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Olavo de Carvalho
Olavo de Carvalho: lavagem cerebral| Foto: Foto: redes sociais/Olavo de Carvalho

Por que Bolsonaro ganhou a eleição? Segundo João Cezar de Castro Rocha, por causa de uma conjunção entre o Orvil, o Brasil Paralelo, o “messianismo evangélico” (do qual ele fala en passant, então não vou falar porque senão esta resenha não acaba), o zap-zap, e… Olavo de Carvalho, que é o assunto de hoje. Ele se empenha em provar que Olavo é um doido, o que não é algo muito difícil de fazer. Mais em específico, ele pretende provar que Olavo é um doido anticomunista com uma obsessão por técnicas de lavagem cerebral. Cito-o:

“Eis o conceito-chave, obsessivo mesmo, da obra inteira de Olavo de Carvalho: lavagem cerebral; noção à qual retornarei, e, como sempre, recorrendo às palavras do autor. E, ponto decisivo, em larga escala, vale dizer, um esforço deliberado de manipulação mental coletiva – nada menos do que isso.” (p. 94)

Eu estou disposta a chamar de doido quem acredite em lavagem cerebral coletiva, e já dei nesta Gazeta a minha explicação para a cultura brasileira ter sido de esquerda. Em resumo, é em parte porque a censura da ditadura era a coisa mais contraproducente do mundo e só servia para irritar, e em parte por só ser visível uma bolha de classe média. O povo ia cuidar da vida no Milagre Econômico e quem se interessava por cultura estava soltando fogo pelas ventas com a censura de coisas tão inofensivas como “Tiro ao Álvaro”. O pensamento do povo que foi cuidar da vida não era visível antes da internet. Enquanto isso, a centralização da Educação em Brasília promovida pelos militares, somada à estrutura dos concursos, acabou facilitando a doutrinação.

Não é razoável crer o Brasil fosse todo esquerdista até aparecer Olavo num cavalo branco distribuindo red pill. Ao contrário: a catástrofe econômico do PT e a agudização do progressismo na mídia tradicional coincidiram com o avanço da internet, que tornou possível a campanha de um político periférico capaz de catalisar as revoltas contra o PT e contra as elites progressistas.

Em 2018, a maioria dos brasileiros não sabia quem era Olavo de Carvalho nem tinha assistido aos documentários do Brasil Paralelo. Olavo foi importante para renovar a cultura brasileira. Mas se movimento intelectual de classe média tivesse efeito eleitoral tão contundente, o PSOL já teria eleito um presidente e o MDB, PP e PSD seriam partidos nanicos.

Teoria conspiratória criticada e adotada

Assim, o Prof. João Cezar colhe passagens do §13 do livro 'O jardim das Aflições' para provar que Olavo acredita na possibilidade de lavagem cerebral coletiva por meio da internet e do audiovisual. Vou destacar uma passagem: “Com a descoberta da hipnose forçada, o uso conjugado da estimulação incoerente e das ab-reações repetidas abria os mais promissores horizontes aos manipuladores da mente. Para reduzir um homem a uma obediência canina, já não havia necessidade de discursos em alto-falantes, de gritos, ameaças ou tortura mental.” Esse seria o expediente cultural que explicaria o Brasil esquerdista para Olavo de Carvalho.

Daí, ainda em 1995, com a internet doméstica nascente, o mesmo Olavo enxergaria potencialidades com o avanço das comunicações: “Não é preciso enfatizar as facilidades que, hoje em dia, a rede das telecomunicações e a informatização da sociedade oferecem para a aplicação dessa receita em escala nacional, continental ou planetária. Se ninguém ainda tentou, foi somente porque não quis, ou porque tropeçou em algum obstáculo acidental.” E eis a conclusão de João Cezar à página 105: “Em 2018, alguém tentou, isto é, a campanha vitoriosa de Jair Messias Bolsonaro. Em outros contextos, o laboratório teve lugar com êxito invulgar em 2016, na Inglaterra e nos Estados Unidos, respectivamente, no plebiscito do Brexit e na eleição de Donald Trump.” À página seguinte, diz: “as técnicas de lavagem cerebral, descritas com evidente volúpia em páginas inquietantes de O jardim das aflições, tornaram-se autêntica orgia com as possibilidades abertas pelo universo digital e pelas redes sociais.”

No fim, senhoras e senhores, é o Golpe do Zap-Zap, com Olavo de Carvalho maquinando a lavagem cerebral desde a Virgínia e distribuindo-a por meio do Brasil Paralelo e do WhatsApp. Olavo de Carvalho exerce “poder encantatório” (p. 138) e “pessoas inteligentes, honestas […] foram abduzidas” pelo seu “sistema de crenças” (p. 261).

Desumanização do “bolsonarista”

Além de cometer o delito intelectual que imputa aos outros ao fazer teoria da conspiração, o Prof. João Cezar faz algo que pode ser chamado de “retórica do ódio”, porém voltado para os “bolsonaristas”, isto é, os que realmente são apoiadores da pessoa de Jair Bolsonaro (tal como Bia Kicis ou Carla Zambelli) e os que apenas não são seus opositores incondicionais (tal como Rodrigo Constantino ou eu mesma). Não é legítimo desumanizar ninguém. Faço essa ressalva porque já vimos que qualquer um que não se junte ao coro “Bolsonaro Genocida” está sujeito a ser considerado bolsonarista, portanto sub-humano. (E João Cezar se junta. À página 278 chama a covid de “maior tragédia da história brasileira”, culpando Bolsonaro por tudo e sem mencionar a China.)

A desumanização começa com essa caracterização das “pessoas inteligentes” como autômatos, uma vez que tenham sido “encantadas” por Olavo de Carvalho ou pela “máquina de ódio” bolsonarista. Essa premissa de que o outro, por fatores externos, não pensa mais, tem como conclusão natural a legitimidade do campo de reeducação. Afinal, é preciso que “nós, os racionais”, desfaçamos o feitiço imposto a “eles, os bolsonaristas”.

João Cezar toma como paradigma do manifestante bolsonarista algumas senhoras que acusaram profissionais de saúde de cheirarem mal, ao os verem protestando pacificamente por melhores condições de saúde. “A menção feita pela empresária ao ‘cheiro’ da pessoa que está na sua frente me produz engulhos, confesso sem remorsos.” (p. 185) No entanto, a coisa mais escandalosa em matéria de protesto de rua das últimas décadas é uma tentativa de homicídio, perpetrada por Maninho do PT. A maneira de lidar com a violência dos seus correligionários diz muito acerca de um grupo político. Como mostrou esta Gazeta, Maninho segue livre, leve e empregado pelo PT. João Cezar não diz um pio sobre isso e faz parecer que só palavras importam, de modo que a bolsonarista malcriada é a pior manifestante possível.

Pessoalmente, nunca vi alguém dizer que 100% dos manifestantes de direita são bons. O que vejo é alegarem que as manifestações de direita são pacíficas. João Cezar ignora isso e, à página 45, alega que as manifestações de rua de direita são de índole soreliana: “Ir para a rua: de fato, a nova direita aderiu à ação direta como forma de ocupar espaço e ganhar visibilidade. Seus militantes não necessariamente leram a obra de Georges Sorel, mas, com certeza, memorizaram as postagens piromaníacas […] de Olavo de Carvalho”. O maior seguidor brasileiro de Georges Sorel é Marighella, que bolou o sequestro de Charles Elbrick. Nos dias de hoje, Sorel é melhor representado pelos black blocs, já que Sorel faz apologia explícita da violência.

Violência na rua é crime. João Cezar se esforça por criminalizar a direita, usando apenas retórica bombástica e conhecimentos precários.

Repetição de Luciano Ayan?

Quem apresentou João Cezar como intelectual público, e não mero literato, foi o MBL. O MBL é formado por ex-olavetes e tinha como guru o também ex-olavete conhecido como Luciano Ayan. Como vocês podem ver nesta Gazeta, Luciano Ayan defende a possibilidade de lavagem cerebral coletiva via internet e acusa a direita de fazê-la. Esse guru saiu de cena após o escândalo de corrupção envolvendo o MBL, descoberto na Operação Juno Moneta. Vocês podem ler o resumo das acusações nesta nota do site do Ministério Público de São Paulo. Ayan foi preso, mas a investigação parece ter seguido o curso natural do Brasil pré-Lava Jato.

Ayan está envolvido na CPMI das Fake News e foi tratado com toda condescendência pelo veículo petista Diário do Centro do Mundo, em matéria macartista que criminaliza opinião e defende desmonetização de "bolsonaristas". Figuras conexas a ele e ao MBL se vendem como direita moderada e grandes entendedoras da “extrema direita”.

Se João Cezar se incomodar com alguma coisa escrita aqui e quiser responder, pode mandar um e-mail para o meu chefe: jonesr@gazetadopovo.com.br.

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