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Anne Dias

Anne Dias

Na prática

Quer entender as tarifas de Trump? Pegue um lápis

Tarifas podem favorecer governos, fortalecer estratégias geopolíticas e até beneficiar determinadas empresas. Mas nunca beneficiam o cidadão. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)

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Trump quer impor novas tarifas sobre produtos brasileiros. Flávio Bolsonaro foi aos Estados Unidos tentar impedir a medida. Lula acusa a oposição de agir contra os interesses do país. Empresários se dividem. Economistas também.

No meio desse tiroteio de argumentos, é difícil saber quem tem razão.

As tarifas realmente protegem a economia? Elas preservam empregos ou apenas encarecem produtos? Existe alguma lógica por trás delas?

Antes de responder a essas perguntas, eu quero te fazer um convite.

Pegue um lápis.

Agora olhe para ele por alguns segundos e responda a uma pergunta que parece simples: quem fez esse lápis?

A resposta mais intuitiva seria dizer que foi uma fábrica. Talvez até uma marca conhecida. Mas a resposta correta é outra: ninguém fez esse lápis sozinho.

A madeira veio de uma árvore que precisou ser plantada, cultivada e cortada. Para derrubá-la, foi preciso uma serra. Para fabricar essa serra, alguém produziu aço. Antes disso, alguém extraiu minério de ferro.

O grafite percorreu outro caminho. A borracha, outro. A pequena peça de metal que prende a borracha provavelmente veio de um país diferente daquele de onde saiu a madeira. O mesmo vale para a tinta, a cola, as máquinas da fábrica, os caminhões, os navios e o combustível que permitiu que todas essas peças chegassem ao mesmo lugar.

Nenhuma dessas pessoas acordou pensando em fabricar um lápis. O lenhador queria vender madeira. O minerador queria vender minério. O caminhoneiro queria transportar cargas. O químico desenvolvia tintas. O metalúrgico produzia ligas metálicas. Cada um fazia apenas uma pequena parte do processo.

E, ainda assim, milhões de pessoas, espalhadas por diferentes países, falando idiomas diferentes e sem jamais terem se conhecido, cooperaram para que esse simples lápis chegasse até a sua mesa.

Agora volte ao noticiário.

Donald Trump quer impor uma tarifa de aproximadamente 25% sobre uma ampla lista de produtos brasileiros. É justamente aqui que o lápis deixa de ser uma metáfora. A madeira utilizada em sua fabricação pode ser taxada em 25%. Resinas, colas, vernizes, ceras e diversos insumos químicos utilizados ao longo da produção também estão na mira das novas barreiras comerciais.

Trump não está taxando um lápis. Está taxando as dezenas de produtos que tornam um lápis possível. O lápis continua exatamente o mesmo. O que muda é o custo para produzi-lo

E essa conta não desaparece. Ela apenas muda de bolso.

Em algum momento, seja pelo exportador, pelo importador, pela indústria ou pelo varejo, parte desse custo chegará ao consumidor final.

Na esfera política, é certo que cada lado defenderá a narrativa que melhor fortalece sua própria posição. Uns falarão em soberania nacional. Outros em defesa da indústria. Outros em geração de empregos. No fim, todos tentarão convencer o eleitor de que sua estratégia é a melhor para o país.

Mas a reação das empresas chama a atenção pela divisão de posicionamentos.

Coca-Cola, Nestlé, Tesla, Siemens, Caterpillar e eBay recorreram ao governo americano, posicionando-se contra as tarifas. Todas dependem de insumos brasileiros para fabricar seus próprios produtos. Quanto maior o custo da matéria-prima, maior o custo de produção e, inevitavelmente, maior o preço do produto final.

E, não ironicamente, a própria Faber-Castell também participou da discussão. A fabricante afirmou que o Brasil responde por 30,8% das importações de lápis dos Estados Unidos e que não existe alternativa capaz de substituir esse volume no curto prazo sem comprometer preços, qualidade e segurança. Segundo a empresa, tarifar lápis brasileiros significaria interromper cadeias de suprimentos e encarecer um dos materiais escolares mais básicos.

Por outro lado, associações da indústria do aço, produtores de açúcar de beterraba e parte da pecuária americana defenderam as tarifas. Não porque elas sejam boas para a economia como um todo, mas porque são boas para os seus próprios negócios. Com menos concorrência estrangeira, fica mais fácil vender seus produtos.

As duas posições fazem sentido sob a ótica de quem produz.

Algumas empresas lucram com tarifas. Outras lucram sem elas. Todas defendem a política que melhor atende aos seus próprios interesses. É justamente por isso que o livre mercado não existe para proteger empresários. Existe para proteger consumidores, cidadãos.

Essa é a maior lição daquele simples lápis.

O crédito por essa história pertence a Leonard E. Read, autor do ensaio I, Pencil, posteriormente popularizado por Milton Friedman em Free to Choose e em sua série de televisão. Se você ainda não conhece essa história, recomendo a leitura do ensaio ou que procure no YouTube o curto vídeo em que Friedman a utiliza para explicar o livre mercado.

Enquanto governos discutem novas tarifas, um simples lápis continua lembrando uma verdade que atravessa fronteiras e ideologias: a prosperidade não nasce quando dificultamos a cooperação entre as pessoas. Ela nasce quando deixamos que elas sejam livres para cooperar.

Tarifas podem favorecer governos, fortalecer estratégias geopolíticas e até beneficiar determinadas empresas. Mas nunca beneficiam o cidadão.

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