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Frank James
Frank James, preso pela polícia após ataque ao metrô de Nova York em 13 de abril de 2022.| Foto: EFE/EPA/SARAH YENESEL

Este mês houve um atentado no metrô de Nova York. Frank James vestiu uma máscara de gás, lançou granadas de fumaça e saiu tiroteando a esmo. Colocara também explosivos, que por sorte não detonaram. A polícia o prendeu com certa facilidade. E com certa facilidade a imprensa o escondeu. Afinal, Frank James era um terrorista negro racialmente motivado. Tinha uma vida online bem agitada: pedia ao “black Jesus” a morte de todos os whiteys (branquelos), reclamava que aquela juíza negra indicada para a Suprema Corte era casada com um branco, defendia que o povo negro não deveria ter nenhum contato com o povo branco. Uma flor de pessoa. O New York Times limitou-se a chamar isto de “material perturbador” e informar que Frank James estava “abertamente preocupado com raça e violência” – uma descrição que pode ser aplicada a qualquer um que se interesse pelas tensões raciais nos EUA.

Nas condições normais de temperatura e pressão, essa seria uma baita pauta. Mas eu, você, a torcida do Flamengo, Roberto Carlos e as baleias sabemos que esse é um fenômeno que não cabe direito na pseudorrealidade que a corporação jornalística gosta de apresentar. Nela, negros são criaturas passivas, vítimas quase eternas que só agora resolveram pedir cota racial. O racismo é sempre culpa do branco – este, sim, é visto como um agente moral capaz. Como um ser humano pleno, na verdade. Negros são vistos como algo menos que isso, mas numa época em que se coloca bicho acima de gente, essa inferioridade tácita é tida por boa coisa.

Qualquer ser humano de bem sabe que os negros são tão gente quanto os brancos. Que, portanto, se um branco é capaz de ser racista, um negro também é – ainda mais numa sociedade racializada como a dos Estados Unidos, e ainda mais com a propaganda progressista incitando ódio dos negros aos brancos.

Precedentes com o terrorismo Antifa

Um dos primeiros a levantar o material extremista de Frank James foi o jornalista Andy Ngo, uma figurinha carimbada nas celeumas de terrorismo progressista na América anglófona. Por acaso ele é gay, ateu e filho de imigrantes vietnamitas. Mas sua especialização na cobertura dos Antifas e BLM faz com que ele seja tratado como muito conservador e até supremacista branco. Os Antifas já conseguiram pegá-lo em 2019: socaram-no, chutaram-no e jogaram na cabeça dele pelo menos um dos seus “milkshakes”: copos descartáveis cheios de cimento de secagem rápida. Ficou desacordado e foi parar no hospital com hemorragia interna na cabeça. Ninguém foi preso e o governo não atende à sua demanda de considerar os Antifas um grupo terrorista. Eu, você, a torcida do Flamengo, Roberto Carlos e as baleias sabemos que isso também seria uma baita pauta.

Se você botar no Google Andy Ngo e milkshake, o primeiro resultado que aparecerá tem o título: “Como um troll de direita demonizou os Antifas para a mídia comum”. O próprio resultado da busca desmente o sucesso de Ngo perante a mídia; afinal, a matéria da Rolling Stone alega que ele manipulou a imprensa e que os Antifas só jogam milkshakes comuns nas pessoas. Para encontrar alguma solidariedade, só acrescentando “hemorrhage” na pesquisa. Aí encontramos – bem abaixo da matéria da Rolling Stone, que segue no topo – um editorial do Wall Street Journal condenando a violência sofrida por ele.

Falemos português claro: o establishment progressista – que inclui imprensa, governos e setores do judiciário – quer que gente como Andy Ngo morra. E quer isso exatamente porque apoia as ideologias violentas denunciadas por ele.

O affair Risério na Folha

Este ano Antônio Risério causou celeuma na Folha por escrever que negros podem ser racistas, que o identitarismo fomenta o racismo negro, que negros identitários têm histórico de antissemitismo e agora se voltam contra orientais, e que a imprensa, ela própria identitária, acoberta esse racismo. Seguiu-se toda uma polêmica na qual o autor não pôde se defender. A Folha dizia a Risério que a polêmica estava encerrada e por isso não publicaria sua resposta intitulada “Sem medo de cara feia”, mas ao mesmo tempo seguia publicando artigos contra ele. Teve até motim de jornalistas da Folha, que fizeram um abaixo-assinado contra o fato de o jornal publicar textos de Risério, Narloch e Magnoli – todos críticos desse neorracismo.

O scholar Thiago Amparo, colunista identitário que se investe como negro e gay oficial da Folha, fez um artigo relatando suas sensações relativas ao sistema digestivo, em vez de argumentar. Resumiu bem o nível do debate. Foi todo aquele dramalhão, chantagem emocional, acusação de racismo etc. E nada de esforço para provar que os exemplos apontados por Risério eram falsos. Mas o pior é que, mesmo que admitisse serem todos verdadeiros, esse pessoal trabalha com o conceito de racismo estrutural, que impossibilita chamar tais casos de racismo (porque não são "estruturais"). A teoria crítica da raça (também conhecida pela sigla em inglês CRT) não nega a possibilidade factual de um negro antibranco assassinar um branco. Nega a possibilidade lógica de isso ser considerado racismo, porque racismo é “relação de poder”, é “estrutural” etc. No Brasil, o bispo da igrejinha da CRT é Sílvio Almeida, que já critiquei aqui.

Com esse caso de Frank James, a turma estilo Folha tem, na prática, as opções: noticiar como "caso raro" de "extremismo" negro (para não falar "racismo") ou não noticiar. A primeira opção implicaria o debate. O debate os forçaria a reconhecer publicamente que seu novo conceito de racismo é feito sob medida para absolver terroristas como Frank James. Além disso, a exposição de suas postagens mostraria algumas teses recebidas com naturalidade pela imprensa lacradora, tal como a condenação de "casamentos inter-raciais". Em terras tupiniquins, temos visto isso com a expressão “solidão da mulher negra”: as manas, chatas feito o diabo, não arranjariam marido porque as brancas estariam levando os negros todos. Assim, os negros têm a obrigação moral de casar com negras e os recalcitrantes são chamados de "palmiteiros". O UOL tem artigo todo didático explicando o significado do termo, mas eu posso resumir: é o homem que casa ou namora sério com um palmito, ou seja, uma mulher branca.

O pensamento do terrorista Frank James é pouco distinguível dessa turma muito boazinha que infesta redações e universidades, que vive apontando o dedo para os outros, chamando-os de extremistas, fascistas e racistas. Que falta faz um espelho! Frank James providenciou-o.

Se a conduta da Folha com Risério não tivesse mostrado sua falta de seriedade, eu escreveria o seguinte para Thiago Amparo e cada um dos jornalistas que fizeram um abaixo-assinado contra Risério:

A carta que não mandei para a Folha

Descrições não têm o poder de alterar o estado de coisas. Se digo que nenhum negro é capaz de cometer racismo, esta é uma afirmação passível de refutação. É verdade que há, contra isso, um certo expediente malandro: a redefinição de termos ao gosto do sofista. Se um indivíduo negro tiver cometido um crime de ódio racial, o sofista motivado poderá dizer que o indivíduo não era negro, porque negros não cometem crimes de ódio racial, ou então que cometer crime de ódio racial não faz de ninguém um racista.

Assim, à luz do atentado terrorista no metrô de Nova York perpetrado por Frank James, quero saber dos senhores qual é a descrição ou explicação do fato. Primeiro, é patente que o indivíduo tem melanina mais que suficiente para passar por um tribunal racial brasileiro sem problemas. Nos Estados Unidos, onde uma gota faz um negro, é impossível negar-lhe a caracterização de negro. Segundo, sabe-se que Frank James usava as redes sociais para pedir a morte de todos os branquelos. Pode ser um não-racista quem deseje a morte de todos os brancos e ponha explosivos no metrô de uma cidade cheia de brancos?

Que os senhores selecionem, então, uma das opções para esclarecer o público:
A – Frank James é racista e não é negro, apenas tem a pele muito escura.
B – Frank James é negro e não é racista, pois explodir uns brancos ainda não altera as relações de poder, e racismo é relação de poder. Força, Frank! De bomba em bomba, uma hora essas relações mudam!
C – Frank James é racista e é negro, e nós vamos parar com essa irresponsabilidade de não chamar coisas perigosas pelo nome certo.

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