar esperar as traduções, é importante aprender inglês. Essa dica me parece particularmente relevante para acadêmicos, pois permite transcender o ambiente universitário brasileiro que foi – em larga medida – fagocitado por ideologias políticas.

4) Estabeleça um plano de estudos sobre história: geral e da sua área.

Estou convencido de que algo muito importante na vida intelectual é a percepção de que vivemos num ponto dentro de uma linha. Isso ajuda a prevenir contra todas as espécies de provincianismo temporal que leva a crer – equivocadamente – que as ideias da moda são as únicas relevantes ou que seriam completamente inovadoras ou ainda necessariamente superiores às do passado.

Na verdade, as ideias surgem dentro de uma tradição. Compreender essa tradição é importantíssimo para uma cognição mais profunda das várias correntes de pensamento de nossa própria época. Nesse sentido, o falecido e conceituado professor de Ciências Sociais da Universidade de Columbia Charles Tilly, em artigo sobre por que e como o estudo da história importa para o estudo de temas políticos, defende que a análise política dificilmente pode chegar a lugar algum sem uma análise histórica cuidadosa, uma vez que todo fenômeno político significativo vive na história e requer uma análise historicamente fundamentada para sua explicação. Minha experiência pessoal me leva a concluir que ele não poderia estar mais correto.

Por isso, uma ferramenta que me ajuda bastante e que me parece poderosa é começar o estudo sobre qualquer assunto pelo estudo da história do tema, tanto dos fatos, quanto dos autores, obras e conceitos. Se quer aprender literatura: comece por mapear os escritores, livros importantes e estilos. Quando você tiver essa lista, você já saberá muito mais do que se houvesse lido meia dúzia de livros a esmo sem ter essa visão panorâmica da matéria.

Cada disciplina possui bons livros sobre sua história. Gostaria aqui apenas de registrar uma coletânea de livros sobre história geral: a coleção da autora Susan Wise Bauer. A versão mais simples da obra foi recentemente traduzida para o português, pela editora É Realizações, basicamente visando auxiliar os pais educadores do homeschooling. Os pontos positivos dessa coleção são: está traduzida; é mais barata; é mais simples e resumida; abarca toda a história. É uma interessante dica para um olhar inicial sobre a história universal. De todo modo, há uma coleção bem mais completa da mesma autora e é essa que eu gostaria de indicar. Esse livro é de uma qualidade realmente singular pela didática, completude e também por já abarcar a história do Oriente, particularmente da China e da Índia, o que se torna cada vez mais relevante, uma vez que os países despontam no cenário global. Creio que essa é uma dica valiosa. Tive de verificar muitas obras antes de encontrar essa que adotei como manual de história e tem me ajudado bastante a contextualizar fatos, autores e obras dentro da história universal. O ponto negativo é que a coleção abrange apenas a Idade Antiga, Média e a Renascença. Daí pra frente tem de ser complementada pelo 4º livro da coleção mais enxuta que citei anteriormente.

5) Planeje para fazer atividades com a sua família

A vida intelectual não é uma vida ensimesmada. Em seu clássico livro de introdução aos estudos de humanidades, “A Vida Intelectual”, o tomista Sertillanges dedica alguns tópicos da obra a explicar por que o intelectual não é um isolado, mas deve buscar impactar positivamente seu ambiente social e atuar coletivamente.

Quanto a esse tema, um ponto que reputo muito importante para intelectuais humanistas modernos é o do tempo em família. A família é a célula básica da sociedade. Além de um valor intrínseco (o qual ela possui independente de qualquer resultado que produza na sociedade, um intrinsic common good, para me valer de uma expressão do intelectual conservador americano e professor da Universidade de Princeton Robert P. George), ela possui um papel insubstituível na vida social. Inúmeras pesquisas demonstram os impactos positivos que a saúde da vida familiar traz para a sociedade.

Mas como posso melhorar a minha família? Há várias formas. O tema é inabarcável. Há um ponto, contudo, que me parece singelo e ao alcance de todos: passar tempo juntos em atividades divertidas. Já escrevi artigos demonstrando, com base em vasto material científico, que a presença dos pais e a prática dos rituais familiares (refeições, festas, encontros anuais de Natal etc.) possuem profundos impactos nos indicadores de felicidade e realização. Por isso, creio que uma boa meta para este ano de 2022 é: estabelecer um horário diário e algumas práticas simples semanais, assim como alguns eventos mensais para a família. Crie hábitos, estabeleça rotinas, desenvolva atividades divertidas. Voltaremos a esses tópicos em textos futuros.

Com isso, encerro meu artigo de hoje. Espero que essas dicas sejam úteis e proveitosas para você. É um prazer estar de volta à Gazeta do Povo. Desejo a você, leitor, e a toda sua família, um 2022 cheio de lutas e conquistas.

Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]