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Coronavac
Coronavac: o jornalismo abdicou de questionar as fontes oficiais| Foto: Américo Antonio/SESA

Algo surpreendente nesta pandemia é a maneira simplória com que muitas pessoas instruídas lidam com a verdade. Aprendemos a desconfiar das autoridades políticas, mas qualquer autoridade tecnocrata goza de uma confiança inexplicável. Aprendemos a desprezar jornais que chancelam tudo o que uma autoridade do Executivo diz, mas basta botar um jaleco que a autoridade pode ser babada e lambida por um jornal sem que este perca a credibilidade. Tudo se passa como se políticos fossem demônios e cientistas fossem anjos, em vez de serem todos humanos. E tudo se passa, também, como se a burocracia científica não estivesse sujeita à influência de algum chefe do Executivo.

A maior expressão disso talvez sejam as agências de checagem de fatos. Quando não está checando memes e piadas, o Estadão Verifica costuma defender com unhas e dentes qualquer declaração dos burocratas do Instituto Butantan.

História mal contada

Desde o começo da pandemia, ninguém precisava de links nem do respaldo de especialistas concluir que aquela vacina chinesa que Doria tentava empurrar era uma baita de uma história mal contada. Bastavam bem senso e atenção. O primeiro indício foi que a vacina penou para conseguir o mínimo de eficácia necessário para ter aprovação emergencial da Anvisa, que consiste em míseros 50%. Para atingi-los, foi necessário um novo método de cálculo de eficácia, pois, segundo o cálculo tradicional, ficava abaixo dos 50%. O Dr. Fernando Reinach denunciou isto à época no Estadão e foi tachado de fake news. Escrevi sobre isto no já remotíssimo janeiro de 2021. No fim das contas, a eficácia da Coronavac era de 49,69% segundo o cálculo tradicional; segundo o cálculo de odds ratio, os 50,38% anunciados à imprensa.

É pouco. Mas Doria, amparado por burocratas do Butantan, fez um escarcéu para dizer que a vacina “do Butantan” (e não chinesa) tinha incríveis 100% de eficácia na prevenção de casos graves. Ou seja: de alguma maneira, só havia 50% de chances de alguém vacinado não pegar covid; mas, ainda assim, era 100% certo que não teria covid grave. O que quer dizer que alguém que pese 150kg, tenha hipertensão e diabetes pode pegar covid e ter a certeza certa de não morrer. Isso é minimamente razoável?

Para quem gosta de diplomas, recomendo o texto do Dr. Fernando Reinach, que condenou a falta de clareza sobre a amostragem e a ousadia dessa universalização. Mas basta bom-senso para ver que um negócio desses não pode ser verdade. E se o Butantan chancelava isso, azar do Butantan: só põe lama na sua credibilidade.

À época eu fiquei surpresa com a insistência nesses 100%, porque basta um único caso grave para falsear do que foi dito. Hoje, tendo visto Doria no Roda Viva, considero que está no padrão dele.

Ex-fake news?

Por alguma razão, a rotina dos céticos desta pandemia envolve o rótulo de bolsonarista. Às vezes as pessoas se declaram bolsonaristas, às vezes são declaradas por outrem de forma injuriosa. De minha parte, julgo isso muito elogioso para a pessoa de Bolsonaro, já que seu círculo se revelou o único capaz de abarcar o ceticismo. É uma tristeza para o Brasil que o ceticismo só tenha um político a ser identificado consigo.

Pois bem: em abril de 2020, um youtuber bolsonarista disse que a Coronavac precisaria de terceira dose por se mostrar ineficaz. Agora, em setembro de 2021, o Butantan anuncia a terceira dose da vacina, supostamente necessária para proteger idosos da variante delta. (Por que uma dose igual às demais vai proteger de uma nova variante? Porque os especialistas dizem que vai.) Ou seja: o youtuber bolsonarista, sem diploma nem nada, estava absolutamente certo há mais de um ano. Ele assistiu a uma entrevista de um diretor do Butantan e tirou essa conclusão.

Mas lá em abril o Estadão Verifica anunciou: “É falso que Coronavac tenha se mostrado ineficaz e precise de terceira dose”. Depois foi desmentido pelo tempo e acrescentou uma errata: “Atualização, 28/05/2021: Esta checagem foi produzida com base em informações científicas disponíveis no dia 28 de abril de 2021. A possibilidade de uma dose de reforço foi discutida posteriormente em estudo preliminar de 21 de maio de 2021.”

Com que propriedade o Estadão Verifica dizia que se tratava de fake news? Ora, ouvindo a entrevista do diretor, o youtuber foi capaz de tirar uma conclusão perfeitamente correta. Além disso, meses após a aplicação da vacina já era possível o cidadão comum observar que os vacinados estavam tendo casos graves de covid e colocar em dúvida muito do que fora propagandeado.

Admitamos, porém, que é possível as evidências de então não serem conclusivas. Seria correta a manchete, e a errata seria prova de humildade; afinal, as evidências (chamadas de “informações científicas”) vão apontando para diferentes hipóteses conforme o tempo. No entanto, o corpo do texto mostra que o raciocínio não é esse: “Questionado por jornalistas da emissora sobre formas de aumentar essa taxa, Palacios [o diretor que o bolsonarista escutou] responde que Butantan estuda a possibilidade de aplicar uma dose de reforço, seja com a própria Coronavac ou com outros imunizantes, mas que isso depende de pesquisas prévias.” A possibilidade estava aberta, portanto. No parágrafo seguinte, continua a matéria: “Nas redes sociais, o Instituto Butantan também desmentiu a informação de que estaria recomendando uma dose extra. “O Butantan esclarece que não será necessária uma 3ª dose da vacina contra a covid-19”, escreveu no Twitter. “A Coronavac é segura e eficaz após o ciclo de duas doses e mais 15 dias, conforme apontam vários estudos.” Aqui, tudo mudou. O Twitter do Butantan e o diretor do Butantan estão dizendo coisas diferentes: um diz que até então não se estabeleceu a necessidade de uma terceira dose; outro, que nunca será necessária uma terceira dose. É evidente que a afirmação de Palacios é muito mais prudente do que a do tuiteiro anônimo. E com qual das duas o checador de fatos se alinha? Com a do tuiteiro!

No parágrafo seguinte, a versão parcimoniosa volta, sem que o jornalista atine que são duas coisas muito diferentes, as defendidas: “ ‘O que o Butantan estuda é atualização da vacina, com a possibilidade de, no próximo ano, aplicar uma outra dose, em razão das novas cepas e da evolução da doença, como ocorre com a vacina da Influenza’, acrescenta em nota. Palacios não fala, em nenhum momento da entrevista, que a vacina não estaria funcionando na prática.” No comunicado do Butantan de agora, não há nenhuma menção a esta ser uma vacina nova feita especialmente para a variante delta. As vacinas de Influenza são atualizadas para cobrir novas cepas; a Coronavac, se foi, o Butantan não contou no comunicado citado.

Checagem de fatos pode ser provada falsa?

É significativo que o jornalista tenha escolhido o termo “informação científica” em vez dos usuais “evidências” ou “indícios”. Informação científica é informação com o carimbo do Butantan.

Karl Popper revolucionou a filosofia da ciência ao colocar o critério de falseabilidade como essencial para separar ciência de pseudociência. Frente a toda afirmação científica, devemos poder pensar num meio de colocá-la a prova. É diferente da astrologia ou do marxismo, em que as coisas primeiro acontecem e depois são interpretadas como convém ao teórico, sem que ninguém possa provar que ele está errado.

É possível provar que os checadores de notícias estão errados? Não! Porque a verdade, para eles, é o que o carimbo do burocrata diz; é a Palavra do Butantan. Leiamos o grau de certeza da criatura: “Estudos demonstraram eficácia da Coronavac com duas doses – Como já explicou o Estadão Verifica em outras checagens, todas as vacinas aprovadas pelos órgãos regulatórios passam por uma sequência de etapas rigorosas de testes.” Se os estudos do Butantan disponíveis em abril concluíram tal coisa, assunto encerrado. Tudo o que os contrarie é fake news. Ora, nós não podemos mudar os estudos pretéritos; logo, se era fake news naquela época, é fake news pra sempre. Se o Instituto Butantan disser algo aparentemente contrário depois, aí sim as coisas mudam. É como se o Papa soltasse uma bula nova, e os checadores que deem seu jeito de arrumar as ideias.

Frise-se que é vedada a análise crítica dos dados do estudo do Butantan. O Butantan não conclui; o Butantan demonstra. No texto do Estadão Verifica de abril, sobra até para o Fernando Reinach, que em janeiro defendeu a eficácia de meros 49,69%. De posse dos dados do estudo usado como autoridade pelo checador, Reinach chegou a uma conclusão diferente e foi sumariamente considerada fake news. Sem citá-lo nominalmente, o artigo volta a repetir as conclusões por ele criticadas no próprio Estadão.

Vê-se assim que a questão das vacinas, o Estadão Verifica nada mais é que uma caixa de amplificação da propaganda do Butantan de Doria.

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