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O brasileiro típico acha que com educação todo mundo vive bem
| Foto: Bigstock

Volta e meia escrevo sobre algum problema cultural e aparece alguém na caixa de comentários dizendo que a solução é a educação, referindo-se à escolar e não à doméstica. De fato, creio que possamos dizer que a educação, a escola boa, são, no senso comum brasileiro, uma espécie de óleo de peixe elétrico: cura espinhela caída, cura misandria, cura dependência de drogas lícitas ou ilícitas, cura a criminalidade. A educação está para o brasileiro médio como o dinheiro está para o burocrata médio. O burocrata típico acha que com dinheiro todo mundo vive bem; o brasileiro típico acha que com educação todo mundo vive bem.

Ainda acho o brasileiro mais sensato do que o burocrata, já que vemos por aí gente fazendo muita besteira com dinheiro. Cheirar cocaína é vício caro. Comprar coisas de alto luxo pode significar apenas apreço por ostentação, em vez de real desfrute de uma qualidade superior… Em índices sociais, a maior quantidade de dinheiro pode significar também mero alto custo de vida, já que as pessoas precisam de mais para bancar o básico. Marcadores abstratos como a linha da pobreza consideram apenas a renda per capita mensal de um indivíduo, e deixam de lado propriedade. Ou seja: se um pequeno proprietário rural que se locomove por tração animal ganhar x reais, estará pior no índice do que um favelado da metrópole que ganhar 2x e gastar x com aluguel e transporte. Burocrata é um negócio impressionante.

Mas se podemos olhar para endinheirados usando dinheiro para fazer mal a si mesmos, que dizer do hospício a céu aberto que as universidades proporcionam ao público? Ora, é muito mais fácil encontrar bom-senso num pedreiro analfabeto do que numa doutora em estudos de gênero. “Isto é resultado da doutrinação!”, dirá o brasileiro médio. “Precisamos de verdadeira educação para combater a doutrinação!”, acrescentará, sem desapear da magnífica eficácia do seu óleo de peixe elétrico.

Concordo plenamente que doutrinação é um obstáculo à educação. Inclusive por aspectos práticos, porque ou bem você se dedica a ensinar politicagem, ou bem se dedica a ensinar a ler e escrever. Ainda assim, dá para devolver a pergunta: os homens de letras são mais doutrinados por frequentarem um ambiente ideologizado, ou o fato de um ambiente ser cheio de homens de letras o torna mais propenso à ideologização? Tostines vende mais porque é fresquinho, ou é fresquinho porque vende mais?

Falta de humildade é defeito de letrado

Eu fico com a segunda explicação. Vamos para uma coisa menos maluca do que ideologia de gênero, e que gozou de muita reputação entre os letrados de um modo geral: comunismo. No século passado, não era difícil encontrar em ambientes de classe média e alta quem o defendesse. Nas faculdades, então, era uma coqueluche. Quanto mais alguém estudasse, maiores as chances de ser comunista. E quanto menos estudasse, maiores as chances de sequer saber o que é comunismo.

Imagine-se agora explicando para um peão analfabeto o que é comunismo. Não o comunismo real, mas a miragem que seduziu tanta gente: um mundo em que nada é de ninguém porque tudo é de todos, e todos trabalham para todos de boa vontade, sem ninguém precisar nem obrigar. É possível que o peão analfabeto acredite em tal coisa? Só se houver um elemento sobrenatural no meio, do tipo: “Jesus voltará à terra, e então todas as coisas serão de todo mundo, e o trabalho não será mais um suplício. Todos viverão para sempre sem pobreza e carestia, porque todos trabalharão para todos como irmãos.” Aí, sim. Com um toque de milagre, a coisa fica crível para quem já crê em milagres – e peões analfabetos em geral creem num mundo cheio de elementos sobrenaturais.

Mas chegue para um peão analfabeto e diga: “Vamos pegar em armas, matar os donos de tudo e fazer com que ninguém mais possa ser dono de nada depois!”. Além do óbvio problema moral – matar os proprietários –, quais as chances de isso dar certo, aos olhos de um peão? No entanto, para os letrados isso era perfeitamente plausível. O milagre é que é inacreditável.

Acho que o leitor pode concordar comigo quanto à maior religiosidade ou supersticiosidade dos menos estudados e ao maior ateísmo dos letrados. Caso queiramos procurar um ateu, vamos às universidades e redações; caso um pesquisador queira resgatar as crenças mais ancestrais, um analfabeto é a fonte ideal. Os ateus estão desproporcionalmente presentes entre a gente de letras e a burocracia. Isso não se deve a uma “cristofobia estrutural” (embora haja um grande preconceito contra evangélicos nesse meio), mas sim a uma cosmovisão bastante racionalista. O letrado vê a natureza como um ambiente controlável; o ignorante, ao contrário, a vê povoada por espíritos, santos e demônios que ele não pode controlar. Não é um acaso que os três grandes planificadores do século XIX – Saint-Simon, Comte e Marx – sejam ateus e racionalistas. Assim, a crença na capacidade humana é exacerbada. Os letrados costumam não ser nada humildes, e sua arrogância os leva a formular grandes os sistemas de planificação que são propagados no ambiente acadêmico. A ideologização é consequência de uma disposição arrogante dos homens de letras, e não o contrário.

Simplicidade pode ajudar

Como há mais devotos do que ateus, digamos que, no que concerne à visão de mundo, a sociedade tende a ser mais parecida com o analfabeto do que com o homem de letras, e que o primeiro pode ser visto como uma resistência conservadora involuntária no campo da moralidade.

Não adianta nem a TV falar “todes”, que ele simplesmente não vai entender o que ela quer dizer com isso. Ele não lê coisas em rede social, porque não sabe ler. Ele não vai entender ideias complexas e abstratas, porque não está acostumado a entender ideias complexas e abstratas. Tente explicar a um analfabeto que a distinção entre cis e trans é diferente da distinção entre homo e hétero, de modo que homem cis (com pênis) que gosta de mulher trans (com pênis) é hétero e não homo (De acordo com a ideologia de gênero, isto que acabei de escrever é verdade). O analfabeto não apreende esses conceitos, nem está interessado. Sabe apenas o que é “uma bicha” e o que é “um traveco”; qualquer conversa sobre “macho” gostar do membro viril alheio é coisa de gente doida.

No caso do comunismo, também há todo um jargão complexo que, para ser apreendido, demanda mais miolos do que um analfabeto quer gastar.

Analfabetos não vão bolar raciocínios complexos. Se só existissem analfabetos, não haveria física newtoniana nem romances complexos como o Quixote. Mas complexidade não é uma coisa boa em si mesma. Como a nossa sociedade vem valorizando as coisas complexas como boas em si mesmas, ficando boquiaberta com qualquer falastrão que apresente números e use jargão, essa simplicidade dos analfabetos acaba se tornando uma virtude.

Importância social da opinião entre os letrados

Por fim, a gente simples, tendo apenas opiniões simples e sendo dada a discutir apenas coisas banais, não é julgada em função de suas opiniões. É julgada por sua conduta: por aquilo que faz, não pelo que diz. No mundo das letras, opinião é trabalho; assim, faz sentido que as pessoas se julguem em função de suas opiniões. O juízo que começa no plano intelectual (“Fulano é um idiota para acreditar numa estupidez dessas”) logo passa ao plano moral (“É impossível que Fulano acredite nessa estupidez que diz. Ele está esperando algum ganho com isso!”). E como as pessoas são muito julgadas pelo que dizem, acaba-se negligenciando o que fazem. Eis o palco armado para a hipocrisia se instaurar.

De resto, como falar é fácil, cria-se também o espaço ideal para a irresponsabilidade. E assim ficamos na atual situação em que os letrados são pressionados por seus pares para falar bobagem em uníssono, sem ligar para a realidade dos fatos. E como o que importa, para julgar alguém, é tão somente o que a pessoa diz, essa pressão só tende a aumentar.

Creio que assim se formem as bolhas de opinião. E não creio que o ensino formal da população ajude nesse processo, já que isso só faz com que mais gente pense com cabeça de letrado.

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