Papa atende confissões na Jornada Mundial da Juventude de 2013, no Rio de Janeiro (crédito: L'Oservatore Romano/Reuters)| Foto:
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O papa Francisco fará o aborto deixar de ser um pecado tão grave. Agora é só pedir desculpas depois de ter assassinado o próprio filho que está tudo bem. Mesmo que o arrependimento seja só da boca pra fora.

O parágrafo acima é um escândalo, uma tolice e, logicamente, uma mentira. Mas é o que se entende ao ler o texto de alguns sites noticiosos (em especial os títulos) ao mencionarem a uma das medidas do pontífice para o Ano Santo da Misericórdia. Ocorre que o papa vai permitir que padres perdoem mulheres arrependidas de abortar, ato que, segundo o Direito Canônico, só era lícito aos bispos.

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Essa limitação não é nenhum tipo de punição extra a quem cometeu o pecado, mas uma consequência do fato de que alguns pecados graves levam o pecador à excomunhão automática, ou seja, a pessoa deixa de fazer parte da Igreja, espiritualmente, sem que haja a necessidade de um processo canônico, um decreto ou qualquer ato de qualquer autoridade. É uma lógica bastante distinta daquela usada na legislação civil, já que trata de uma realidade sobrenatural, que é o pecado.

Como só um bispo pode incluir o pecador novamente na comunhão eclesial (colocar a pessoa de volta na Igreja, legitimamente), a confissão desse pecado só é válida quando feita a um bispo. Só que tudo isso, como o leitor pode notar, são procedimentos legais, disciplinares. Não se trata de doutrina, então um papa tem autoridade para mudar. A grande novidade da notícia, então, é uma “mudança de instância”. Antes só um bispo podia dar absolvição validamente para esse tipo de pecado. Agora, por um certo período (de 8 de dezembro deste ano e 26 de novembro de 2016), a absolvição dos padres também vale.

É só isso. Não há revolução nenhuma. Trata-se de uma formalidade canônica.

Aos que insistem em grudar no papa Francisco o rótulo de revolucionário ou de esquerdista simpático ao abortismo, trago dois pequenos baldinhos de água fria. O primeiro é o fato de que o papa Bento XVI (ele mesmo, tido como “ultraconservador” por alguns colegas desonestos ou preguiçosos da imprensa) fez a mesmíssima coisa – autorizar padres a perdoar pecado de aborto – em 2011, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude de 2011, em Madri. Não há ineditismo nenhum nesse ato.

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O outro dado que vai aquietar a empolgação de quem torce por um papa comunista é a concessão do papa, por ocasião do mesmo Ano Santo da Misericórdia, de tornar válida a confissão atendida por padres da Fraternidade São Pio X, grupo de sacerdotes que não reconhece a validade do Concílio Vaticano II e que não estão em plena comunhão com a Santa Sé. Em alguns meios os sacerdotes desse grupo são chamados de tradicionalistas e têm fama de serem direitistas extremos. Mesmo com esse currículo, Francisco faz o que será visto como um inesperado ato de generosidade.

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