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Homem com guitarra
O jornalismo pateta acha que, se começar a dar ordens às pessoas, elas vão obedecer.| Foto: Bigstock

A imprensa tradicional está em crise. Há alguns fatores bastante pertinentes que podem ser apontados, tal como sua compra por um regime totalitário. Ora, se as empresas paraestatais do Partido Comunista Chinês começam a comprar veículos de comunicação do mundo livre, não é de admirar que eles se tornem máquinas de propaganda. Mas o fato de esses veículos precisarem de dinheiro costuma ser imputado a um fator que considero duvidoso: a ascensão da Internet faria com que as pessoas não estivessem mais dispostas a pagar por informação, levando assim os meios tradicionais à bancarrota.

Informação grátis existe desde antes da Internet. Vinha pela TV e pelo rádio, que tiravam sua renda dos anúncios veiculados para o grande público. Sites noticiosos também recebem esse tipo de publicidade. Se as pessoas preferirem receber informação por meio de canais do Youtube e sites noticiosos gratuitos em vez de televisão, isso pode significar a mera migração da imprensa tradicional para outras tecnologias. O jornalismo não morreu com o surgimento da TV nem tem por que morrer com o surgimento da Internet.

Ademais, sempre existiram pessoas dispostas a pagar por informação mais elaborada. Eram assinantes de jornais impressos antes e hoje são assinantes de jornais digitais, como esta Gazeta do Povo. O único problema que a Internet oferece é a possibilidade de piratear o acesso. Por outro lado, pirataria anda de mãos dadas com notoriedade e dificilmente um jornal fora do eixo Rio-São Paulo poderia, sem Internet, alimentar esperanças de se tornar nacional.

Não há por que a Internet representar o fim do jornalismo pago. Se as pessoas de repente resolvem parar de pagar por informação é porque não reconhecem qualidade no produto vendido. Sem dúvida há leitores radicais que só querem notícias pró ou contra o governo, mas publicações de nicho partidário sempre existiram e nunca – nem antes, nem depois da Internet – tiveram público comparável ao do jornalismo não-partidário.

Existe uma razão para o declínio da imprensa tradicional. É o jornalista pateta.

Exemplo lapidar de jornalismo pateta

O fato ocorreu num telejornal local baiano e foi divulgado por um site noticioso baiano, mas eu soube por Polzonoff, o que quer dizer que deve ter corrido o país. No dia do rock, o roqueiro Marcelo Nova, ex-vocalista da banda Camisa de Vênus e parceiro de Raul Seixas (cujo último disco é “A Panela do Diabo”, gravado com ele), foi entrevistado no Jornal da Manhã da Rede Bahia, afiliada da Rede Globo.

No tuíte que chegou a Polzonoff, o Bahia Notícias colocou a seguinte chamada: “No Dia do Rock, Marcelo Nova faz discurso negacionista [sic] no Jornal da Manhã.” Abaixo, um excerto das falas do roqueiro em que ele diz: “"Para um sujeito como eu, prestes a fazer 70 anos de idade e com 40 anos de carreira, isso não serve pra mim. Eu fiz minhas regras, eu faço meu caminho, eu não deixo que governadores nem prefeitos, nem presidentes…, ninguém manda em Marcelão".

Perguntado pelo período de isolamento, ele responde: “Veja bem, isolamento parcial, porque eu não me submeto a esses ditames do 'fique em casa, fique em casa, não saia, não se aproxime'. Eu beijo quem eu quero, eu abraço quem eu quero... E eu vou morrer, se não morrer de Covid, vou morrer de câncer, atropelado, assassinado, de zika, chikungunya, essas coisas...”.

Vejamos: em algum momento ele negou algum fato relacionado à Covid? Não. Pelo contrário, disse que poderia de fato morrer de Covid. Ele, “idoso”, “grupo de risco”, quer ter a liberdade de correr riscos. Não quer políticos determinando se ele pode abraçar e beijar alguém. A música mais famosa do Camisa de Vênus talvez seja “Bete Morreu”, em que uma jovem de futuro promissor aparece assassinada de repente, à toa. Seria estranho que o compositor dessa música (ou, na verdade, qualquer roqueiro dos anos 1980) de repente passasse a viver confinado esperando a vida eterna.

Como opera a cabecinha de alguém que interpreta a manifestação da própria vontade de autodeterminação como “negacionismo”? Negacionismo era negação da existência do Holocausto, depois virou negação da pandemia, depois virou afirmação da eficácia da ivermectina e agora não está mais nem restrita à afirmação ou negação de fatos. Liberdade e espinha ereta são negacionismo.

Mas respondamos à pergunta de como opera a cabecinha de quem chama isso de negacionismo. É fácil: duas pernas, ruim; quatro pernas, bom. O Mal é encarnado por Bolsonaro e o Bem por Renan Calheiros. O Bem consiste em mandar as pessoas ficarem em casa e se vacinarem, sonegando informação de riscos. Se elas morrerem, está tudo certo, pois foi pelo Bem Comum.

O jornalismo pateta acha que, se começar a dar ordens às pessoas, elas vão obedecer. E aí fica com cara de tacho, põe a culpa no WhatsApp, quando as assinaturas caem e o povo prefere amadores a profissionais.

De onde vem tanta autoconfiança?

Pois bem. Clicando na matéria divulgada pelo tuíte, lemos uma reprimenda escolar a Marcelo Nova e aos jornalistas televisivos, que foram respeitosos com o convidado: “Apesar da fala contrariando as orientações preconizadas pelos cientistas e autoridades sanitárias, ele não chegou a ser repreendido ou corrigido. No estúdio, os jornalistas Ricardo Ishmael, Thaic Carvalho e Gustavo Castelucci ficaram nitidamente desconcertados, mas atribuíram as falas à ‘irreverência’ do roqueiro.”

Segundo o pateta anônimo (a matéria não é assinada), os jornalistas deveriam dizer ao velho que ele não tem liberdade individual e deve obedecer às autoridades sanitárias — aquela gente sensata que fecha praça e abre shopping. Também não poderiam chamar de irreverência. Na certa o correto seria chamá-lo de genocida mau como um pica-pau.

Mas por que será que a imprensa está em declínio, não é mesmo?

Tenho uma especulação para a origem desse tipo de pateta. Na escola, dos anos 1980 para cá, nós somos ensinados a querer “mudar o mundo” e a pensar do ponto de vista do Estado. Reparem que tudo quanto é redação do ENEM é sobre “políticas públicas”, em que se pede ao aluninho que diga como o Estado deve reger a sociedade e exterminar o Mal. Essa educação cria cidadãos esquizoides, que são súditos, mas se sentem reis. Toda vez que um rei dá uma ordem, o súdito não entende que quem deu a ordem foi o rei, e corre para justificá-la como se ele próprio a tivesse dado.

Para se manter assim na idade adulta, só mesmo sendo pateta. Permanece acreditando em tudo o que as professorinhas lhe disseram. Acha que é especial, que vai mudar o mundo. E como se muda o mundo? Ora, repetindo tudo o que as autoridades do Bem dizem. A escola acabou, não há mais professorinha, entra o Renanzinho Científico.

Perante esse cenário de parvoíce, acho a China muito boba por comprar jornais decadentes. Não precisa comprar os meios tradicionais para transformá-los em máquina de propaganda; basta deixá-los se encher de jornalistas patetas. E se eles estavam decadentes, provavelmente já fizeram isso.

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