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Há cinquenta anos, um pequeno grupo de agricultores tomou uma decisão que contrariava tudo o que se ensinava sobre agricultura na época: parar de revolver a terra.
Herbert Bartz, Nonô Pereira e Frank Dijkstra pararam de arar o solo e passaram a plantar sobre a palhada – sem gabinete, sem cartilha de governo e sem verba pública. Naquela época, arar era quase um dogma: preparar a terra, expor o solo ao sol e à chuva, iniciar a safra. Era assim que sempre tinha sido feito.
Esses produtores fizeram uma pergunta simples: e se a natureza estivesse certa? Basta entrar numa floresta para ver que ninguém ara o chão ali. As folhas caem, formam cobertura natural, protegem a terra da chuva, conservam a umidade, alimentam a vida do solo. Foi dessa observação que nasceu o plantio direto. A palhada, que antes era vista como resíduo a queimar ou incorporar, passou a ser tratada como uma armadura da terra. Hoje isso parece óbvio. Há cinquenta anos, era heresia agronômica.
Um estudo da Embrapa, feito nos 30 anos do sistema, estimou que o plantio direto evita a erosão de quase 100 milhões de toneladas de solo por ano no Brasil, terra que deixa de ser carregada pela erosão para rios, represas e estradas. É uma transformação ambiental de escala nacional, promovida de dentro da própria fazenda, sem nenhuma política pública por trás.
Essa seja talvez a maior lição desses cinquenta anos: cuidar do solo nunca foi um obstáculo para produzir mais.
E os benefícios não param no solo. O plantio direto aumenta a infiltração de água, reduz o escoamento superficial, eleva a matéria orgânica, melhora a atividade biológica do solo, reduz o consumo de combustível e emissão, e transforma o solo num reservatório de carbono. Além do mais, estima-se que deixemos de arar quase 40 milhões de hectares.
Um estudo coordenado por João Carlos de Moraes Sá mostrou que, em diversas áreas brasileiras, o sistema recuperou mais de 80% do carbono perdido – em alguns casos, passou a armazenar mais carbono do que o solo nativo original. Em média, cada hectare sob plantio direto sequestra cerca de 1,74 tonelada de carbono por ano. Notável para uma tecnologia criada, antes de tudo, para resolver um problema de erosão.
Há uma ironia nisso que merece ser lembrada: enquanto parte do mundo ainda discute como produzir alimentos reduzindo emissões, o agricultor brasileiro já faz isso há cinco décadas.
O planeta cultiva hoje cerca de 1,6 bilhão de hectares de lavouras anuais, e pouco mais de 10% está sob plantio direto. O Brasil virou uma referência mundial nisso, e a própria FAO usou o modelo brasileiro e máquinas desenvolvidas aqui para levar o sistema a outros países. O Brasil não exporta só soja, milho e café. Exporta também conhecimento e uma forma própria de conciliar produção com conservação.
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Por isso, os cinquenta anos do plantio direto merecem comemoração além da porteira da fazenda. Representam um momento raro em que agricultores, ciência e observação da natureza andaram juntos e viraram símbolo da agricultura brasileira.
Vale lembrar, num tempo em que tanto se fala de sustentabilidade: uma das maiores revoluções ambientais da agricultura mundial não nasceu em ministério nem em conferência internacional. Nasceu no campo, da coragem de agricultores dispostos a aprender com a própria natureza.
Essa seja talvez a maior lição desses cinquenta anos: cuidar do solo nunca foi um obstáculo para produzir mais. Ao contrário, foi um dos caminhos que permitiram ao Brasil produzir melhor, conservar mais e virar referência mundial em agricultura tropical.
É também uma prova de algo que a história brasileira frequentemente confirma: quando o produtor tem liberdade para experimentar, inovar e assumir riscos, soluções extraordinárias podem nascer de dentro da própria sociedade.

Antonio Cabrera é médico-veterinário, empresário do agronegócio e presidente do Grupo Cabrera. Foi ministro da Agricultura e Reforma Agrária — o mais jovem da história — e secretário da Agricultura do Estado de São Paulo. Integra o Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp e preside o Centro Mackenzie de Liberdade Econômica. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



