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“O petróleo é nosso.”
Lula pronuncia a frase com as mãos erguidas, sujas de óleo bruto. É 15 de julho de 2010, no Campo de Baleia Franca, no litoral do Espírito Santo. Ele acaba de mergulhar as mãos no petróleo recém-extraído do pré-sal.
A frase não é dele; é de Getúlio Vargas. Foi o slogan da campanha nacionalista dos anos 1940 que culminou, em 1953, na criação da Petrobras. O pretexto ideal para vender a estatal como patriotismo.
A foto ficou perfeita nas capas de jornal. O que não aparecia na imagem, porém, acontecia nos bastidores.
Enquanto o presidente sujava as mãos para as câmeras, a estatal se sujava de esquema por dentro. Aquele ano, eternizado na foto, foi também o ápice do mecanismo que a Operação Lava Jato revelaria anos mais tarde: o Petrolão.
O esquema era simples e ganancioso. Grandes empreiteiras combinavam entre si os resultados de licitações milionárias muito antes de elas acontecerem. Não havia concorrência legítima, mas um teatro em que os contratos já nasciam superfaturados, com um valor extra embutido no preço só para ser repartido depois.
Esse teatro só funcionava com gente de dentro. Diretores da própria Petrobras, os mesmos que aprovavam essas obras, garantiam que só as empresas do esquema fossem chamadas e vencessem.
Em troca, recebiam sua fatia, geralmente entre 1% e 3% do valor de cada contrato. Parece pouco, até você lembrar que os contratos chegavam a bilhões de reais. Um desconto de 3% num contrato de 1 bilhão de reais já significa 30 milhões de reais.
A gordura desses valores irrigava dois caminhos: o bolso de diretores da estatal e o financiamento ilegal de campanhas políticas, incluindo, segundo delações, a sucessão presidencial daquele ano: a campanha de Dilma Rousseff.
O prejuízo ultrapassou 7 bilhões de reais em desvios. Dinheiro do contribuinte molhando a mão de político e burocrata.
Quinze anos depois, a cena se repete.
Lula volta a mergulhar as mãos no petróleo, desta vez na Margem Equatorial. A postura é idêntica: palmas erguidas, sorriso de conquista e discurso pronto: “Ninguém vai meter o dedo no petróleo do Brasil”.
No lugar dos adversários do passado, o novo alvo retórico é Donald Trump.
A foto faz parte da estratégia de campanha, definida pela própria equipe de marketing do presidente. Em meio à disputa eleitoral e às tensões com Washington, Lula reaquece o discurso nacionalista e faz da soberania o pilar central da comunicação. Não à toa, a palavra aparece 31 vezes no plano de governo protocolado.
Mas o velho discurso de que “o petróleo é nosso” nunca foi sobre soberania energética. Foi sobre o controle da máquina pública
Quanto maior a intervenção estatal, maior o loteamento de diretorias, o volume de contratos executados e a margem para o uso político da empresa. No fim, a ideia de soberania serve como palanque perfeito: ajuda a vencer a eleição e garante o balcão para fatiar cargos entre os aliados.
Mas vale lembrar: o Petrolão não é apenas uma cicatriz que o governo federal decidiu ignorar. Ele continua produzindo efeitos, inclusive fora do Brasil, justamente porque nem todos aceitam apagar aquilo que foi descoberto.
Nesta semana, a Justiça britânica impediu que mais um capítulo desse esquema fosse enterrado. O Serious Fraud Office, agência de combate a fraudes do Reino Unido, mantém congelados 51 milhões de reais, equivalentes a 7,3 milhões de libras, pertencentes a um ex-engenheiro da Petrobras envolvido no Petrolão.
Em 2021, o Brasil enviou essas provas ao Reino Unido, dentro da cooperação da Lava Jato. Em março de 2026, o ministro Dias Toffoli anulou a autorização que permitiu esse envio, tentando tirar o chão jurídico de um acordo que o próprio Brasil já tinha cumprido. Se desse certo, o dinheiro que a Lava Jato provou ser propina voltaria para o bolso do ex-engenheiro que o desviou.
Um juiz de Londres não aceitou.
Escreveu que um país anular sozinho, depois de anos, uma cooperação que ele mesmo estabeleceu era, nas palavras dele, “no mínimo, altamente incomum”. Manteve o dinheiro congelado e mandou o recado: prova é prova. Ela não deixa de existir porque um ministro decidiu que deveria deixar.
A tentativa de reescrever o passado esbarra no mundo real.
Não basta erguer as mãos sujas de óleo ou recorrer a slogans do século passado. A pose que emula Getúlio e repete 2010 confronta uma realidade documentada, por mais que tentem esconder escândalos de corrupção atrás do discurso de soberania.
As mesmas mãos sujas de petróleo que hoje prometem proteger o Brasil são as que, quinze anos atrás, se erguiam em pose de conquista enquanto a Petrobras era saqueada por dentro, bilhão por bilhão.
Eles apostam no esquecimento do eleitor para manter a máquina funcionando; cabe a nós não deixar. A Petrobras que Lula quer que você esqueça é exatamente aquela que precisamos continuar lembrando.

Anne Dias é advogada, mestranda em Ciência Política pela UFPR, comentarista e colunista da Gazeta do Povo. Tem trajetória em instituições no Brasil e no exterior dedicadas à promoção da liberdade, com experiência em Washington, D.C. É fundadora do Instituto Amplifica, iniciativa voltada à formação de vozes em defesa da liberdade no debate público. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



