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Anne Dias

Anne Dias

O caso do tríplex

A história de Lula que querem que você esqueça

Lula chegando à sede da Superintendência da Polícia Federal em 7 de abril de 2018. (Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

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Sete de abril de 2018. Um domingo à noite em São Bernardo do Campo.

É o último discurso de Lula antes da prisão. Entre as muitas pérolas daquele discurso, Lula convida Sérgio Moro para um debate, diz que "um ladrão não estaria exigindo provas" e avisa que, quando voltar ao poder, vai regular a imprensa. Em certo momento, Gleisi Hoffmann se aproxima e, sem perceber os microfones abertos, comenta: "Está com cheiro de cachaça".

Quando o discurso termina, a ordem de prisão já havia expirado. Depois de mais de 24 horas de impasse, acompanhado ao vivo por todo o país, Lula deixa o sindicato, passa pelo túmulo de Marisa, sua parceira no amor e no crime, e se entrega à Polícia Federal. Vira o preso 5-08 da sede de Curitiba e transforma a cidade em uma República.

Dessa parte da história e do tempo que ele passou atrás das grades, todo mundo lembra. Mas por que ele foi preso mesmo? Essa também é uma história que merece ser lembrada.

Tudo começa com um apartamento no Guarujá. Um tríplex de tirar o fôlego, com piscina, elevador e uma vista paradisíaca para o mar. O cenário perfeito, digno de uma mansão de vilão de novela das nove.

Mas esse tríplex novinho em folha, registrado no nome da construtora OAS, tem algo estranho: está vazio há 5 anos. Um apartamento desses, parado, sem uso? Tem alguma coisa errada aí.

A resposta veio ao longo da investigação Lava Jato, numa conversa gravada entre dois funcionários da construtora. Nela, eles falam de quem comprou o apartamento: o “chefe” e a “madame”. Segundo eles, o projeto estava sendo executado sob medida, atendendo a todas as exigências do casal.

O “chefe” e a “madame” ganharam nome e sobrenome assim que o dono da construtora resolveu falar. Léo Pinheiro, que já estava preso por corrupção ativa, lavagem de dinheiro e organização criminosa, confessou: o apartamento era para Lula e sua amada.

Não foi um caso isolado. A OAS mantinha uma conta corrente informal com o PT, de cerca de 80 milhões de reais, formada por descontos em contratos com a Petrobras. Era desse saldo que o partido sacava sempre que precisava, e foi dali que saiu o dinheiro das reformas do tríplex e do sítio de Atibaia.

Mas há quem diga que só a delação do dono da construtora não é prova suficiente. E teriam razão, se fosse só isso. Uma engenheira, durante uma visita técnica, confirmou que Marisa foi apresentada como dona do apartamento. Um gerente da OAS confirmou ter acompanhado o próprio Lula numa visita anterior. A empreiteira só personalizava a reforma depois de fechar a venda, mas ali a reforma começou antes, sem contrato nenhum. Mais documentos com o nome de Marisa ligados ao prédio foram encontrados. Prova, nesse caso, não é o que falta.

A essa altura, fica difícil duvidar do porquê de a OAS fazer isso, não é? O puro suco do Brasil: esquema, propina, corrupção.

A OAS era uma das empreiteiras do cartel que dividia entre si os maiores contratos da Petrobras, cada uma recebendo sua fatia em troca de manter o preço superfaturado e a boca fechada. O apartamento no Guarujá era parte dessa engrenagem: propina paga em tijolo, reforma e vista para o mar.

O mesmo esquema levou à condenação do dono da OAS a mais de 30 anos de prisão. Segundo o Tribunal de Contas da União, o prejuízo total causado à Petrobras pelo esquema chegou a 29 bilhões de reais. A OAS foi o Banco Master da década passada.

E, é claro, tem também o famoso sítio em Atibaia, onde Lula e a madame passavam as férias. A investigação revelou o mesmo esquema: o imóvel era registrado em outro nome, e a propina vinha na forma de reformas de luxo e melhorias estruturais, bancadas por três empreiteiras: Odebrecht, Schahin e, mais uma vez, a OAS.

Foi esse conjunto de fatos que levou às condenações. Aquele homem em cima do caminhão jurou que um ladrão não pediria provas. As provas vieram, e não foram poucas. Anos depois, o STF, com justificativas bem questionáveis, decidiu anular tudo; e Lula trocou a cela em Curitiba por mais um mandato de presidente em Brasília. Mas isso é assunto para outra coluna.

Da próxima vez que o assunto eleições vier à tona, lembre-se: a corrupção de Lula não começou agora

Se hoje a gente vê Lulinha, citado como sócio oculto da fraude no INSS, com mesada de R$ 300 mil por mês, e Frei Chico à frente de um sindicato que viu os roubos do INSS crescerem 564% no governo do irmão, é porque ontem a gente viu um apartamento vazio no Guarujá e um sítio em Atibaia, pagos por um cartel de empreiteiras e saindo impunes.

E, se hoje o STF tem ministro ligado a resort investigado por lavagem para o PCC, e ministro com escritório da esposa faturando R$ 129 milhões do maior banqueiro corrupto da década, é porque foi esse mesmo STF que apagou as provas contra o homem que, de volta ao poder, continuou aparelhando cada vez mais um sistema que, como todo parasita, só cresce sugando quem o sustenta.

E sim, você está certo: esse parasita cresceu, e muito, nos últimos 10 anos. O sistema, mais unido do que nunca, segue cometendo os mesmos crimes e, quase sempre, saindo impune. O STF segue anulando processos e escondendo provas. E a gente segue contando e recontando essas histórias. Eles têm o poder da caneta. Nós temos um poder maior: contar a verdade até virar justiça.

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