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mudança interior
Convento de Santo Antônio em Cairu (BA).| Foto: Bigstock

Com a pandemia, os patrões descobriram que os empregados não saem para comprar cigarros e nunca mais voltar caso não trabalhem sob os seus olhos. Não só o empregado trabalha quando está em casa com internet, como o patrão ainda corta uma baita despesa com prédio. Assim, creio que o home office tenha vindo pra ficar. O empregado vive de cuecas defronte do computador e o empregador deixa de ter gasto com aluguel, água, luz, computador etc.

Desses empregos, nem todos podem ser feitos totalmente pelo computador. Os advogados, por exemplo, volta e meia têm de ir ao fórum. Mas alguém que trabalha com TI ou com textos não tem que ir a nenhum lugar específico com frequência. Por isso mudar-se das metrópoles é uma tendência racional.

Se as pessoas seguem tendências racionais, são outros quinhentos. Creio que seja mais factível, por exemplo, sair da capital de São Paulo ou do Rio de Janeiro, cujos preços são notoriamente altos. Já na Bahia (e talvez nos estados da região Nordeste e do Sul), os preços da capital não são exorbitantes, e há um fator cultural relevante em sentido contrário ao racional: é bonito morar na capital e feio morar no interior. Em Salvador temos uma palavra para designar pejorativamente quem vem do interior, que é “tabaréu”. Não designa um tipo cultural, como "gaúcho" ou "caipira". É meramente pejorativo. Esse preconceito tem uma razão de ser no Nordeste, já que a região só ganhou eletricidade em seu interior com Lula. Quanto ao Sul, vemos que há um preconceito contra os “colonos”, que são uma população de origem rural – sinal de que entre eles a coisa também não é muito bem vista. Exceção parece ser a área de histórico bandeirante, com São Paulo cheia de cidades com classe média no interior. O uso estritamente ofensivo da palavra caipira em declínio.

Há um estranhamento mútuo e uma implicância entre o paulista do interior e o paulistano, mas, creio, não um desprezo por quem mora no interior pelo mero fato de morar no interior. Ao contrário: é até possível o paulistano sair da capital e ir para o interior em função da qualidade de vida, aceitando o preço de se submeter ao convívio com caipiras. É mais ou menos como o inglês se mudar para a França apesar dos franceses.

O Rio de Janeiro

O interior do Rio de Janeiro é pequeno demais para que os cariocas possam formar um preconceito homogêneo contra fluminenses em geral. Há os municípios que sabidamente são favelões tomados por tráfico, há os municípios com praias paradisíacas que paulista adora (mas nordestino não vai achar grande coisa, já que a água é gelada), há a região serrana (que é turística), há os municípios que já têm jeito de Minas. O estado do Rio é pequeno, tem bastante turismo interno e as partes urbanas de fora da capital têm má reputação não por causa de um prestígio especial da capital, e sim por causa de seu notório status de terra de bangue-bangue com fuzil. Então o fluminense endinheirado vive zanzando entre essas zonas de bangue-bangue; no verão vai à região de Búzios ou Angra, no inverno segue o costume da Família Real e vai à Serra. Seu contato maior com a anomia é quando pega a Linha Vermelha (se sai da Zona Sul) ou a Amarela (se sai da Zona Oeste) e passa por uma imensidão de favelas. Na parte do aeroporto internacional, algum prefeito achou uma boa ideia botar uma contenção com desenhos feitos pelas crianças do local. Talvez seja uma boa ideia mesmo. Fosse apenas uma contenção, e não uma contenção piegas, ficaria evidente o propósito prático de impedir arrastões. Mas impedir bangue-bangue, não serve. Às vezes traficante fecha o trânsito para trocar tiro, razão pela qual a minha tia me aconselha a pegar metrô para chegar à Zona Oeste e evitar a Linha Amarela.

Noto na classe média a tendência de querer “sair do Rio” (isto é, da capital) e se mudar para a região serrana, onde o custo de vida é mais baixo e o ritmo é mais sossegado. O estado do Rio, sendo pequeno, conhecido de sua população e heterogêneo, não tem uma noção de “o interior”.

A Bahia

Na Bahia, percebi que fiz uma excentricidade ao me mudar para o interior. “O interior”, no Nordeste, é visto como um lugar atrasado e pobre, onde só faz sentido morar caso se tenha propriedades. Concursados muitas vezes moram em Salvador e pegam a estrada para ir trabalhar no interior. Por essas e outras, o senso de distância de um nordestino é bem diferente do de um carioca. “Lá longe” para o baiano é Barreiras ou Conquista, que requerem uma viagem de mais de dez horas para chegar. (E eu já conheci funcionário público que morasse em Salvador trabalhando em Barreiras. Vivia na estrada e tinha esperanças de conseguir uma transferência. Na verdade, quase todo funcionário público da capital que passa em concurso no interior vive ansiando pela bendita transferência) Enquanto isso, Paracambi é “lá longe” para o carioca, que nem teria como viajar dez horas em linha reta dentro do próprio estado.

Dada essa noção de distância, não acreditei ter feito nada de muito excêntrico ao me mudar para uma cidade a apenas duas horas da capital. E acreditei ter feito algo de muito racional, já que conciliei um custo de vida inferior ao de Salvador com o meu gosto pessoal e, de quebra, melhoria da qualidade de vida.

Meu gosto pessoal é pela Bahia e pelo centro histórico. Como o Centro Histórico de Salvador tem pouca residência e, embora ele mesmo seja bem policiado, está encravado numa região cheia de cracudos, o que me obrigaria a me deslocar de carro. Só nisso os custos já sobem, e viver com medo de cracudo é ruim. No mais, eu gosto de fazer as coisas a pé.

O núcleo urbano de Cachoeira é um grande Centro Histórico com as fachadas tombadas pelo Iphan, com umas favelinhas nas bordas. A cidade é pequena o bastante para eu poder fazer tudo a pé nela; e, se eu quiser ir a Salvador, basta pegar uma condução fora de horário de pico, e chego aonde quero em menos tempo do que quem usa carro e fica preso em engarrafamento.

Ainda assim, cometi uma excentricidade porque fui morar num lugar mais pobre do que minha cidade de origem. Sendo racional, morar num lugar pobre faz de você um rico relativo, o que é bom para o bolso. Mas as pessoas não são tão racionais assim; e, exceto quando são pressionadas por custos exorbitantes, tendem a querer não ficar numa cidade “atrasada” ou “pobre”. Prestígio é um fator de peso ao se decidir pela cidade onde morar.

Padrões elevados

Nisso, o interior do Nordeste preserva uma cultura e um estilo de vida mais antiquados, já que pouca gente se muda para lá. Assim, minha mudança para o interior trouxe uma grata surpresa que são padrões muito mais elevados do que os meus.

O exemplo mais fácil de explicar é o ambiental. O Rio Paraguaçu, que banha a cidade, é bonito e piscoso. Mas quem ouvir um morador da cidade falando do rio vai achar que se trata do Tietê. Uma fábrica de couros foi instalada nas cercanias e, segundo dizem, desde então a água não é mais potável. Além disso, parece que há um ponto em que as pessoas jogam lixo. E tudo isso faz do Rio Paraguaçu um “rio poluído” segundo a boca do povo. Eu acho ótimo que os parâmetros deles sejam assim. No que dependesse de gente com parâmetros similares aos meus, metropolitanos, só ia estar poluído quando começasse a feder.

A questão do prestígio afeta também as vizinhanças. Nas metrópoles, o corte é por mera renda: cidade boa é cidade cara, bairro bom é bairro de rico. A única má surpresa de Cachoeira para mim foram os preços dos imóveis, consequência do tombamento pelo Iphan. Assim, o povo pede quatrocentos mil por casinhas regulares dos anos 50 em área contígua a favela. Por outro lado, uma casa melhor do que essas, numa área sem espaço para sequer surgir favela, tem o preço despencado em função da presença tradicional de cabarés na rua. As pessoas não têm problemas em morar perto de favela, mas acham um absurdo morar na rua do cabaré mais tradicional. Ou seja: eles têm outro parâmetro que não a renda para decidir se um local é bom ou ruim. Como na rua dos cabarés não tem cracudo, para meus parâmetros metropolitanos está tudo muito melhor do que a encomenda. De quebra eu fico espiando a vida alheia e catando assunto para escrever. Se você é escritor, morar junto de cabaré faz bem à profissão.

Por último, há a segurança. Os peões que fizeram cara de enterro quando me mudei para junto do cabaré me advertiram muito que Cachoeira está impossível e me mandaram fechar a porta. Elementar, eu sempre tranco a porta. Demorei a entender que estavam me recomendando não deixar a porta da rua escancarada, como fazem ainda alguns velhos pobres. Dados os meus parâmetros metropolitanos, nunca houve a possibilidade de deixar a porta da rua escancarada. Eu tranco a porta com naturalidade ao entrar; cresci assim. Mas em Cachoeira a visita pode ficar assustada, achando que estou com segundas intenções.

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