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As pessoas se entopem de comida, de drogas; se o trabalho não obrigar, não têm horário para nada… Numa palavra, falta disciplina
As pessoas se entopem de comida, de drogas; se o trabalho não obrigar, não têm horário para nada… Numa palavra, falta disciplina| Foto: BigStock

Estou há anos encucada com um enigma e hoje, seis de janeiro de 2022, exclamei “eureka”. O enigma concerne às damas de elevado IMC que vão ao nutricionista pegar dietas que não funcionam. Por que elas vão ao nutricionista pedir uma dieta, se elas sabem muito bem o motivo de estarem com o IMC tão elevado? E como os nutricionistas ganham a vida passando dietas malucas que ninguém segue?

Após muito meditar e ampliar o convívio com a parentela em época natalina, posso enfim clamar aos quatro ventos: “eureka!”. As damas com IMC elevado (o editor vai brigar comigo se eu usar a palavra que começa com G) querem manter sua alimentação tal como está, e precisam de um especialista que passe uma dieta inexequível precisamente para que elas não a executem. Se tais damas chegassem a um consultório e o nutricionista mandasse pararem de comer besteira, que desculpa elas teriam para continuar com o IMC elevado?

Tudo seria mais simples, é claro, se cada uma dissesse: “este é o estilo de vida que eu quero levar e pago o preço com minha beleza e minha saúde.” Mas essa convicção não está formulada na cabeça delas. Não querem pagar nem com a beleza, nem com a saúde. Querem menos ainda mudar o estilo de vida. Então, para ficarem tranquilas, é preciso pagar a uma autoridade que lhes garanta que a mudança de estilo de vida é dificílima, conseguida apenas por alguns monges budistas no Tibete. Já as mulheres com peso bom têm o peso bom porque são ricas ou têm uma boa genética. Estar gorda e doente é normal; estar sadia e com bom peso é para um punhado de celebridades e sortudas. Querem ouvir uma voz dentro de suas cabeças dizendo assim: “Pode comer seu salgadinho à meia noite em paz e relaxe, que o padrão é esse.”

“Academia para não ficar gorda”

Cresci ouvindo que teria de ir a uma academia de ginástica, senão inevitavelmente ficaria gorda. Deve ser uma crença comum no meio urbano, a de que se as pessoas não forem à academia ficarão gordas.

Acaba-se o ensino médio com sua atividade física obrigatória e lá vou eu então à academia de ginástica para não ficar gorda. Lá aprendo que nas academias as pessoas ficam fazendo movimentos sem sentido ao som de uma música irritante e alta. Nas memórias de sobreviventes de campo de concentração, aprendemos que parte da tortura psicológica dos nazistas consistia em fazer os prisioneiros executarem tarefas braçais sem sentido ao som de marchinhas. Ir à academia me faz achar os nazistas muito sensatos, pois esse é um meio eficaz de torturar alguém. Não sei como os nazistas fariam para torturar psicologicamente o habitué de academia. Aposto que as marchinhas alemãs eram muito mais aprazíveis do que a batida eletrônica, que é uma coisa ruim por si só e eu usaria em porões caso quisesse torturar alguém com privação de sono.

Naturalmente, não fui à academia mais do que uma vez e paguei para ver se engordava ou não. Pensei, também, que não pode ser verdade que a falta de academia de ginásticas cause, mesmo em meios urbanos, a transformação de magros em gordos. Telefono para a vovó que chegou aos sessenta bonita de corpo e confirmo que não tinha nada parecido com academia de ginástica mesmo na época dela.

Nunca fiquei gorda. Assim, já que sou oficialmente uma sedentária desde os 17 anos, então estou há mais de dez anos ouvindo ora que sou “magra de ruim”, ora que tenho a genética boa. “Magra de ruim” é uma expressão que surgiu quando o bom era ser cheinha: as mães compravam Biotônico Fontoura para engordar a prole, e, se a moça continuava magra, era de ruindade, não de falta de comida. Com o tempo, ser magra ficou bonito, e se a criatura come, come, mas não engorda, é porque a malvada é ruim e mata as outras de inveja.

Eu nunca fui glutona, então rejeito o rótulo de magra de ruim. Restava a hipótese genética boa. De fato, a maior parte da descendência da avó em questão é magra. Mas também é verdade que a avó em questão sempre teve cuidado com a alimentação e se empenhava em telefonar para os filhos que moravam em outros estados para saber como estavam se alimentando e quanto estavam pesando. Então talvez, quem sabe, o ponto importante fosse a alimentação e não a genética.

Os especialistas

Todo mundo deve conhecer uma dama com IMC elevado que, numa de suas múltiplas peripécias para perder peso, decide ir a um nutricionista. Eu dei a sorte de conhecer uma mulher esclarecida, que é médica e por isso não acredita em qualquer bobagem. De quebra, fazia (e faz) muita atividade física e fica me chamando de sedentária magra de ruim. Um belo dia, diz que vai a um nutricionista. Como todo mundo que a conhecesse um pouquinho sabia que o problema dela era comer doce demais e pular refeição, perguntei por que ela ia para um nutricionista, se ela já sabia o que havia de errado com a alimentação dela. Ela me garante então que vai a um dos poucos nutricionistas sensatos que ela conhece. Exemplo de sensatez é não botar dieta sem glúten e sem lactose a menos que o paciente seja celíaco ou alérgico a lactose. Aí eu fiquei de queixo caído ao saber que o povo paga para ir a um nutricionista receber dietas restritivas sem pé nem cabeça.

O meu queixo cairia mais ainda ao descobrir que o nutricionista, após passar aquela dieta robótica que eu vi no ímã da geladeira, seria substituído por uma “nutricionista comportamental”, isto é, a nutricionista especializada em passar dietas levando em conta o comportamento do paciente. Aí eu concluí que está todo mundo louco, já que o povo paga para a ir a um nutricionista que não leva em conta o comportamento do paciente.

Depois a dama de IMC elevado concluiu que algum problema de ordem psicológica precisava ser superado e decidiu ir a uma psicóloga. “Não faça isso!”, digo eu a qualquer um que fala em ir a um psicólogo, “Eles são loucos! Se você estudasse no mesmo campus que os alunos de psicologia, correria de psicólogo!” Mas lá vai ela à psicóloga. Explicações psicológicas com raízes na infância são dadas para o porquê de ela comer doces. Mas para não dizer que eu estava certa, foi-me apontado como prova inequívoca da competência da psicóloga que ela, a paciente, agora está com o quarto arrumado. Pronto: revirar a infância – e pagar sei lá quanto – fez com que o quarto fosse arrumado.

Eu tenho uma explicação mais plausível para isso: as pessoas gostam de sentir responsáveis ou culpadas pela própria situação, então procuram uma figura de autoridade que garanta que o seu problema é muito especial. Lá no fundo, porém, suspeitam que estejam pagando a um charlatão. Ninguém gosta de se sentir enganado por um charlatão. Assim, finalmente se mexem para resolver algum problema e atribuem isso ao especialista.

Arrumar o quarto é uma coisa ridícula de fácil. Está ao alcance de qualquer um que não seja aleijado. Por outro lado, se você disser que isso se devia a um trauma de infância que o especialista consertou, você fica livre de se sentir um trouxa por não ter arrumado o quarto antes, nem por ter pago a um especialista para lhe mandar arrumar o quarto.

Hábitos evidentemente ruins

A última vez em que ouvi que tenho a genética boa foi esta semana. A familiar que está cada vez mais gorda levantou minha camisa pra pegar na minha barriga: “Lisinha! Você não faz dieta? Genética boa!” Com dedinho em riste e nariz empinado, acrescentei: “Nem academia”. Dedo em riste e nariz empinado, porque não é genética coisa nenhuma, e existe uma diferença entre a minha conduta e a dela para explicar a diferença dos pesos.

Eu tenho hora para acordar, hora para almoçar e hora para dormir. Quem não tem rotina e dorme pouco acaba comendo mais e comendo mal. E essa familiar ainda faz algo que jamais passaria pela minha cabeça: comer salgadinho industrializado de noite, depois da janta. O salgadinho não surge por geração espontânea. A pessoa compra e tem sempre um estoque noturno. Há planejamento e deliberação. É uma rotina de engorda sem sentido. Mas não há planejamento e deliberação para manter uma rotina sadia.

Depois eu soube que ela estava tentando emagrecer e ia a um nutricionista. Eu não acredito que ela não saiba que comer salgadinho à noite engorda. Pensando bem, eu duvido muito de que a maioria dos gordos não saiba por que são gordos. Ninguém pode comer um monte de besteira e ficar sem saber, depois, por que está gordo. De admirar é que uma parcela significativa de gordos insatisfeitos com a própria condição vão a nutricionistas antes de tentar rever sozinhos os próprios hábitos.

Por que será, então, que nutricionistas passam dieta sem glúten e sem lactose para quem não é celíaco nem intolerante a lactose? Ora, assim dão uma dieta difícil de ser cumprida e, portanto, um álibi para o paciente continuar gordo. Se o nutricionista dissesse coisas elementares que a paciente poderia ouvir da mãe (tais como “nada de salgadinho de noite!”, “não coma um pote de sorvete sozinha nunca!”), quantas não se sentiriam trouxas e continuariam indo ao consultório?

Delegação da resolução de problemas

Creio que essa mentalidade seja comum em nossa época. Os homens não têm mais que ser disciplinados. As pessoas se entopem de comida, de drogas; se o trabalho não obrigar, não têm horário para nada… Numa palavra, falta disciplina. As pessoas não são mais gordas hoje do que na década de cinquenta por causa do sedentarismo, mas sim por falta de disciplina.

Quando a pessoa não tem uma disciplina estabelecida por si mesma, clama por uma disciplina externa. Está fora de questão tomar a iniciativa de mudar algo na própria rotina. Aí as damas com IMC elevado, em vez de fazerem aquilo que é óbvio para elas mesmas, vão à autoridade pedir uma dieta.

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