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Antonio Cabrera

Antonio Cabrera

Estratégia agrícola

A soja brasileira pode ajudar a evitar uma guerra por Taiwan?    

Pequim trata a soja como insumo estratégico. (Foto: Imagem criada pelo Chatgpt/ Gazeta do Povo)

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A China depende de soja importada para alimentar seus rebanhos, e três de cada quatro grãos que ela compra vêm do Brasil. Para um pesquisador americano, essa dependência pode pesar na decisão de Pequim sobre Taiwan.

Quando pensamos no poder de uma nação, imaginamos porta-aviões, mísseis, satélites, petróleo e tecnologia. Raramente pensamos num grão de soja.

A Foreign Affairs, uma das revistas de relações internacionais mais influentes do mundo, publicada desde 1922 pelo Council on Foreign Relations, trouxe nesta segunda-feira, 2 de novembro, um artigo que merece a atenção de todo brasileiro ligado ao campo.

O autor, Joel Wuthnow, pesquisador da National Defense University, dos Estados Unidos, examina os riscos que a China enfrentaria numa guerra por Taiwan. Os analistas costumam olhar para o poder militar americano, as sanções econômicas e o corte de petróleo e de semicondutores. Wuthnow acrescenta à lista uma vulnerabilidade que quase sempre fica de fora: a dependência chinesa de soja importada.

O texto cita o Brasil poucas vezes. Para quem conhece os números do comércio de grãos, porém, o Brasil está no centro do argumento.

A potência que precisa importar proteína

A China constrói navios, desenvolve inteligência artificial e domina a fabricação de painéis solares e baterias. Há um recurso, porém, que nem o Partido Comunista consegue produzir por decreto: terra agrícola suficiente para alimentar 1,4 bilhão de pessoas.

Nos grãos básicos, o país chegou perto da autossuficiência e produz mais de 90% do trigo, do arroz e do milho que consome. O problema veio com a prosperidade. À medida que centenas de milhões de chineses passaram a ganhar mais, passaram também a comer mais carne, ovos e leite, e a pecuária cresceu na mesma proporção. Segundo o artigo, a fatia das importações no abastecimento alimentar chinês subiu de 6% em 2000 para 34% em 2020.

A soja está no centro dessa dependência. O farelo fornece a proteína das rações de aves e suínos, e o óleo de soja responde por quase metade do óleo de cozinha consumido no país. Para ampliar o plantio de soja, a China teria de sacrificar os grãos básicos que tanto protege. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos estima que o país deve importar cerca de 108 milhões de toneladas de soja na safra comercial 2026/27, um volume que nenhum fornecedor conseguiria substituir às pressas.

Pequim conhece o risco. No 20º Congresso do Partido Comunista, em 2022, Xi Jinping pôs a segurança alimentar em primeiro lugar entre as prioridades de segurança nacional, à frente da energia e das cadeias industriais. A memória pesa. Segundo Wuthnow, cerca de 15% dos chineses de hoje viveram a fome de 1959 a 1961, que matou algo como 30 milhões de pessoas.

O governo tenta reagir. Em 2025, o Ministério da Agricultura chinês anunciou um plano para reduzir a participação do farelo de soja na ração para cerca de 10% até 2030, ante 13% em 2023. O próprio autor reconhece, no entanto, que o aumento do consumo de carne tem anulado esses ganhos.

O Brasil no centro dessa dependência

Em 2025, a China importou um recorde de 111,8 milhões de toneladas de soja, segundo a alfândega chinesa. Desse total, 82,3 milhões de toneladas, ou 73,6%, saíram do Brasil. Os Estados Unidos, que durante décadas foram o principal fornecedor, ficaram com 15%. De cada quatro grãos de soja que a China importa, três são brasileiros.

A guerra comercial iniciada em 2018 acelerou essa troca. Pequim reduziu as compras dos americanos e foi buscar a soja aqui, e o produtor brasileiro respondeu com mais área e mais produtividade. A Conab estimava, no fim de 2025, uma safra 2025/26 de cerca de 177 milhões de toneladas, a maior da história.

Pequim trata a soja como insumo estratégico. Wuthnow lembra que estatais chinesas, como a COFCO International, compraram ativos e montaram estruturas logísticas no Brasil e na Argentina para comprar direto do produtor.

O episódio de 2018 mostrou, porém, um limite para a China. Trocar a soja americana pela brasileira reduz a dependência de um país rival. A dependência do transporte marítimo continua a mesma, e é aí que entra a tese da Foreign Affairs.

Uma guerra não precisaria atingir uma única lavoura

Numa escalada no Estreito de Taiwan, as atenções estariam voltadas para os navios de guerra e os aviões militares. A milhares de quilômetros dos combates, outro problema começaria a surgir. A soja sai dos nossos portos, atravessa dois oceanos e depende de armadores, seguradoras e rotas que funcionam bem em tempo de paz.

Segundo Wuthnow, nenhum bloqueio naval seria necessário. Uma guerra no Pacífico bastaria para fazer o seguro marítimo disparar, como já aconteceu no Mar Vermelho depois dos ataques dos houthis, e ali não haveria rota alternativa. Muitos armadores, boa parte deles dos Estados Unidos e de países aliados, deixariam de navegar para a China, por risco, por pressão política ou por medo de sanções. A frota mercante chinesa poderia cobrir parte do transporte, mas estaria ocupada com carvão, minério e suprimentos militares.

Pequim tem reservas e poderia administrar uma interrupção curta, liberando estoques e reduzindo a soja na ração. O autor estima, porém, que os estoques de soja durariam poucos meses, porque o grão é sensível à umidade e difícil de guardar por muito tempo. É uma estimativa incerta, já que o volume real das reservas estatais não é público. Wuthnow lembra ainda que, na última década, armazéns de emergência foram encontrados vazios ou com produtos estragados por causa de corrupção.

Numa guerra longa, a sequência seria previsível. Primeiro faltaria ração, e os criadores abateriam os animais antes da hora, começando pelas aves, que dependem mais do farelo, e chegando aos suínos. Depois viriam a corrida aos supermercados, o óleo de cozinha escasso e os preços em alta. O conflito chegaria às granjas, aos frigoríficos e, por fim, à mesa das famílias chinesas.

O cálculo político de uma guerra

Em estratégia militar, dissuadir significa convencer o adversário de que o custo de uma ação será maior que o benefício. A tese de Wuthnow é que a fragilidade alimentar da China pode cumprir esse papel.

Tudo depende de como os dirigentes chineses avaliam a duração de um conflito. Se acreditarem numa vitória rápida, com poucos tiros, os riscos econômicos talvez não os detenham. Se considerarem provável uma guerra longa, com comércio interrompido, energia restrita e pressão sobre o abastecimento, o cálculo muda. A crise doméstica chegaria antes da vitória no campo de batalha, e um regime cuja legitimidade depende da estabilidade social não pode ignorar esse risco.

Seria exagero dizer que a soja, sozinha, impediria uma guerra. A China pode buscar outros fornecedores, mudar a fórmula das rações e priorizar recursos, e decisões militares envolvem fatores políticos e históricos muito mais amplos. Essas ressalvas mostram que a segurança alimentar precisa entrar em qualquer avaliação séria sobre a capacidade de um país sustentar uma guerra. Um grão usado todos os dias na ração de aves e suínos pode influenciar o cálculo de uma das maiores potências militares do planeta.

O que o artigo erra sobre o Brasil

No pouco que diz sobre nós, Wuthnow repete um velho clichê. Descreve o Brasil como um fornecedor mais arriscado que os Estados Unidos, por causa da “infraestrutura precária” e dos “frequentes desastres naturais. O Brasil planta em vários biomas e climas, o que dilui o risco de uma catástrofe regional.

A infraestrutura também mudou mais do que o autor percebe. Os portos do Arco Norte, acima do paralelo 16 Sul, responderam por 36,2% dos embarques de soja do país em 2025, segundo a Conab. O porto do Itaqui, no Maranhão, saltou de 11,6 milhões de toneladas movimentadas em 2021 para 20,1 milhões em 2025. Sair pelo Norte encurta o caminho até o Canal do Panamá e a Ásia, e reduz a dependência de Santos e Paranaguá.

O problema está longe de resolvido. O produtor de Mato Grosso ainda paga um frete que o americano do Meio-Oeste, com suas hidrovias e ferrovias, não conhece. Esse atraso pesa no bolso de quem produz, mas não compromete a confiabilidade do fornecimento. Faz anos que o Brasil entrega, safra após safra, a soja que vende.

A dependência funciona nos dois sentidos

Há um ponto que o artigo, escrito do ponto de vista americano, deixa de lado. Se a China depende da soja brasileira, o produtor brasileiro depende do comprador chinês. De janeiro a novembro de 2025, a China levou 65% de tudo o que o Brasil exportou do complexo soja, somando grão, farelo e óleo.

Os navios que deixariam de chegar a Xangai numa guerra seriam os mesmos que hoje saem de Santos, Paranaguá, Itaqui e Barcarena. Depois do consumidor chinês, o primeiro a sentir o choque seria o agricultor do Cerrado, com a soja no armazém e sem ter para quem vendê-la. Fretes mais caros, câmbio instável e compradores em dificuldade atingiriam preços, comercialização e investimentos nas nossas fazendas. A posição estratégica do Brasil não nos protegeria dessa crise.

A guerra também não é o único risco. A China usa as compras de soja como moeda política. Depois do encontro entre Donald Trump e Xi Jinping, em setembro, estatais chinesas voltaram a comprar soja americana: cerca de 15 milhões de toneladas até meados de outubro, com a Casa Branca falando em 25 milhões no ano-safra. São compras de governo, porque o grão americano ainda paga 13% de tarifa na China, e o brasileiro paga 3%. Mesmo assim, mostram que Pequim pode deslocar milhões de toneladas de um fornecedor para outro quando a geopolítica pede.

Quem vende dois terços do que exporta a um único cliente tem poder de negociação. Também fica exposto a cada mudança de humor desse cliente.

O que o Brasil precisa fazer

A primeira tarefa é reconhecer o peso que temos. O Brasil é o maior exportador de soja do planeta, e essa posição deveria aparecer na mesa de negociação. A China prefere comprar o grão e processá-lo em casa, gerando emprego e valor por lá. Um país que fornece 73,6% da soja importada pelo comprador tem argumentos para pedir mais acesso para o farelo, o óleo e as carnes que produz.

A segunda tarefa é diversificar. Em 2025, compradores como Paquistão e Romênia aumentaram muito as compras de soja brasileira, e mercados africanos começaram a crescer. É pouco perto da China, mas é o caminho. Transformar mais soja aqui dentro, em ração, carne, biodiesel e óleo, também dilui o risco e deixa a renda no país. Aumentar o percentual de biodiesel misturado ao diesel e ampliar o esmagamento interno da soja fortaleceria esse mercado, agregaria valor à produção e reduziria nossa dependência das exportações de grãos.

A terceira tarefa depende de Brasília. O produtor conquistou o mercado chinês com pesquisa, tecnologia, investimento privado e a coragem de abrir regiões que poucos achavam produtivas. Conquistou mesmo com um Estado que mais atrapalha do que ajuda. Enfrenta frete caro, juros altos, insegurança jurídica e uma carga tributária que a reforma em curso ameaça aumentar. Só no primeiro semestre de 2026, a CNA registrou 41 invasões de propriedades rurais. Se a soja brasileira virou ativo geopolítico, o país precisa tratá-la como tal, com estradas, ferrovias, portos, regras estáveis e menos imposto.

Por fim, o Brasil deve manter a posição de fornecedor confiável para todos. Nossa força está em vender a quem compra, cumprir contratos e ficar fora de disputas que não são nossas. O comércio permite que regiões com terra, sol e água alimentem populações que não têm esses recursos, e o Brasil é o melhor exemplo dessa complementaridade.

A força geopolítica de quem produz

Na China, a segurança alimentar é assunto de Estado. Nos Estados Unidos, a fragilidade alimentar do rival é estudada como instrumento de dissuasão. No Brasil, a agricultura ainda é discutida, muitas vezes, só pela ótica da arrecadação, da regulação e das obrigações impostas ao produtor.

O artigo da Foreign Affairs ajuda a enxergar o que em Brasília costuma passar despercebido. A capacidade de alimentar o mundo gera renda e divisas, contribui para a segurança alimentar de bilhões de pessoas e dá ao país um peso que poucas armas dariam. O produtor brasileiro tem nas mãos um dos ativos estratégicos mais valiosos deste século, e está na hora de o país tratá-lo à altura.

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