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Lula e seu fiel escudeiro Marcelo Freixo: articulações seriam uma preparação para a posteridade?
Lula e seu fiel escudeiro Marcelo Freixo: articulações seriam uma preparação para a posteridade?| Foto: Fotos Públicas

Venhamos e convenhamos: se Lula quisesse, poderia entrar num carro cheio de vidro fumê e sair nos bastidores de um ambiente controlado, bem ao estilo daquela estrutura montada no Sindicato dos Metalúrgicos quando ele estava para ser preso. Quem era lulista àquela época não deixou de ser. A mortadela está em baixa, mas o fundo partidário bancado por nós deve dar conta dos ônibus para trazer os camisas-vermelhas de sempre. Lula apareceria para essa plateia controlada e seu fiel escudeiro-fotógrafo, Ricardo Stuckert, tiraria umas fotos bem bacanas para a imprensa máquina de propaganda dizer a todo o mundo que o ex-presidiário de luxo é amado pelas massas.

Se Lula não faz isso é porque não quer. E ele não querer fazer isso é algo que requer explicação.

Desde quando ele saiu da cela de luxo e fez um discurso (que a imprensa máquina de propaganda chamou de entrevista), fiquei com a impressão de que ele não é candidato; que ele discursa para intelectual e não para eleitor. Mas isso não explica por que ele deixaria de ir às ruas tirar umas fotos bacanas com Stuckert.

Lula moribundo?

Tudo fez sentido quando eu li isto: “Lula está com saúde debilitada. Continua tentando controlar o câncer, já fez 19 sessões de quimioterapia e toma diariamente quimio oral. Deve chegar vivo no final da eleição, mas não tem mais forças para fazer campanha de rua nem ganha no voto de Bolsonaro. Aposto que vai optar por entrar para a história como um mito, sem essa derrota final”.

Quem escreve é Hugo Studart, brasiliense, hoje professor universitário de história, outrora jornalista de veículos tradicionais. Posso discordar (e discordo) de muitas análises de conjuntura que ele faz, mas obter informação e fazer análise são coisas bem diferentes. Análise é algo posterior à coleta de informações, sendo que esta exige bom faro e boas fontes. Hugo Studart já descobriu até ex-guerrilheiro do Araguaia que desertou com vida.

Se Lula estiver mesmo com a saúde muito debilitada, não pode aparecer em público. Em regimes de veio totalitário, a saúde do Guia é fundamental. Vimos Chávez negando o quanto pôde o tumor. Vemos a saúde de Kim Jong-Un cercada de mistério. A recente ida de Lula a Cuba pode, inclusive, ser uma repetição das tentativas de Chávez de curar um mal secreto. Lembram-se da médica do Hospital Sírio Libanês punida por vazar informações sobre Marisa Letícia? Pois então: o Sírio Libanês é garantia do melhor tratamento, mas não de sigilo absoluto.

Na minha época de acadêmica, eu tinha um colega que era petista de verdade. Antes do impeachment, ele manifestava a esperança de que Lula voltaria depois do segundo mandato de Dilma. Eu lhe perguntava: mas ele não vai estar muito velho? E ele respondia que bastava botox e Viagra. Eu insistia que alguma uma hora ele estaria velho demais e queria saber o que viria depois. A mesma coisa: botox e Viagra. A confiança dos petistas na vida eterna do caudilho é uma coisa impressionante.

Se Lula aparece decrépito, a militância leva um balde de água fria. Eles não têm um nome para agregar a militância.

Propaganda para a eternidade

Polzonoff me conta (e a todo mundo no Twitter) que está indignado com Lula subitamente convertido em garoto propaganda da Companhia das Letras, que postou em seu perfil oficial Lula segurando a biografia de Samuel Wainer. Pouco depois disso, vejo que Lula divulga em suas redes sociais uma foto de Ricardo Stuckert de sua inconfundível mão sem mindinho sobre o volume 2 de “Escravidão”, da Companhia das Letras. Todos os que têm livros às vezes pousam a mão sobre um deles – estranho é haver um fotógrafo profissional a postos para capturar o momento. A conclusão inevitável é que a propaganda quer agora retratar um Lula intelectual. Na verdade, é a Companhia das Letras quem faz propaganda de Lula, não o contrário.

Fiquei ainda mais convencida disso ao ler a seguinte passagem de “Hitler e os alemães”, de Voegelin: “para tornar Hitler popular, a propaganda nacional-socialista sempre insistia que Hitler era um homem que não lia livros. Eis aqui um homem de ação prática, que lê revistas ilustradas, e essas reportagens eram acompanhadas de fotografias de Hitler com revistas ilustradas nas mãos. Mas ele não era tão primitivo; isso era provavelmente propaganda para torná-lo popular”.

Assim me ocorreu que o Lula que não lia livros era também propaganda, e propaganda da época em que ele ganhava eleição e tinha popularidade. Não estou dizendo aqui que ele seja um grande leitor. É que normalmente quem não lê finge que lê. Duvido de que Bolsonaro seja um grande leitor, mas em 2018 ele ostentava livros de Olavo de Carvalho, Ustra e a biografia de Churchill. Lula, não. Alardeava bastante que não gostava de livros. Parecia-se com o Hitler olhando para revistas ilustradas. E o principal rival de Lula à época era um almofadinha uspiano, de modo que faz todo o sentido posar de peão pragmático.

A propaganda vendia antes um Lula analfabeto; a propaganda vende agora um Lula intelectual, o Ho Chi Minh do ABC.

O que ele quer? Viver como lenda nos livros de história escritos pela classe intelectual. Aí, sim, ele pode falar mal de evangélico, porque não é voto o que ele quer. O rival de Lula hoje se chama Getúlio Vargas, cuja imagem da época do Estado Novo apareceu no último protesto de esquerda. Que ele babe a Companhia das Letras, que se mostre muito engajado em causa politicamente corretas, que babe os uspianos. Getúlio se matou no auge da popularidade para entrar na história. Lula não pode mais fazer isso, então tem que bajular os escritores dos livros de história.

E as eleições?

Se é duvidoso que Lula quer mesmo se candidatar a presidente, não é duvidoso que algumas forças querem que ele se candidate. A explicação disso é a mais óbvia e simples: usar Lula como poste do vice. Fazer de Lula o Biden do Brasil, com uma Kamala à espreita. Se Lula quer se prestar a isso são outros quinhentos.

Perguntei a um ex-esquerdista que se gaba de entender bem as brigas de facções PT, e que ainda está envolvido com política, o que ele achava. Ele tem certeza de que esse é o plano da turma que está entrando no PSB agora, os egressos do PSOL e do PCdoB. Gente que não tem cacife para se candidatar sozinha, mas que tem boas relações com o STF e é queridinha da imprensa. Se é verdade, não sei. Mas que é plausível, é.

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