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Nas metrópoles, basta sair de um bairro para outro que um homem se torna um anônimo cercado de anônimos, com menos dificuldades de praticar o mal
Nas metrópoles, basta sair de um bairro para outro que um homem se torna um anônimo cercado de anônimos, com menos dificuldades de praticar o mal| Foto: Pixabay

A vida numa metrópole nos faz perder a ordem espontânea de vista. Esse é o caso, ao meu ver, da violência: a crença do homem hiperurbano (chamemos assim o habitante da metrópole) é que os homens se matariam todos uns aos outros caso não houvesse a polícia para pôr ordem no galinheiro e mandar os delinquentes para a cadeia.

Eu mesma me considero uma hobbesiana, mas acho o raciocínio excessivo: uma vez constituída uma sociedade – munida de um Estado com monopólio da violência e da Justiça – faz sentido esperar que em toda e qualquer cidade, de todo e qualquer tamanho, civis em tempos de paz cairiam nas gargantas uns dos outros se não fosse a polícia? Será que os homens deixam de assassinar inocentes com medo apenas de sanções estatais, sem ligar para estigmas sociais?

Digamos que você deseje ou tenha desejado muito matar alguém por raiva. Digamos agora que todas as leis do Estado brasileiro tenham sido suspensas e você não tenha a perspectiva de ser punido: você mataria sem medo de ser visto por todos ou preferiria fazer a coisa às escondidas? Ser chamado de assassino é estigma, e estigma é um mecanismo social para manter a moralidade no comportamento das pessoas.

Assim, o meu problema com a mentalidade hiperurbana é sua falha na leitura dos fatos. É verdade que a insegurança pública no Brasil pode em muitos casos ser atribuído à ausência de policiamento (coisa que varia pelo território nacional). É mais verdadeiro ainda que essa insegurança pode ser atribuída às leis bandidólatras que deixam criminosos violentos soltos. Mas, se temos leis tão ruins e policiamento às vezes nulo, como explicar a não-violência quando ela existe?

Os parâmetros do interior

Pouca gente no Brasil se muda para o interior; o movimento costuma ser das cidades pequenas para as metrópoles. Por isso, quando ouvimos alguém do interior falar de violência, sempre vai dizer que está fogo, um caso sério, um Deus nos acuda, que “o interior não é mais tranquilo como antes”. Ao que não se atenta, porém, são os parâmetros de quem diz essas coisas. Saí de Salvador, com seus quase 3 milhões de habitantes, para Cachoeira, com 30 mil habitantes espalhados entre a sede do município e seus distritos rurais. Depois achei uma casa para comprar, abaixo do preço, num local que os moradores esperam recuperar, mas que tem há uns cinquenta anos o estigma de ter um cabaré. Isso joga o preço pra baixo, a pandemia aumentou a demanda por liquidez e eu aproveitei. Outras casas restam fechadas esperando a valorização com o fim do cabaré da cafetina idosa e doente.

Na condição de forasteira, não dou a mínima para o estigma da rua. Mas sabia muito bem que cabaré atrai tráfico. Me inteirei da situação com um policial nativo e com conhecedores da área, e a conclusão geral é a seguinte: basta não interagir com “pombo sujo”. “Pombo sujo” é como os baianos chamam os bandidos. Acho que é porque os pequenos traficantes ficam no meio da rua parecendo uns pombos.

Mas, como Cachoeira “está fogo” etc., recebi também conselhos muito insistentes de que eu não deixasse a porta aberta. Eu demorei para entender o que se queria dizer com “aberta”. Destrancada? Não: era aberta, aberta mesmo. Se você falar para alguém da capital não deixar aberta a porta que dá para a rua, a pessoa vai ter dificuldade de entender, porque a possibilidade de deixar a porta escancarada nem passa pela cabeça. Mas a velhinha que mora na minha rua deixa o dia todo.

Perguntado, um vizinho disse que era um hábito comum até dez anos atrás. O vizinho em questão – como provavelmente a maioria dos cachoeiranos – odeia a UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia), então culpa a UFRB por essa terrível onda de violência que não deixa mais as pessoas ficarem de porta escancarada.

A meia dúzia de nativos partidários da UFRB – gente que tirou diploma por lá – diz que a culpa é do crack. Acho que a verdade é uma conjunção das duas coisas: campus de federal aumenta a presença do tráfico e, por outro lado, o crack se interiorizou pelo país inteiro. É sensato dizer que a presença da UFRB agravou um problema que já viria sem ela. Os homens de saia que ficam fumando maconha (que os moradores me descreveram raivosos) não viriam sem ela. O cracudo viria.

E o meu único choque cultural aqui foi a personagem do cracudo. Já contei neste jornal. Em Salvador, é impossível não reconhecer o cracudo, lá chamado de saci. Esquálidos, têm um olhar mau e inquieto. Aqui eu fui pedir informação para uma cracuda sem saber que era cracuda; parecia só uma moça aérea demais.

No frigir dos ovos, em Salvador eu andava alerta em área nobre, à noite, por causa dos sacis, reparando em árvores que servissem de esconderijo e em portarias que pudessem notar uma eventual investida contra mim. Aqui eu nunca vi saci e eu ando tranquila à noite. Avisto na porta do agitado cabaré os pombos sujos, que, diferentemente dos sacis, têm algo a perder e jamais puxariam uma navalha para moradora por causa de trocado.

Não posso deixar de observar que, a poucos metros dos pombos sujos, já em área nobre, fica o bar que frequento mais. O dono é um velhinho menor do que eu, com pouco mais de um metro e meio. Ele trabalha sozinho à noite, não aceita cartão, é cego de um olho e quase cego de outro. As comidas são todas fáceis de servir: ovo cozido, azeitona e requeijão de corte (que os paraibanos chamam de queijo-manteiga). Em quantas metrópoles policiadas do mundo tal personagem é possível? Acrescento agora que a polícia só tem aparecido na área uma vez por semana e que o 190 ninguém atende nunca. As leis daqui são as mesmas leis bandidólatras do resto do Brasil.

Claramente a polícia não serve para explicar essa paz.

Demografia?

A maioria das pessoas não é sádica nem sociopata, de modo que tem que superar dificuldades antes de fazer mal ao outro. Sem dúvidas, deixando de fora crimes passionais, é mais fácil fazer mal ao outro quando não o conhecemos. Nas metrópoles, basta sair de um bairro para outro que um homem se torna um anônimo cercado de anônimos, com menos dificuldades de praticar o mal.

No mais, ainda que o bandido estivesse disposto a fazer o mal contra o velho que o viu crescer, a cidade é pequena o suficiente para que o malfeitor seja identificado. E, uma vez identificado, terá uma legião de parentes e amigos do velho para vingá-lo. A justiça privada não é administrada somente em áreas de pouco Estado: é preciso haver um ambiente em que todos meio que se conhecem.

No Rio de Janeiro, eu me sinto mais segura à noite no Rio das Pedras do que na Zona Sul. Embora haja a milícia para explicar a maior sensação de segurança contra assaltos no Rio das Pedras, há também o fato de a região contar com um fluxo de pessoas muito inferior ao da Zona Sul. A lógica das favelas pacificadas pelo PCC deve ser a mesma: com traficantes que cresceram no local e, obviamente, sem respeitar o devido processo legal nem os direitos humanos, deve ser fácil identificar e punir ladrões. A justiça paralela consegue dar conta de pedaços das metrópoles que são como cidadezinhas à parte, e não das metrópoles propriamente ditas. Uma coisa é controlar quem entra numa favela. Vá controlar quem chega a Ipanema...

A favor da minha hipótese de que a necessidade de polícia ostensiva está ligada ao anonimato e, por conseguinte, às metrópoles, trago o fato de que o policiamento urbano moderno foi criado pelo Rei Sol para policiar a então maior cidade da Europa: Paris.

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